Dos tubos da Namíbia à Liga Meo em Sintra. Um episódio na vida de Nicolau Von Rupp

O surfista da Praia Grande esteve na costa ocidental africana a surfar as melhores ondas da sua vida, e agora volta a casa para o Allianz Sintra Pro, quarta etapa da Liga Meo Surf, que arranca esta sexta-feira

Água fria e cinzenta, numa praia remota que tem pouco ou nada a ver com os clichés do surf em paragens tropicais, com areia pontuada aqui e ali por cadáveres de focas cortados ao meio pelos verdadeiros locais daquele sítio, os enormes tubarões brancos. Este foi o cenário que Nic Von Rupp, surfista profissional de 28 anos, enfrentou durante 10 dias em Skeleton Bay, na Namíbia. Um cenário radicalmente diferente daquele que encontrará este fim de semana (6 a 8 de Julho) na "sua" Praia Grande, em Sintra, para a quarta etapa da Liga Meo Surf. Mas o prémio, assegura, valeu tudo: "Sem dúvida, fiz as ondas da minha vida. Fiz tubos de mais de um minuto. Para colocar as coisas em contexto para quem não faz surf, um tubo pode durar entre um a 10 segundos. E um tubo de 10 segundos já é um tubo muito longo..."

Há já alguns anos que as quilométricas ondas de Skeleton Bay enchem o imaginário de surfistas de todo o Mundo. Até há bem pouco tempo, um segredo bem guardado, as míticas esquerdas da Namíbia mantêm-se mais ou menos seguras da invasão das multidões pela distância da civilização e pela dificuldade de subsistência no local, entre outras dificuldades (já falámos aqui dos tubarões brancos?...). "Surfar ali é uma missão", diz Nicolau Von Rupp, explicando: "Foram, sem dúvida, as ondas mais compridas e com melhor qualidade que vi na vida. A onda tem dois quilómetros e meio de ponta a ponta e se a fizermos até ao fim, temos de caminhar até ao início. Isto em sessões de 12 horas, depois de remar contra a corrente, traduzia-se em 25 a 30 quilómetros a pé todos os dias. E isto, mal alimentados porque não existem propriamente restaurantes; era preciso preparar toda a comida de véspera. Quanto aos tubarões...encontrar metades de focas pela praia lembrava-nos que éramos os seres mais fracos naquelas águas, mas as ondas eram tão boas..."

Uma missão que teve como "patrocinador" outro surfista muito conceituado e um dos mais experientes em Skeleton Bay, o basco Aritz Aranburu, ex-competidor do World Tour e um dos primeiros nomes conhecidos a explorar aquela língua de areia africana.

"Esta oportunidade surgiu agora por causa de uma ondulação que apareceu nos mapas como só há uma ou duas vezes por ano naquele sítio. Até hoje nunca estive disponível para esta viagem pois quando havia ondas ali eu estava sempre do outro lado do Mundo, a surfar outra onda ou envolvido num campeonato qualquer. Assim, quando o Aritz me convidou nem pensei duas vezes, pois é uma onda que me intrigava há algum tempo por parecer tão perfeita e por se encaixar tão bem no meu surf, sendo uma esquerda tubular", explica Von Rupp.

E se a Namíbia é um destino remoto para o comum dos mortais, para um surfista que fez toda a vida de prancha debaixo do braço a surfar ondas gigantes na Irlanda, Nazaré, Havai ou Austrália, Skeleton Bay era...já ali. "Quando pensamos em Namíbia, pensamos num país africano pobre, mas a Namíbia tem uma grande comunidade alemã, é um país civilizado e seguro. Demorei 20 horas a chegar lá, de porta a porta, quando estou habituado a fazer viagens de 40, 50 horas. É quase ridículo de tão acessível."

Mudar o "chip" para a Praia Grande

E depois do "filet mignon" das "melhores ondas de sempre", com que mentalidade Nicolau Von Rupp encara o desafio de competir na Praia Grande, onde começou a surfar e onde vive desde sempre? É fácil mudar o "chip"? Pois se é verdade que Von Rupp tem um palmarés competitivo de grande relevo, em que se destaca o segundo lugar com Portugal no Mundial ISA, em 2016, ou o título de vice-campeão europeu de sub-21, o seu nome tem sido mais associado a sessões espetaculares em ondas grandes e perfeitas, um pouco por todo o Mundo. O próprio esclarece e coloca os "pontos nos is": "Toda a minha vida fiz isso. Eu sou um competidor, acima de tudo. Seja num campeonato ou a surfar ondas grandes ou perfeitas, sempre que entro na água estou a competir comigo mesmo. Não me identifico com o rótulo de "free surfer" pois vou para a água sempre para me superar. A questão é que, infelizmente, a esmagadora maioria das competições decorrem em ondas menos favoráveis, mas o objetivo é sempre a superação, com ou sem a licra vestida."

E na Praia Grande? É mais especial? "Sem dúvida. Foi na Praia Grande que me tornei o vencedor mais jovem de uma prova do Nacional, aos 15 anos, e é ali que tenho a minha casa, por isso é sempre um prazer surfar ali."

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