Filipe Jervis: o bom, o mau e o... campeão de surf?

Candidato surpresa ao título de campeão nacional de 2018, o surfista de Cascais sempre se debateu com fragilidade na competição. Mas depois de um ano em que bateu no fundo, apresenta-se livre de pressão e muito mais perigoso

"O surf é ingrato". Quem o diz é Filipe Jervis, 27 anos, candidato à vitória final no Bom Petisco Cascais Pro (4 a 6 de Outubro) e ilustre membro de uma geração de ouro do surf nacional da qual fazem parte Frederico Morais, Vasco Ribeiro, Zé Ferreira ou Francisco Alves, para citar os mais sonantes.

A "ingratidão" de que fala Jervis poderia referir-se ao seu ano de 2017, quando perdeu o seu patrocinador principal, e à travessia do deserto que se seguiu. Ou uma alusão à luta inglória entre o "Jervis bom" e o "Jervis mau", que é como quem diz, entre o "surfista do dia a dia" e o "surfista de competição". Um conflito que marcou toda a sua carreira.

"Não sou competidor, nem pouco mais ou menos", assume Filipe Jervis. "Sempre fui o surfista do dia a dia, muito consistente no "free surf" mas também o surfista que falhava rotundamente nos campeonatos. Passava do melhor para o pior sempre que vestia a licra", relata o surfista de Cascais que não esconde que procurou ajuda em vários psicólogos: "Sempre fui muito fraco psicologicamente e nunca consegui desbloquear este problema."

Foi preciso bater no fundo, quando o seu patrocinador de 8 anos cessou o vínculo contratual para as coisas mudarem. "O ano passado foi muito complicado porque fiquei sem patrocínio principal, tive de começar a trabalhar, com menos tempo para surfar e acabei em 27º da Liga, o meu pior lugar de sempre", conta.

Obrigado a recorrer a aulas de surf para ganhar dinheiro, acabou por transformar a dificuldade em oportunidade: "A minha fonte de rendimento era o patrocínio da Ericeira [Surf Shop] pelo que fiquei sem maneira de me financiar. Felizmente, o meu antigo treinador, Rodrigo Sousa, deu-me a mão e fui trabalhar para a sua escola de surf. E este ano acabei por formar o meu próprio projeto, a "Jervis Surf experience"."

Para Jervis, o ensino do surf não é, como se diz pejorativamente na praia, "empurrar pranchas", é bem mais que isso, reforça: "Infelizmente, hoje as pessoas andam mais preocupadas em ganhar dinheiro com o surf do que ensinar respeito e educação. Dou aulas a apenas 4 miúdos de cada vez e tento estabelecer uma ligação pessoal e transmitir a maneira como aprendi a fazer surf, a respeitar os locais e os mais velhos. Tento usar a minha plataforma para passar valores, não só de surf mas valores humanos."

Transformar limões em limonada

A contrariedade, ironicamente, libertou-o para a melhor época de sempre na Liga, estando sempre na perseguição ao líder, Gony Zubizarreta, e, portanto, ao título nacional, para o qual o surfista espanhol não é elegível. "Talvez por estar sem patrocinador, mas também sem pressão, acabei por ter mais tempo para surfar e mais ritmo. Parece que este ano desbloqueei e o Jervis do "free surf" apareceu muito mais. Talvez seja a maturidade de quem está a poucos meses de fazer 28 anos", considerou.

Mas chegou o Allianz Sintra Pro e tudo foi baralhado por um "seeding" bastante diferente. "Alguns bons surfistas como o Pedro Coelho, Nicolau Von Rupp e outros, entraram pela primeira vez na etapa da Praia Grande, o que obrigou a mexer no alinhamento das baterias e acabei por levar com "heats" atipicamente fortes desde início. Normalmente, chego aos quartos de final facilmente e ali acabei por ser eliminado na segunda ronda. Podia ter acontecido a outro, mas calhou-me a mim...", lamenta.

Mas e para Cascais e, mais especificamente, a corrida ao título nacional, o que esperar de Filipe Jervis? "Para Cascais, não dependo só de mim. Tenho de vencer e esperar que o Vasco [Ribeiro] e o Miguel [Blanco] não vão à final. Obviamente, quero ganhar. Estou em casa, quer seja em Carcavelos ou no Guincho e não faço pior que um quinto lugar nesta etapa há uns cinco anos. Vou fazer aquilo que gosto: vou surfar e ver o que acontece."

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