Fernando Santos: "Temos o melhor e fomos campeões europeus mas a Argentina não ganha nada"

Selecionador nacional esteve esta segunda-feira no Fórum Nacional de Treinadores, em Portimão, sobre "Ser Campeão Europeu".

Fernando Santos falou esta segunda-feira sobre o peso de ter o melhor jogador do mundo, no caso Cristiano Ronaldo, num contexto de seleção. "Temos o melhor do mundo e fomos campeões da Europa, mas a Argentina tem um dos melhores de sempre, que se chama Lionel Messi, e não ganha nada. Estamos mais perto de ganhar se tivermos o melhor ou os melhores, mas individualidades não ganham sozinhas. Se as estratégias dos treinadores forem perfeitas, as equipas terminavam sempre empatadas. As individualidades e a criatividade é que desequilibram. Os rapazes é que estão lá dentro", afirmou o selecionador nacional no Fórum Nacional de Treinadores que se está a realizar em Portimão.

O selecionador nacional de futsal, Jorge Braz, também falou de como é poder contar o melhor da modalidade, Ricardinho, mas valorizou as características diferentes que os outros jogadores aportam à equipa das quinas nas quadras internacionais: "Com dez Ricardinhos safava-me também, mas gosto de ter diferenças."

Jimmy Hagan recordado

Para explicar a forma como escolhe o modelo de jogo para as suas equipas, Fernando Santos recuou aos tempos de Jimmy Hagan, seu treinador do Benfica e no Estoril no início da década de 1970, falecido em 1998. "A fase de pensar um modelo ou uma filosofia é absolutamente teórica mas fundamental para levar à prática. Por vezes pensamos, pensamos, pensamos mas depois há o adversário, o vento ou a chuva. Tive um treinador que gostei muito do que era o Jimmy Hagan, com o qual não joguei muito. No Benfica, com aquele conjunto de craques, era só ganhar. No Estoril na III Divisão também. Quando voltou para treinar o Estoril na I Divisão as mesmas ideias já não davam, pois ele só queria jogar para a frente. E ele estava muito preocupado, dizia que ia descer de divisão. Tudo depende do contexto. Fala-se muito em dar espetáculo mas os treinadores sabem que estão dependentes de resultados. Ganhar é marcar na baliza dos outros e não deixar que ela entre na tua", frisou o selecionador nacional, que caracterizou o estilo da equipa das quinas.

"Na seleção não é como no clube. Chegamos a estar quatro meses sem nos vermos. Na última convocatória tivemos um dia de treino, de resto foi só recuperação. Em termos ofensivos, procuramos ser uma equipa de posse mas em alguns momentos do jogo explorar o ataque rápido. Depois pretendemos uma reação rápida à perda de bola e não deixar que o adversário possa contra-ataque. E quando estamos em fase defensiva, procuramos condicionar o mais alto possível. Mas algumas vezes o adversário consegue ultrapassar essa primeira fase e temos de recuar", explicou, num painel moderado por Henrique Calisto cujo tema era "Ser Campeão Europeu".

"Falta o contra-ataque às grandes equipas"

Fernando Santos lamentou ainda que, com a preocupação dos seus colegas de profissão com a posse de bola, o contra-ataque esteja a cair em desuso por parte das equipas de topo. "Acho que hoje está-se a perder um bocadinho a essência contra-ataque. E não é só frente a um adversário mais poderoso, também frente a equipas inferiores. É um momento importante que hoje falta um bocadinho às equipas de topo, por tanto insistirem em organização ofensiva em posse", salientou.

O selecionador nacional, que antes orientou FC Porto, Sporting e Benfica, assumiu que os treinos na seleção não são muito elaborados taticamente e que procura "desenrascar". "Portugal neste último lote de convocados teve jogadores vindos de várias bases de sistema. Por vezes passamos duas semanas a preparar treinos e depois no primeiro dia só estão lá 14 e chegam cansados. Disse aos jogadores qual era a estratégia, mas depois há 25 ou 30 por cento que é da criatividade dos jogadores. Mas pensarmos que vai para aqui ou para ali é uma grande tanga, é tudo filosófico. O treinador português tem capacidade para desenrascar. Já andámos pelo mundo e sabemos que os outros não têm forma de se desenrascar. Quando virmos um muro, passamos por cima ou damos uma volta, os outros vão bater com a cabeça no muro. Os jogadores têm essa capacidade e não podemos cortar nisso", frisou, corroborado pelo seu homólogo do futsal.

"Conceptualizar as nossas ideias é fundamental, apesar do pouco tempo que temos para treinarmos. Por vezes temos acesso a tanta informação que depois só estorvamos. O que é que o jogador português tem? Que características têm? Por vezes pensamos no que a Espanha e o Brasil fazem e esquecemos a nossa matéria-prima. O jogador português gosta de ter relação com bola. Procuramos simplificar, mas por vezes complicamos. Fazer coisas simples e bem é que é difícil. Os nossos jogadores são pequeninos, rápidos, inteligentes e gostam de ter bola", acrescentou Jorge Braz, que não descartou Portugal da luta pelo título mundial. "Porque não?", questionou na zona de entrevistas rápidas.

O 'nós' que inclui o roupeiro

Fernando Santos sublinhou a importância de toda a estrutura para o sucesso de uma equipa, incluindo elementos sem tanta influência no treino e no jogo como é o caso dos roupeiros. "O roupeiro - que em Portugal se calhar só se sabe o nome de um - e o departamento clínico são os grandes confidentes dos jogadores. O 'nós' é fundamental e não se resume à equipa e ao treinador", atirou, não considerando que a missão de um selecionador seja menos nem mais complicada do que a de um treinador de clube.

"Ser selecionador não é mais fácil ou mais difícil do que ser treinador. Há menos tempo para trabalhar mas por outro lado não há o desgaste de nos vermos todos os dias. O que é diferente tem a ver com a sistematização tática, que na seleção não existe. Ao selecionador compete não fazer disto um problema mas encontrar uma solução para corresponder ao objetivo definido pelo presidente da Federação. Depois aceito o desafio ou não aceito", rematou, destacando a "criatividade" como uma grande qualidade do povo português.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG