Como Klopp mudou o Liverpool. Motivação, cumplicidade, rock and roll e gegenpressing

Desde outubro de 2015 em Anfield, o treinador alemão está a fazer uma época de sonho. O clube está na final da Champions, depois do jogo épico com o Barcelona, e domingo pode sagrar-se campeão inglês, apesar de não depender só de si.

"Para mim, esta remontada tem um nome: Jürgen Klopp. Isto não foi filosofia, nem tática. Foi coração, alma e a fantástica empatia que o Jürgen criou naquele grupo de jogadores." Foi desta forma que José Mourinho explicou o jogo épico do Liverpool na terça-feira, no qual o clube inglês deu um recital de bom futebol e goleou o Barcelona em Anfield por 4-0, anulando a desvantagem de 3-0 da primeira mão e conquistando por mérito próprio um lugar na final da Liga dos Campeões.

Esta empatia de que Mourinho fala é uma imagem de marca de Klopp, treinador alemão de 51 anos que está no Liverpool desde outubro de 2015 (substituiu Brendan Rodgers), e que apesar de não ter ganho qualquer troféu, mantém a confiança dos donos do clube e a admiração dos jogadores e dos adeptos. Pela forma como se exprime e pelo futebol de qualidade que a equipa apresenta.

Em 2015, quando Klopp assinou pelo Liverpool, a revista inglesa Four Four Two fez um perfil do técnico germânico, ouvindo jogadores que foram treinados por ele. E todos, sem exceção, destacaram a grande relação do treinador com os futebolistas como uma das suas maiores qualidades. Um verdadeiro 'nice guy', como tantas vezes é apelidado pela imprensa britânica, que o adora pela simpatia e pelas constantes brincadeiras.

"É como estar junto de um amigo que nos ensina e diz coisas que realmente queremos aprender. Com ele há uma atmosfera diferente. Tive vários treinadores que eram pouco conversadores e que se estavam nas tintas se tínhamos ou não problemas. Klopp é totalmente diferente, ele está sempre muito próximo dos jogadores. Fala com todos e está sempre presente quando precisamos. É alguém capaz de antes de um treino estar a falar de assuntos pessoais com um jogador. Mas depois chega às 10.00 e ele passa a ser o treinador. Mas não é um homem de duas caras. Quando chega a hora do trabalho é muito exigente", contou Owomoyela, que foi treinador pelo alemão no Borussia Dortmund.

Depois há também o lado motivacional, como descreveu Tim Hoogland, que foi orientado por Klopp no Mainz. "Os discursos dele são muito bons. Têm conteúdo e fazem-nos ter vontade de entrar em campo e jogar nos limites. Foi o melhor treinador que tive a este nível da motivação. Quem o vê a gesticular e a gritar do banco durante os jogos pode pensar que estamos na presença de um louco. Mas essa característica dele dá-nos uma motivação extra. Puxa-nos para um nível muito, muito alto."

"Ele utiliza as palavras adequadas para cada situação. Não sei onde ele vai buscar aquela inspiração, se é ou não uma pessoa que lê muito. Mas ele consegue criar imagens na nossa cabeça quando fala. É difícil explicar, mas aquilo funciona. Os jogadores têm uma fé cega nele e seguem-no", acrescentou Owomoyela.

Apesar do estilo simpático e brincalhão, Klopp é um treinador muito exigente, como um dia se definiu. "Desde que os jogadores trabalhem nos limites, sim, sou uma pessoa simpática. Nem sempre nos treinos, mas há sempre respeito. Mas se eles não trabalharem como eu quero, e isto não significa que não corram, mas sim que estejam concentrados naquilo que eu digo, então aí deixo de ser um tipo simpático. Nenhum dos meus jogadores pode esperar que eu os deixe fazer aquilo que eles querem e vá contra as minhas ordens. Eles sabem quem é o líder e quem faz as regras. E têm de me respeitar", referiu em 2017 numa conferência de imprensa.

O estilo de jogo rock and roll/heavy metal

Klopp chegou a Anfield depois de uma experiência bem sucedida no Borussia Dortmund (antes treinou o Mainz), clube onde conquistou dois campeonatos germânicos (2010/11 e 2011/12), uma Taça da Alemanha (2011/12) e duas Supertaça alemãs (2013 e 2014). Os donos do Liverpool queriam ver a equipa a atuar de forma diferente, com um jogo mais agressivo, um futebol moderno. Klopp trouxe isso tudo, aplicando o modelo gegenpressing, dos tempos do Dortmund - após perder a bola no campo do adversário, pressionar imediatamente o portador da bola para criar ocasiões de golo em vez de recuar e compor a defesa. Por isso o seu estilo de jogo ficou conhecido por 'rock and roll' e 'heavy metal', um futebol agressivo, vertical e totalmente virado para o ataque, um 4X3X3 onde Firmino, Salah e Mané formam um tridente atacante temível.

