Heróis do Giro sem festa. Chegaram cansados, mas com vontade de fazer ainda melhor

João Almeida vestiu a camisola rosa (liderança) durante 15 dias e Rúben Guerreiro acabou com a azul (rei da montanha) vestida. Ciclistas portugueses chegaram esta segunda-feira a Lisboa, depois de três semanas a brilhar no Giro.

A pandemia roubou-lhe a ovação merecida na chegada a Portugal, depois de três semanas a brilhar no Giro (Volta a Itália em Bicicleta). João Almeida e Rúben Guerreiro chegaram esta segunda-feira a Lisboa depois de entrarem para a história do ciclismo nacional ao som de algumas tímidas e longínquas palmas de amigos, familiares e curiosos que circulavam no Aeroporto Humberto Delgado.

A pantera das Caldas teve mesmo direito a um elogio especial, que ficou estampado em algumas camisolas cor-de-rosa e com alusões ao objeto fálico, símbolo das Caldas da Rainha, e a seguinte mensagem: "João és do cara***."

O ciclista de A-dos-Francos liderou a prova durante 15 dias e acabou em quarto da geral - a melhor classificação de sempre de um ciclista português no Giro (superou o 5.º lugar de José Azevedo) e a segunda melhor de sempre numa das três grande voltas (Tour, Vuelta e Giro), depois dos dois terceiros lugares do rei Joaquim Agostinho na volta a França (1978 e 1979).

"É um balanço mais do que positivo. Estou muito satisfeito! Consegui a vestir camisola rosa e fomos vendo dia a dia. Foram 15 dias foi surpreendente e estou muito grato à minha equipa por tudo o que fizeram por mim. Sem eles não seria o mesmo! Quarto lugar na geral, 15 dias de rosa... ainda não sei bem o que fiz...", confessou o ciclista da Deceuninck Quick-Step, que ainda tomou o peso ao troféu. Tao Geoghegan Hart, o vencedor do Giro é agenciado pelo seu empresário (João Correia) e viajaram juntos.

O jovem de 22 anos foi também o sub-23 mais bem classificado na prova, na qual bateu o recorde de maior dias como líder de um ciclista com menos de 23, superando, inclusive, o Canibal Eddy Merckx. A maglia rosa (símbolo da liderança) só se separou do corpo do novo herói do desporto português no mítico Stelvio, à 18.ª etapa. "Sabia que seria complicado manter a camisola, era a etapa rainha. O Stelvio é uma das subidas mais duras do mundo. Gostei da subida, embora tenha perdido a camisola. A partir daí, foi tentar descobrir-me, manter o foco psicologicamente, acho que é o mais difícil, e lutámos até ao final", lembrou João Almeida, na conferência de Imprensa improvisada, que teve a presença do presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, Delmino Pereira.

A estratégia do rei da montanha

O cowboy de Pegões Velhos de 26 anos foi o vencedor da prova na categoria de montanha. Nunca um português tinha vencido uma classificação geral numa das três grandes voltas. "Tenho muito orgulho. O meu objetivo e o da equipa era lutar por uma etapa. Depois daquela etapa, a camisola foi um bónus, pelo que tinha de tentar mantê-la até ao fim. Foi uma luta muito difícil, mas com muito esforço e apoio dos meus companheiros lá conseguimos. Faço um balanço bastante positivo destas três semanas. Foi só a segunda grande Volta que fiz, estou satisfeito com as minhas sensações", reconheceu o atleta da Education First, que além de vencer na montanha ainda ganhou uma etapa (a nona).

Ruben Guerreiro recordou a dura batalha que travou com o italiano Giovanni Visconti, que acabou por abandonar o Giro antes do arranque da 18.ª etapa por lesão. "Na 15.ª etapa, perdi a camisola e tinha um rival, que era o Giovanni Visconti, que estava em muito boa forma e já tinha ganho a camisola da montanha antes na Volta a Itália [em 2015], e era muito inteligente. A minha corrida era diferente do João, passava por sair no primeiro grupo, e, a partir daí, das metas da montanha, desligava o botão, a pensar no outro dia a seguir", explicou Rúben.

A estratégia para a vitória final assentou num jogo de equipa. No primeiro dia de descanso e depois de vestir a maglia azzurra pela primeira vez, o ciclista sentou-se com a equipa e traçaram um plano para a segurar até Milão ao invés de investir em vencer etapas: "De facto, tive uma equipa brilhante e sempre me motivaram para a camisola da montanha, porque era uma camisola importante e para a equipa era importante estar no pódio final do Giro. As últimas seis etapas foram uma guerra autêntica para mim, em que tinha de ganhar ou tinha de ganhar."

De equipas diferentes, mas sempre de olho um no outro

Embora em equipas diferentes, foram muitos os momentos em que Ruben Guerreiro (Education First) apoiou João Almeida (Deceuninck-QuickStep) na defesa da camisola rosa. "A minha corrida acabava mais cedo e pensava 'vamos lá vestir a camisola de Portugal'. Os meus diretores não levavam a mal e eu tentava dar um incentivo ao João. Em tom de brincadeira, [...] houve dias e dias - quantos foram? 10? -, em que nos juntávamos à partida e eu dizia-lhe 'amanhã aqui à mesma hora'", revelou o sempre bem-disposto ciclista de Pegões Velhos, confessando: "Um dia também gostava de ser campeão do mundo como o Rui Costa."

A boa relação dos dois ajudou-os ao longo das duras três semanas da prova. Falavam, comunicam e tentavam motivar-se diariamente, até porque eram os dois únicos portugueses em prova e tudo o que pudessem alcançar seria bom para o país. E o País acabou por vibrar com o ciclismo nas últimas semanas.

Questionados sobre o futuro nas grandes Voltas, quer Almeida, quer Guerreiro foram cautelosos. "Em três semanas, todos os dias temos de estar bem física e psicologicamente. Tanto eu como o Ruben demonstrámos bastante responsabilidade. Claramente temos muito de trabalhar. No ciclismo, ninguém está para brincadeiras, o nível está muito elevado, e todos querem ganhar", defendeu João Almeida.

Depois do 4.º lugar no Giro, que tal pensar em vencer o Tour..."Por enquanto, não. Gosto do Giro, é a minha grande Volta favorita. Mas vamos continuando a aprender, tentar descobrir-me a mim próprio. Sonho um dia terminar a Volta a França, qualquer corredor o sonha. Mas, pessoalmente, gosto mais do Giro", respondeu o ciclistas de 22 anos.

Ciclistas condecorados pela Assembleia da República

Rúben Guerreiro e João Almeida vão se congratulados pela Assembleia da República. Os deputados do PSD pretendem que o hemiciclo reconheça o desempenho dos dois atletas, que "eleva não só o nome de Portugal, como serve também de inspiração para a ambição internacional dos nossos cidadãos em todos os quadrantes profissionais em geral e no desporto em particular".

No caso do ciclista de A-dos-Francos, a Câmara Municipal das Caldas da Rainha decidiu homenagear o 4.º classificado da geral da Volta a Itália em Bicicleta com um desfile pelas ruas da cidade em autocarro aberto.

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