Taça de Portugal do Estrela da Amadora está no Porto, na garagem da sogra de um advogado

O troféu foi penhorado por dívidas a um jogador. Está embalado há mais de sete anos e a precisar de restauro. Credores dizem que "tem valor incalculável" e não aceitam cedê-lo de graça ao renascido Estrela, que esta terça-feira recebe o Benfica no Estádio José Gomes (21.15, TVI).

No dia em que o Estádio José Gomes recebe o Benfica de Jorge Jesus, nos oitavos-de-final da Taça de Portugal (21.15, TVI), era suposto aquele que é o maior troféu do antigo Estrela da Amadora, brilhasse numa qualquer vitrina. Era suposto, mas não é assim...

A Taça de Portugal que o brasileiro Duílio levantou no Jamor a 3 de junho de 1990 está longe do glamour de outros tempos e da vista daqueles que vibraram com a sua conquista no Jamor diante do Farense. A taça está embalada e guardada, no Porto, na garagem da sogra do antigo advogado do avançado ganês Moses Sakyi. Cassiano Neves garante que "o troféu está bem guardado," mas revela que, com a passagem dos anos, precisa de ser polida e a base de madeira está a precisar de restauro.

Como tudo na vida o maior troféu da vida dos tricolores da Reboleira tem uma história para contar. Uma história que envergonha alguns e deixa outros perplexos dado o insólito caminho que levou. Conquistada pela equipa do Estrela numa finalíssima com o Farense (2-0) há mais de 30 anos, a taça rainha do futebol nacional viu-se envolvida em disputas financeiras e acabou a mais de 320 quilómetros de casa.

Tribunal de Sintra decretou há cerca de seis meses que o troféu fosse devolvido. Administrador da insolvência disse ao DN que irá buscar a Taça em breve e que a entregará à Câmara Municipal da Amadora

Com dívidas superiores a 36 milhões de euros, com o Estado como principal credor, o clube foi considerado insolvente em 2010 e extinto em 2011. Isso não evitou dezenas de processos em tribunal, a reclamar o pagamento de salários, prémios e outras verbas em atraso. Um dos atletas que avançou com uma ação em tribunal foi Moses Sakyi. O jogador ganês intentou uma ação contra o clube e foi na sequência desse processo que o troféu saiu da vitrina onde estava, na sede do clube, no Estádio José Gomes. Quem a tirou? A mando de quem? E quem o permitiu? São perguntas que causam algum incómodo aos vários envolvidos e que acabam quase sempre com a mesma resposta: "Não sei."

O advogado Cassiano Neves explicou ao DN que, na qualidade de advogado do Moses, ficou como fiel depositário da taça, penhorada no âmbito duma execução de uma dívida de créditos laborais. "Eu mantenho a taça em minha posse, até que o Tribunal determine que a devo entregar. Sou fiel depositário, sou responsável pela taça e pela sua integridade", explicou ao DN, revelando que, entretanto, deixou de ser advogado do atleta que esteve na Reboleira uma época e meia (2006 a 2008) e só marcou quatro golos em 26 jogos. "A atual advogada de Moses solicitou que eu lhe entregasse a Taça, mas não o posso fazer. Só posso entregar a taça a um tribunal, ou a quem o tribunal determinar que o faça", revelou.

Para onde irá o troféu? Para já para a Câmara, depois logo se vê...

Ora, segundo apurou o DN isso já foi decretado há cerca de seis meses pelo Tribunal de Sintra. A comissão de credores do extinto Estrela da Amadora intentou uma ação em conjunto com o novo administrador da insolvência, Jorge Calvete, para recuperar a Taça de Portugal, uma vez que, segundo a lei, os troféus e símbolos dos clubes não são penhoráveis. Ou seja, o troféu foi penhorado indevidamente e será devolvido assim que Jorge Calvete tratar das diligências para a ir buscar onde está e a entregar na Câmara Municipal da Amadora. Isso mesmo confirmou o administrador da insolvência ao DN.

Como o clube faliu e deixou de existir, o troféu não pode ser devolvido ao renascido Estrela da Amadora - uma Sociedade Anónima Desportiva que ocupa o espaço e os terrenos do antigo Estrela - e por isso será entregue ao município, que depois decidirá o que fazer com ele. Expô-la no Salão Nobre da Câmara é uma opção. Contactado pelo DN, o município esclareceu que "quando, e se, se efetivar essa possibilidade, o município da Amadora equacionará qual o melhor destino a dar ao importante troféu, tendo sempre como principal objetivo a sua preservação enquanto relevante marca na história do Clube Futebol Estrela da Amadora na cidade da Amadora".

Mas não esclareceu se tenciona "emprestá-la" ao novo Estrela. Uma ideia do agrado do presidente da SAD do Club Football Estrela da Amadora. Na altura do sorteio dos oitavos-de-final da prova, André Geraldes admitiu ao DN que gostaria de dar seguimento à história do antigo clube da Reboleira e herdar o troféu, tendo apelado para que o "bom senso" dos envolvidos prevaleça para que "a Taça possa deixar a casa onde está e volte à Reboleira".

No Estádio José Gomes são muitos os apontamentos que remetem para a glória de 1990. Na entrada principal do recinto, um enorme graffiti ostenta com imponência a Taça de Portugal. Os vestígio da conquista sob o comando do treinador João Alves e com Paulo Bento no onze não acabam por aqui. Num outro muro, do outro lado do campo, está estampado o troféu com uma mensagem sugestiva: "Façam magia." E na sala das palestras uma fotografia emoldurada lembra o momento em que o capitão Duílio levantou o troféu. Só falta mesmo é a taça...

No que depender dos credores do antigo Estrela da Amadora, a Taça de Portugal de 1990 "não irá de graça" para o novo Estrela. Fonte da comissão de credores disse ao DN que o troféu tem "um valor incalculável" para as dezenas de pessoas que, passados dez anos, ainda esperam por um acerto de contas.

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