O drama de Vanessa. "Tive de pedir ajuda, caso contrário ia destruir-me"

Atleta abriu o coração na curta-metragem "72 Horas", onde relata como a bulimia e a depressão quase lhe deram cabo da vida durante os Jogos de Pequim em 2008.

São declarações fortes e perturbantes numa altura em que o debate sobre a saúde mental dos atletas está na ordem do dia. A atleta Vanessa Fernandes abriu o coração e admitiu que foi "escrava" do seu próprio sucesso num depoimento arrepiante na curta-metragem "72 Horas", da autoria de Lígia Gonçalves e realizada por Miguel C. Saraiva, que relata os três dias anteriores à conquista da prata na prova feminina de triatlo nos Jogos Olímpicos Pequim2008, nos quais alinhou já com uma depressão.

"O meu objetivo era sempre o mesmo, ganhar e ser a melhor", recordou no seu depoimento a atleta natural de Perosinho, Vila Nova de Gaia, admitindo que os distúrbios alimentares começaram quando deixou de comer a pensar nos segundos que podia ganhar.

Com uma vida dedicada ao Alto Rendimento, deixando os estudos aos 16 anos, quando frequentava o 10.º ano, Vanessa Fernandes não descartou a sua responsabilidade: "Vamos aguentar mais um bocado e logo se vê. O que me permiti a mim, permiti que os outros me fizessem [...]. Se for aos Jogos, passar a meta e buscar a medalha e morrer a seguir, está tudo bem", afirmou na curta-metragem.

Na contagem decrescente para a prova feminina dos Jogos Pequim2008, em 18 de agosto, Vanessa Fernandes recordou os "episódios bulímicos constantes, [em que] comia compulsivamente e vomitava", num comportamento não de um atleta, mas "de alguém que está doente".

No dia da prova, ganha pela australiana Emma Snowsill, a portuguesa contou com o importante apoio da mãe, que viajou pela primeira e única vez de avião para a acompanhar em Pequim. "A minha mãe segurou muita coisa, é incrível, parece que estou a ver isso. Ela assegurou que eu não me desligasse", vincou.

"Entrei num espetáculo. Mergulhei, dentro de água, ainda me lembro do cheiro [...] dentro da guerra, da arena, e, lá dentro, é lutar até ao fim. Entras no modo perfeito de máquina de competição. Na transição para a corrida, nem me chateei ir para a frente, quase quis uma desculpa. Ia buscar uma medalha, porque eu quase já tinha excluído a hipótese de ganhar", relatou.

A mensagem que ouvia durante a prova era a de que era preciso "sofrer, sofrer, sofrer" e até "sofrer até morrer". "Ainda querem que eu dê mais", questionava, reconhecendo que esses estímulos lhe conferiam "raiva" e uma enorme vontade de se libertar. "Era como se me tivesse deixado ser escrava do meu próprio sucesso. Para mim, já estava a ser muito e eu diluí-me na obtenção desse resultado", realçou.

Já com a prata olímpica, depois do título mundial em 2007 e dos cinco títulos europeus absolutos, Vanessa sentiu ter chegado ao limite. "Estava com depressão, chegou a um ponto em que tive de pedir ajuda, caso contrário ia destruir-me. Fui internada. Foi um grande caminho para acordar para o meu desenvolvimento pessoal e, depois, veio vida, paz, harmonia, vem a realidade", descreve ainda no filme.

Resgatar a parte feminina

Esta terça-feira, depois da antestreia da curta-metragem num cinema em Lisboa, houve uma conversa sobre saúde mental no desporto, com as participações de Célio Dias, antigo judoca olímpico, Carla Couto, ex-futebolista e atualmente no Sindicato dos Jogadores, do psicólogo Miguel Lucas e de Pedro Almeida, também psicólogo e ex-coordenador do Departamento de Psicologia Desportiva do Benfica.

"Durante a entrevista, senti muita libertação. Foi um bocado terapêutico ver como foi a minha história, sem me massacrar com ela. Aceitei, sem sentir pena ou querer causar pena. A vida é para andar para a frente, mas até me reencontrar ainda bateu durante algum tempo", referiu a ex-atleta em declarações aos jornalistas

13 anos depois, Vanessa Fernandes assumiu querer "abrir uma porta" e "sensibilizar para a saúde mental", reconhecendo que esta questão ficou no auge com as desistências da ginasta norte-americana Simone Biles nos Jogos Olímpicos Tóquio2020, no último verão.

A atleta admitiu que sofreu com o fim da carreira. "Estão a ver uma ressaca? É mais ou menos assim. Quando saí do desporto senti esse impacto. É o desvincular de uma identidade, quebrando tudo o que acreditei sobre mim durante a carreira, para entrar numa nova vida e uma nova linha de pensamento. A viver o mais simples possível", admitiu.

"Fui tão habituada a viver com estímulos, para ganhar, para conquistar prémios, dinheiro, fama e patrocínios. E agora tenho de saber viver nessa simplicidade e é um alívio muito grande. Preciso de pouco para me amar e é nessa simplicidade que me vou encontrando e me sinto bem. E tenho também tentado resgatar a minha parte feminina, que foi aniquilada durante muitos anos", concluiu.

Após a prata olímpica, Vanessa Fernandes ainda esteve presente nos Jogos do Rio2016, como suplente na maratona. E no ano seguinte participou na Taça da Europa de triatlo, que se realizou na Quarteira. Mas acabou por decidir retirar-se. Além da medalha de prata em Pequim, foi campeã mundial em 2007 e pentacampeã europeia em Lisboa, em 2008. Com Lusa

nuno.fernandes@dn.pt

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