Um dia perguntaram-lhe as diferenças do seu estilo de jogo no Liverpool relativamente ao Arsenal que na altura era treinado por Arsène Wenger. E a resposta foi clara. "Ele gosta mais de ter posse de bola, fazer passes. É mais ao estilo de uma orquestra. Mas é uma música silenciosa. Eu gosto mais de rock and roll, de heavy metal", referiu, rejeitando também na altura comparações com José Mourinho: "Special One? Não, eu sou um Normal One."

Grande investimento em reforços

Klopp pegou no Liverpool quando já decorria a temporada 2015/16. Foi uma época de adaptação ao futebol inglês e a uma equipa que já estava construída sem jogadores escolhidos por si. O Liverpool terminou no oitavo lugar e chegou à final da Liga Europa, onde foi batido pelo Sevilha (3-1), depois de ter eliminado o Manchester United e o Dortmund durante a prova da UEFA.

Na sua segunda época gastou cerca de 70 milhões de euros em reforços, entre eles Sadio Mané e Georginio Wijnaldum (este saltou do banco na terça-feira e apontou dois golos na segunda parte). Estreou-se com uma vitória (4-3) diante do Arsenal. Mas terminou a época na quarta posição... e com 42 golos sofridos.

Em 2017/18, os donos do Liverpool fizeram um grande investimento na construção da equipa. Chegaram a Anfield nomes como Mohamed Salah, Oxlade-Chamberlain e Virgil van Dijk. Este último custou quase 80 milhões de euros, um valor na altura considerado exorbitante para um defesa central. Mas saíram Mamadou Sakho e Coutinho. A equipa de Anfield voltou a ficar em quarto lugar no campeonato, mas chegou à final da Liga dos Campeões, onde foi derrotada pelo Real Madrid (3-1).

Esta temporada, o clube foi outra vez em força ao mercado e gastou como nunca - quase 200 milhões de euros. E começou logo pela baliza, com a contratação do internacional brasileiro Alisson para substituir o desastrado Loris Karius. Chegaram ainda Fabinho (ex-Mónaco), Shaqiri (ex-Stoke City) e Naby Keita (ex-Leipzig). E os resultados estão à vista. O Liverpool está na final da Liga dos Campeões pela segunda época consecutiva e ainda como possibilidades de se sagrar campeão inglês. A decisão será neste domingo, mas o Liverpool não depende só de si, já que o Manchester City é líder com mais um ponto do que os reds.

O futebolista mediano com cérebro

Jürgen Klopp foi um médico falhado (não teve média suficiente para seguir medicina) e um jogador de futebol mediano (atuava como central), como um dia se intitulou: "Como jogador tinha a habilidade de um futebolista de V divisão, com o cérebro de atleta de I Divisão. O resultado foi um futebolista de II Divisão." Representou durante 11 anos o Mainz e depois esteve oito anos como treinador do clube alemão, levando a equipa ao principal escalão do futebol germânico e chegando inclusivamente a posições que permitiram ao Mainz jogar na Taça UEFA em 2005-06.

Em 2007-08, o clube baixou novamente ao segundo escalão, mas, apesar de propostas melhores, manteve-se no cargo, demitindo-se no final da temporada depois de não ter conseguido subir de divisão. Depois, a história é conhecida. Seguiu-se o Borussia Dortmund e o Liverpool a partir de 2015. Antes do Dortmund, chegou a estar nos planos do Hamburgo, mas acabou por ser descartado alegadamente devido à sua imagem pouco cuidada, sempre com a barba por fazer e por na altura andar sempre com um gorro de basebol.

O último troféu ganho pelo Liverpool foi uma Taça da Liga inglesa em 2011/12. A última vez que os reds conquistaram a Liga dos Campeões foi na temporada 2004-2005. E o último título de campeão remonta a 1989-90. Agora, Klopp pode reescrever a história. O título de campeão inglês, que se decide no domingo, está dependente de uma escorregadela do Manchester City, mas para já Klopp conseguiu a maior pontuação de sempre da história do clube de Anfield. E no 1 de junho, no Wanda Metropolitano, em Madrid, tem a possibilidade de conquistar a tão ambicionada Liga dos Campeões. Aconteça o que acontecer em ambos os casos, o treinador germânico sabe que terá sempre o apoio dos donos do clube e que os adeptos do Liverpool não deixarão de cantar o célebre "You'll Never Walk Alone".

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