Estádio Nacional. Uma obra da propaganda fascista para a modernidade

O recinto foi inaugurado no dia 10 de junho de 1944 pelo Presidente da República Óscar Carmona e pelo presidente do Conselho (cargo idêntico ao de primeiro-ministro) professor António Oliveira Salazar.

O Estádio Nacional faz hoje 75 anos. A obra nasceu como promessa de Oliveira Salazar em 1933, por altura do Congresso dos Clubes Desportivos. Um ano depois a promessa ganhou vida. Foi aberto um concurso para a construção de um complexo desportivo no Vale do Jamor em Oeiras. Concorreram vários arquitetos. Uma das propostas apresentadas foi a do arquiteto Cristino da Silva, que tinha estado associado ao arquiteto Constantino Costantini na construção do Fórum Mussoulini, em Roma... mas não passou à final. Depois de escolher dois projetos dos arquitetos Francisco Caldeira Cabral, Konrad Wiesner e Jorge Segurado, o ministro das Obras Públicas, Duarte Pacheco, chamou a si a responsabilidade do projeto e delegou no arquiteto Jacobetty Rosa a sua execução. Foi dele a ideia da tribuna de honra, que ainda hoje recebe os vencedores e os vencidos após a Taça de Portugal.

Influenciado pelo grandioso Estádio Olímpico de Berlim, o Estádio Nacional foi inaugurado a 10 de junho de 1944, o então Dia da Raça Nacional e hoje Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A obra ganhou contornos propagandísticos e durante os anos da ditadura recebeu sempre as cerimónias daquele que é hoje o Dia de Portugal. A inauguração, segundo o DN da altura, "foi uma grande afirmação nacional de otimismo, disciplina e beleza". A festa terminou com um Benfica-Sporting - (o vencedor da Taça de Portugal com o campeão nacional), o primeiro de muitos dérbis no Jamor -, que os leões venceram por 3-2.

A partir daí e durante 12 anos, o estádio passou a ser a casa das seleções nacionais. Os resultados eram de tal forma positivos que o Jamor ganhou fama de "casa invencível". Depois passou a ser talismã para outras equipas. Uma delas ainda hoje cumpre o ritual de visita anual ao sítio onde conquistou a antiga Taça dos Clubes Campeões Europeus. O Celtic de Glasgow e os seus adeptos todos os anos visitam o relvado nacional para recordar essa conquista de 1967 frente ao Inter Milão (2-1).

O recinto acolhe a final da Taça de Portugal desde 1946 (salvo cinco raras exceções). A primeira taça no Jamor foi ganha pelo Sporting, então treinado por Cândido de Oliveira, num jogo com o Atlético (4-2). Essa foi a primeira vez que uma equipa subiu à tribuna de honra para receber o troféu das mãos do Presidente da República e dar início a uma tradição que se cumpre ainda hoje. A final da Taça feminina só chegou ao Jamor em 2003-04.

Só mais tarde o complexo ganhou os espaços que hoje tem, com piscina, centro de alto rendimento, centro de ténis, vários campos de futebol e râguebi, residência para atletas, além do estádio e do centro de treinos. Hoje serve também o público na prática desportiva. O valor da obra é reconhecido pela Liga dos Amigos do Jamor. Foi esta associação que apresentou o projeto de classificação dos 230 hectares do Complexo Desportivo do Jamor, onde se inclui o Estádio Nacional, à Direção-Geral do Património Cultural (DGPC). O processo ainda está em fase de estudo.

O que disse o DN na altura

Numa altura em que as notícias se confundiam com publicidade, o Diário de Notícias dos dias antecedentes ao 10 de junho de 1944 informava que estavam "à venda binóculos para a inauguração do Stadium Nacional na Papelaria Internacional Carlos Queiroz. " Um anúncio com honras de primeira página, premonitório face àquele que foi um dos selecionadores nacionais mais marcantes, Carlos Queiroz (levou Portugal ao título mundial em 1989 e 2000 e revolucionou o futebol português).

No dia da inauguração, "por despacho de secretário de Estado das Corporações", as indústrias fecharam, assim como fábricas e espaços comerciais a partir das 13.00 de sábado dia 10 de junho. A peça jornalística terminava com uma remissão para a página 2, que dava informações acerca dos transportes para o Estádio Nacional e do serviço "especial" de comboios. O Automóvel Club de Portugal vendeu os bilhetes. Havia bilhetes a dois escudos e meio, três e meio e quatro e meio.

No dia 10, o acontecimento teve honras de primeira página. O espetáculo começava às 16.30 e "todos deviam ocupar os seus lugares até essa hora". A cerimónia "imponente", com uma parada desportiva e desfile de ginastas, impôs-se a um Benfica-Sporting, os dois maiores clubes de Lisboa, que disputavam a Taça Estádio e a Taça Império (ambas ganhas pelo Sporting).

O primeiro dérbi lisboeta no Jamor foi ganho pelos leões. "O desafio, renhido e bem jogado, apesar do vento, veio a ser ganho pela equipa que começou pior. Com falta de sorte na primeira parte e no fim de hora e meia, o Benfica viu-se privado de uma superioridade possível." Ou seja, o Benfica jogou melhor e perdeu graças a um grande jogo de Peyroteo, que marcou o primeiro golo da história do Jamor. Foi um dos mais de 300 golos daquele que o Sporting reclama ser ainda hoje o goleador com maior rácio de golos por jogo. Espírito Santo empatou para o Benfica aos 77 minutos, levando o jogo para prolongamento. Dois minutos depois do recomeço da partida, Peyroteo voltou a marcar e, no início da segunda parte do prolongamento, Eliseu fez o 3-1, cabendo a Júlio a obtenção do golo que fixou o resultado final em 3-2 para os leões.

No dia 11, a seguir à inauguração, o DN contava que "60 mil pessoas [hoje tem capacidade para 30 mil] assistiram à maior e mais impressionante parada desportiva em Portugal". "Um acontecimento memorável", sinónimo "da afirmação nacional", com a bandeira "a flutuar no mastro" no meio de "um fumo de foguetes e morteiros". Ficamos ainda a saber que a "multidão" se levantou para aclamar a presença do Presidente da República Marechal Carmona e o presidente do Conselho, "o Sr. Dr. Oliveira Salazar".

O jornal dava ainda conta do discurso do representante do desporto nacional. "Salazar, devemos-te a esperança, devemos-te a paz, devemos-te o presente, mas a partir de hoje a nossa dívida tornou-se ainda maior. Devemos-te a certeza, devemos-te a alegria e devemos-te o futuro! Em nome de todos nós, em nome de todos aqueles que hão de vir depois de nós mais forte e mais saudáveis. Bem hajas, Salazar, por teres cumprido a tua promessa. Obrigada pelos séculos fora. Obrigada para sempre".

Já o presidente do Conselho terá rematado com a seguinte declaração: "Tal como as montanhas, a história só se vê à distância. Um dia, daqui a muitas décadas, alguém se debruçará sobre a história que aqui vivemos hoje."

O acontecimento foi de tal forma marcante que durante a semana só dividiu atenções com o Dia D (desembarque na Normandia, 6 de junho), as palavras de Eisenhower, Presidente dos EUA, após o fim da guerra, e os santos populares.

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