Antes do Boavista-FC Porto, há um importante Barcelona-Boavista na PlayStation

Clube do Bessa é um dos seis fundadores de uma competição pioneira nos eSports, lançada pelo defesa do Barça Piqué. Uma espécie de ensaio para uma Liga dos Campeões virtual disputada por clubes do futebol profissional

O Boavista entra em campo para grandes desafios neste domingo. Se às 20.00 horas a equipa principal de futebol vai subir ao relvado do Bessa para defrontar o FC Porto num sempre importante dérbi da Invicta, cinco horas antes, em Barcelona, Sparagna, Fábio Espinho ou Koneh vão estar a medir forças com Messi, Suárez, Coutinho e C.ª.

Não diretamente, no relvado de Camp Nou, neste caso, mas através dos controlos de PlayStation colocados nas mãos dos respetivos jogadores de eSports dos dois clubes, no arranque de um torneio pioneiro que agrega seis clubes profissionais numa competição internacional de futebol virtual.

Efootball.pro, assim se chama o torneio que tem como presidente e promotor principal o futebolista do Barcelona Gerard Piqué - através da sua empresa EM Rights -, e reúne seis emblemas do futebol europeu: além de Boavista e Barcelona, que abrem a competição às 15.00 de domingo, vão a jogo também o Schalke 04, Celtic de Glasgow, o Mónaco e o Nantes. O videojogo em disputa é o Pro Evolution Soccer (PES) 2019, da empresa Konami, um dos mais populares do futebol virtual, a par com o FIFA da EA Sports.

"Ao contrário do futebol real, não há ainda uma competição como a Champions League nos eSports. Estão a ser dados passos nesse sentido, mas ainda não chegámos lá. Este trata-se efetivamente do primeiro torneio internacional de futebol virtual destinado aos clubes de futebol profissional e, naturalmente, o Boavista orgulha-se de estar num momento pioneiro de uma indústria emergente tão importante quanto esta", explica ao DN Reinaldo Ferreira, diretor de tecnologias de informação e também do departamento de esports do clube do Bessa, nascido há cerca de um ano.

Tanto os clubes portugueses como a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal despertaram nos últimos tempos para uma indústria em acelerado crescimento, avaliada já em cerca de mil milhões de dólares a nível mundial (perto de 900 milhões de euros) e com estimativa de atingir os 1500 milhões em 2020. FPF e Liga organizam competições anuais e a esmagadora maioria dos clubes profissionais investiu já numa secção dedicada aos desportos eletrónicos (entre os grandes, só o Sporting tem).

Entre a competição e o marketing

No caso do Boavista, são já cerca de 100 os jogadores de eSports ligados ao clube, em competições tão diversas quanto este efootball.pro (jogo PES 2019), o campeonato nacional da FPF (FIFA 19), a eAllianz Cup (FIFA19) ou mesmo para lá do âmbito do futebol virtual, como é o caso da liga portuguesa de League of Legends (LOL). "Este ano o Boavista vai ter umas oito equipas de esports envolvidas em cerca de 20 competições", diz Reinaldo Ferreira, apontando a fasquia dos 100 mil euros como um orçamento já plausível para uma secção de esports como a do clube.

"No caso do Boavista não falamos desses valores porque há um orçamento cooperativo com a SAD", com troca de serviços que não são contabilizados, esclarece. Como, por exemplo, o fornecimento das camisolas que vão equipar os três jogadores que vão representar a equipa do Bessa nesta primeira edição do efootball.pro. Porque, tanto ou mais do que uma secção de competição, os eSports são, para os clubes de futebol profissional, um importante veículo de marketing. Uma forma de levar a marca (ou o símbolo, para os adeptos mais puristas do futebol tradicional) a mais adeptos, indo sobretudo ao encontro das gerações mais novas e dos novos hábitos de consumo de futebol.

"É uma forma de promover o clube e um fator de aproximação aos adeptos que não pode ser menosprezado. Desde logo, ter o equipamento e os jogadores do clube no jogo que o adepto gosta de jogar lá em casa é uma ferramenta importantíssima para o envolvimento emocional com esses adeptos, para o chamado engajamento que é hoje em dia a área crítica do marketing desportivo. Os eSports promovem esse engajamento", explica o dirigente da formação axadrezada.

