Andrés tem 83 anos e passa a quarentena num estádio de futebol

É funcionário do Málaga, da II liga espanhola, e desde os anos de 1960 que mora no La Rosaleda, o estádio que é a casa do emblema espanhol. Nos anos 1960 chegou a trazer o brasileiro Pelé de autocarro até Lisboa.

Nesta altura de confinamento, devido à pandemia de covid-19, a maior parte das famílias está metida dentro de quatro paredes. Agora imagine o que é estar de quarentena sozinho (ou com alguns familiares) num estádio de futebol, numa altura em que as competições estão paradas. Para muitos poderia até ser um sonho, para Andrés Peraldes é uma realidade.

André Peraldes tem 83 anos e mora no La Rosaleda, o estádio do Málaga, equipa da II divisão espanhola. Isso mesmo. A casa deste octogenário fica dentro do recinto do emblema espanhol. Só que o cenário atual é completamente diferente. Em vez da habitual azáfama e de aos fins de semana 'dividir' o espaço com mais de 20 mil pessoas, agora está sozinho, lu melhor, na companhia do filho mais novo. "Impressiona ver um estádio tão grande e tão vazio. Mas já começamos a ficar habituados. Termos tanto espaço só para nós é um ponto positivo. Somos pessoas com sorte por podermos passar a quarentena num local como este. Aproveitamos para limpá-lo", contou Andy, filho de Andrés, em declarações ao site oficial do clube.

E o que mais estranha? "Gostava de ver os carros a passar a toda a hora à porta e, claro, isto não é o mesmo sem os adeptos. Fazem-me muita falta. Depois, as instalações eram usadas 24 horas por dia, porque isto não era apenas os treinos e os jogos. Havia pessoal da manutenção a trabalhar, escritórios, armazéns, os miúdos das camadas jovens, os responsáveis por tratar da relva..."

Da casa de Andrés à entrada no relvado do Málaga a distância é uma porta que se abre num parque de estacionamento. Andrés vive naquele local desde 1966 e no clube já fez um pouco de tudo. Já foi choufer, jardineiro, porteiro, delegado de campo, segurança e até massagista. Ou seja, toda uma vida dedicada ao clube, e foi ali que morou com a mulher e criou sete filhos.

"O nosso pai diz que nunca viveu uma situação assim. Recorda-nos que mesmo quando embargaram o antigo CD Málaga deixaram-no ficar lá a viver. Foram tempos duros, porque não recebia salário, e tinha que andar a conduzir à noite um táxi de um amigo para sobreviver. Foi com esse dinheiro que ganhou que comprava gasóleo para a máquina de cortar a relva, para manter o relvado do campo impecável até à chegada de uma nova direção", contou Andy,, que também trabalha para o Málaga e vive no La Rosaleda.

Andrés tem uma vida inteira dedicada ao Málaga, conheceu 17 presidentes diferentes do clube e um dia chegou a felicitar Johan Cruyff por ter tratado tão bem o tapete do La Rosaleda. Agora, nesta quarentena forçada, faz votos para que o futebol regresse depressa. Mas diz que o mais importante é a saúde. "Muito ânimo e compromisso. Juntos vamos superar esta situação difícil. Mas agora o mais importante é a saúde de todos."

Uma das suas melhores histórias envolve Pelé e... Lisboa. Em 1967, o Santos de Pelé foi até Málaga disputar um torneio. A equipa brasileira foi derrotada por 4-1 pelo Espanyol, no La Rosaleda. Durante a madrugada, Andrés recebeu um telefonema às quatro da manhã. Do outro lado era um dirigente a informá-lo que tinha de levar a equipa do Santos de autocarro até Madrid para apanharem o avião. Andrés viu que não dava tempo e propôs levá-los até Lisboa.

E assim foi. Fizeram-se à estrada, com Pelé mesmo ao seu lado. E até partilharam uma garrafa de vinho...

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