A nova vida de Nouri. "Está acordado, come, dorme e reage com as sobrancelhas"

Jogador do Ajax que sofreu graves danos a nível cerebral deixou o coma há um ano e voltou para casa. "Continuamos a falar como sempre falámos com ele. Nos momentos bons há uma maneira de comunicar, porque ele mexe as sobrancelhas", revela o irmão.

No verão de 2017, Abdelhak Nouri, jovem promessa do Ajax, entrou em paragem cardíaca num jogo de pré-temporada contra o Werder Bremen. Caiu no relvado inanimado e mais tarde veio a saber-se que sofreu danos graves e permanentes a nível cerebral.

Nouri foi logo no momento alvo de tentativas de reanimação ainda dentro do campo. O jogador, formado nas escolas do Ajax, foi depois transportado de helicóptero para um hospital em Innsbruck. Uma nota emitida pelo Ajax dois dias depois, indicava que "muitas partes do cérebro de Nouri não estavam a funcionar" e que as hipóteses de recuperação eram "quase nulas". "Tudo isto se deve, provavelmente, ao corte do fluxo de oxigénio para o cérebro, depois de o jogador ter colapsado durante o jogo", explicou ainda o Ajax.

O jogador do Ajax esteve em coma cerca de um ano. E agora, quase três anos depois do acidente, o irmão de Nouri veio falar sobre o estado de saúde do ex-jogador do Ajax, que já se encontra em casa, durante uma entrevista a uma cadeia de televisão holandesa - inicialmente foi colocada a circular a notícia de que só agora Nouri tinha saído do coma, informação que não corresponde à verdade.

"Ele está acordado, dorme, come, arrota, mas quase não sai da cama. Nos momentos bons há uma maneira de comunicar, porque ele mexe as sobrancelhas. Mas não aguenta durante muito tempo, é como um desporto para ele. Está em casa e devo dizer que desde que voltou está a evoluir bem melhor do que no hospital, mas ainda é extremamente dependente de nós", revelou o irmão Mohammaed Nouri.

"Ele está basicamente numa cadeira de rodas. Senta-se ali, faz parte da família. Continuamos a falar como sempre falámos com ele, geralmente sobre futebol. Às vezes ele parece interessado, depende da situação, outras vezes esboça um sorriso, o que é bom", acrescentou o irmão.

Frenkie De Jong, antigo colega de equipa de Nouri no Ajax, contou também uma história comovente. Quando em 2019 se transferiu para o Barcelona, fez questão de visitar Nouri em casa para lhe comunicar a boa nova. "Ele já estava em casa na altura. Sentei-me ao lado dele e a mãe perguntou-lhe: 'Appie, para onde deve ir o Frenkie? Para o Barcelona?' Mal ela disse aquilo, ele levantou a sobrancelha. Foi um momento especial", recordou De Jong.

Visto como grande talento

Nouri, que tem origens marroquinas, era um produto da famosa escola de formação do Ajax e foi integrado na equipa principal do clube de Amesterdão em 2016, depois de se ter destacado nos juniores e na equipa B do emblema holandês, e era visto como um jovem de grande futuro.

Em 2016, sob a orientação do treinador Frank de Boer, estreou-se em setembro na Taça da Holanda, frente ao Willem II, e até marcou um golo na goleada por 5-0. No total realizou 15 jogos, repartidos entre o campeonato holandês, Taça e Liga Europa. O médio foi ainda vice-campeão europeu de sub-17 em 2014 e representou também os sub-19 holandeses no Campeonato da Europa de 2016.

A notícia da paragem cardíaca deixou na altura o mundo do futebol em choque e várias figuras da modalidade, sobretudo holandesas, fizeram questão de expressar a sua consternação, caso do antigo guarda-redes Ewin van Der Sar, atual CEO do Ajax: "Estamos ao lado dos pais, dos irmãos e de todos os familiares. O sofrimento não é só deles. Este golpe também nos atingiu muito no Ajax, apesar de, desde o início, termos considerado este cenário. O Abdelhak é um grande talento, mas, infelizmente, nunca iremos saber até onde a sua estrela poderia ter chegado se isto não tivesse acontecido."

Abdelhak Nouri acordou do coma a 5 de agosto de 2018. Na altura a revelação foi feita também pelo irmão. "As condições neurológicas estão melhores do que há uns meses. Fisicamente, é mais difícil. Ele não mexe o corpo, apenas a cabeça, mas às vezes, com ajuda, sai da cama para sentar-se na cadeira de rodas. Ele está mais calmo, já nos reconhece", contou ao jornal holandês NOS. "Fisicamente é difícil e tem havido um declínio porque ele está acamado e não consegue mexer sozinho o corpo, só a cabeça. No início começou por correr bem, depois tornou-se mais difícil, muitos altos e baixos. O sistema imunitário dele está enfraquecido e oscila bastante", acrescentou.

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