Presente e futuro

Por isso, Reinaldo Ferreira não tem dúvida em considerar o Barcelona-Boavista do efootball.pro de domingo um evento de grande importância, tal como o jogo que mais à noite opõe a equipa principal do Bessa ao vizinho e rival FC Porto num dérbi da Invicta a contar para a 11.ª jornada da I Liga. À noite, está o presente em jogo. À tarde, está um pouco do futuro (e a possibilidade de aumentar a comunidade de adeptos e consumidores ligados ao clube).

A participação neste primeiro torneio internacional entre clubes profissionais de futebol começou a ser preparada há cerca de um ano, quando o diretor boavisteiro contactou a Konami assim que soube que a ideia da competição ganhava forma. Entretanto, pela primeira vez, a Liga portuguesa chegou a acordo com a empresa que produz o videojogo para licenciar todas as equipas do principal campeonato português no jogo. Em julho passado, o Boavista abriu a sua secção dedicada ao PES 2019 dentro do departamento de eSports e começou a recrutar jogadores e recebeu dezenas de candidaturas.

Uma delas a do luso-francês Christopher Morais, jogador com vasto currículo que foi já campeão nacional, europeu e mundial do Pro Evolution Soccer. Com ele, Christopher trouxe mais dois jogadores franceses, também com vários títulos conquistados: TioMit (nickname de Jéremy Bruniaux), n.º1 do ranking mundial no ano passado, e Bounti27 (Sami Boudjelida), campeão francês este ano. O Boavista contratou-os para este torneio, onde será um dos seis clubes fundadores.

"Temos de estar bem representados num torneio desta importância e a diferença de valor para os jogadores portugueses, no PES, ainda se faz sentir", justifica o dirigente. Os valores envolvidos, tal como no futebol real, ficam no segredo dos deuses, mas Reinaldo Ferreira salienta que "são já jogadores profissionais, ou quase, dos eSports, atletas que tiram rendimento desta atividade".

A competição arranca então este domingo, com um Barcelona-Boavista jogado em modo dois contra dois (2v2 Co-op), formato que será respeitado ao longo de todo o efootball.pro, em jogos presenciais (offline) que passarão, esta época, por três cidades: além de Barcelona, também Glasgow e Mónaco vão receber jornadas da competição. No futuro, se esta primeira edição o validar, a ideia é que a competição possa "alastrar-se a todas as cidades dos clubes envolvidos, com match-days nos respetivos estádios", desvenda o dirigente.

Christopher Morais, o primeiro campeão de PES

Luso-francês, nascido em Paris mas com origens no Peso da Régua, Christopher Morais é um dos craques internacionais do Pro Evolution Soccer. Foi ele, de resto, o primeiro campeão mundial da PES League, em 2010. É ele também o principal rosto da equipa do Boavista neste torneio efootball.pro. Ganhar a primeira edição de uma prova pioneira no mundo do futebol virtual seria mais um marco na carreira deste experiente jogador PES e um valioso momento de afirmação para o clube do Bessa neste universo.

Christopher garante que "é um orgulho representar um clube da terra" e diz que não hesitou em contactar o Boavista assim que soube que os axadrezados procuravam jogadores para o torneio. "Tinha como um dos principais objetivos deste ano entrar neste torneio e o Boavista mostrou um projeto sério, transparente e com muita vontade, por isso foi fácil decidir por eles", descreve ao DN, ele que também tinha o convite do Santos, do Brasil, que acabou por não entrar na competição.

Representar um clube com a história do Boavista no futebol português dá-lhe "uma responsabilidade maior", concede o jogador, de 29 anos. "Mas eu gosto disso, gosto dessa responsabilidade", acrescenta. "Não vou mentir e dizer que é o meu clube de infância, mas é um emblema que sempre respeitei, sempre gostei da forma do clube trabalhar, segui com muita atenção aqueles anos em que foram campeões e chegaram às meias-finais da Taça UEFA, com o Jaime Pacheco a treinador e o Sanchez, o Petit, o Pedro Emanuel... gostava muito dessa equipa."

"Aos 29 anos, corpo já não reage de forma igual"

Agora cabe-lhe a ele e aos seus dois companheiros de equipa tentar levar o Boavista a um título inédito no panorama dos esports: o de primeiro campeão de uma competição internacional entre equipas ligadas a clubes profissionais de futebol. Para isso, tem treinado umas três horas por dia, revela, além de cumprir outros cuidados de preparação, como corrida, ginásio, alimentação regrada, boas horas de sono.

Sim, porque isto de ser jogador de top na PlayStation tem exigências quase tão rigorosas quanto o futebol real. "Sobretudo para quem, como eu, já não é nenhum jovem de 18/20 anos. Já tenho 29 e o corpo com esta idade já não reage da mesma forma", explica Christopher Morais. "Há muitos jovens a entrar, cada vez mais concorrência e se tu queres manter-te bom a longo prazo tens de ter uma boa higiene de trabalho", reforça.

Christopher confia que é possível surpreender Messi e companhia no PES2019. E garante que os boavisteiros terão eles próprios um futebol bonito, de toque e passe curto, com combinações e sem chutões para a frente. O tiki-taka vai vestir de xadrez contra o próprio Barça? "Esse é o nosso estilo de jogo, mas claro que depois há que adaptar um pouco às características que os jogadores de cada equipa apresentam no jogo", diz.

Fiquem descansados os adeptos do Boavista: neste torneio, tanto Fábio Espinho como Messi terão o mesmo "nível" de jogo. Todos os jogadores tiveram as suas estatísticas revistas e estão equilibrados num mesmo patamar (85), para não desvirtuar o espírito da competição. Mas as características fundamentais de cada equipa são respeitadas. Por isso, Christopher sabe que também no PES "o Boavista tem uma equipa mais forte fisicamente e menos capaz tecnicamente" do que o Barcelona.

A tática está ensaiada e o onze inicial praticamente definido, afirma. E andará próximo daquele que o treinador Jorge Simão tem utilizado mais vezes na equipa real do Boavista? "Vai ter algumas alterações", admite o craque do futebol virtual, que,ao contrário do que acontece no futebol a sério, não se importa de partilhar com o jornalista a equipa que vai entrar em campo de início: "Helton na baliza, depois três centrais com Raphael Silva, Sparagna e Neris, o Talocha a lateral esquerdo, o Garbiel Nunes à frente da defesa (tem um perfil muito parecido com o do Busquets na proteção à defesa e é bom para a primeira fase de construção), Tahar e Fábio Espinho a completar o meio-campo e, na frente, três avançados centro, com o Ibra Koneh mais para a direita, o Rafael Lopes mais para a esquerda e no centro o Falcone, que é a nossa grande estrela, ganha tudo de cabeça."

Empresário na forja para "não perder o comboio"

Jogador "veterano" já, Christopher começou a jogar PES em competições há mais de dez anos, em 2007, mas desde criança que se habituou a dominar os comandos do jogo, desde que os pais lhe ofereceram uma PlayStation 1 com o seu primeiro jogo. "Já não me lembro se foi o FIFA ou o ISS. Acima de tudo sou um apaixonado pelo futebol", diz, ele que já ha vários anos acumula as funções de jogador com as de empresário dedicado aos esports em França, onde tem uma equipa, a PW esports, e outros projetos em marcha que pretende estender até Portugal.

Quando esses projetos avançarem, então sim o luso-francês poderá dedicar-se "a tempo inteiros aos eSports". Para já, ainda divide a atividade com projetos de outras áreas, como o marketing digital, embora sejam os esports a ocupar-lhe "a maior parte do tempo". Mas não vive apenas dos rendimentos dos jogos eletrónicos. Este ainda é um assunto mais ou menos tabu. "Não gosto muito de falar disso porque há alguns aspetos de confidencialidade nos contratos com as marcas", justifica. "Mas penso que num futuro muito próximo, com os projetos que tenho a andar, poderei viver apenas disto. Não posso perder o comboio", diz sobre as grandes quantias de dinheiro que cada vez mais entram neste universo dos esports.

"Este meio está a evoluir de forma muito rápida. Se houvesse já este dinheiro todo quando eu fui campeão do mundo, em 2010, hoje a minha vida já seria bem diferente", conclui.

Christopher Morais, que está também já apurado para a final europeia do PES League, a 7 e 8 de dezembro em Liverpool, em representação de Portugal, confessa que por vezes precisa de desligar a PlayStation e afastar-se do jogo por uns tempos. "Quando ganhei a qualificação nacional para estas finais europeias, depois de um período de treino muito intenso e com uma dieta alimentar rigorosa e tudo isso, a primeira coisa que fiz foi desligar e ir comer uma pizza. Não liguei a PlayStation durante uma semana. Às vezes é preciso aliviar a cabeça. Por isso é que a parte mais importante nos eSports é a parte mental", descreve.

Agora, a mente volta a estar focada no jogo e na missão do Boavista em tentar ser o primeiro campeão do efootball.pro.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG