Surpresa norueguesa faz cair velho recorde de António Pinto

Sondre Nordstad Moen faz melhor marca europeia de maratona e é o primeiro não-africano abaixo das 2:06.00 horas. "Esperava que fosse o Farah a consegui-lo", reage o português

António Pinto sabia o que seu velho recorde europeu de maratona não duraria muito mais tempo - "esperava que caísse a qualquer momento e que fosse o Mo Farah a batê-lo", reconhece. Só não contava que essa marca histórica - fixada há 17 anos e entretanto igualada pelo francês Benoît Zwierzchlewski - fosse superada de forma tão surpreendente como aconteceu, ontem, na Maratona de Fukuoka (Japão): o norueguês Sondre Nordstad Moen espantou meio mundo ao vencer a corrida em 02:05.48 horas, tornando-se também o primeiro não-africano a completar a mítica distância em menos de 2:06:00 horas.

"Acreditava que podia correr em 2:07, talvez 2:06 num dia bom, mas não esperava 2:05", reconheceu o fundista norueguês, de 26 anos, ao completar a quarta maratona da carreira - estreara-se em 2015 e tinha sido 19.º na distância nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Ontem, as condições eram as ideais. E Sondre Nordstad Moen, antigo campeão europeu de sub-23 em 10000 metros (2011), aproveitou. "O tempo estava bom, as lebres fizeram um ótimo trabalho e ainda tinha muita energia na parte final da corrida. Ao chegar ao quilómetro 40 [em 1:59:23], senti que podia bater o recorde europeu", resumiu, após concluir a prova, tirando quatro minutos e 19 segundos ao anterior recorde pessoal (2:10.07, fixado este ano, em Hanôver, Alemanha).


"Foi um branco e norueguês?!"
A surpreendente marca é mesmo histórica. Superando o brasileiro Ronaldo da Costa (2:06:05, em Berlim, em 1998), Moen tornou-se o primeiro não-africano a correr abaixo de 2:06.00 num traçado oficialmente reconhecido (o estado-unidense Ryan Hall fez 2:04:58, em Boston, em 2011, mas com vento a favor e declive acentuado no percurso). E espantou até António Pinto, que fixara o anterior recorde continental (2:06:36, em 2000, na Maratona de Londres) - depois igualado por Benoît Zwierzchlewski (Berlim, 2003) e reclamado, sem sucesso, pelo naturalizado turco Kaan Kigen Özbilen (cujo registo de 2:06.10, feito em 2016, na Maratona de Seul, não foi homologado, por se ter inscrito na prova quando ainda competia como queniano).

"Foi um branco e norueguês a consegui-lo?! Não sabia nem contava com isso. É bom sinal, mostra que o desporto está a evoluir. E fico mais feliz do que se fosse um atleta naturalizado a consegui-lo", afirma, ao DN, António Pinto, admitindo que "esperava que fosse o [britânico de origem somali] Mo Farah a bater o recorde europeu". "Desde que disse que se ia dedicar à maratona, que era, para mim, o grande candidato a fazê-lo. Além disso, também havia um suíço de origem africana (Tadesse Abraham, nascido na Eritreia) que ia tentar", explica o ex-atleta.


Renascimento do fundo nórdico
No entanto, bem antes deles, foi Sondre Nordstad Moen a conseguir a melhor marca continental, ao vencer em Fukuoka com 1.22 minutos de avanço sobre o ugandês Stephen Kiprotich (campeão olímpico da mítica distância em Londres 2012). "Corri em 2:05. E nem tenho a certeza de que as pessoas lá na Noruega percebam quanto isso significa", enfatizou o atleta nórdico, que é treinado pelo italiano Renato Canova (uma referência na longa distância) e faz estágios frequentes no Quénia.
Para a Noruega, isso significa que, afinal, os irmãos Ingebrigtsen (Filip e Henrik subiram juntos ao pódio dos 1500 metros, nos europeus de ar livre de 2016; Jakob, o mais novo, vai pelo mesmo caminho) podem não ser as únicas promessas do atletismo no país. Três décadas depois de Grete Waitz e Ingrid Kristiansen colecionarem sucessos internacionais, o fundo norueguês parece estar a renascer - trazendo à memória a época dourada dos nórdicos nas provas de longa distância, que teve como último ícone o finlandês Lasse Virén (campeão olímpico de 5000 e 10000 metros em 1972 e 1976).


E agora? "De Farah espero tudo"
"Os nórdicos sempre tiveram meio-fundo e fundo com grandes tradições", anui António Pinto. "Às vezes, as pessoas pensam que os atletas africanos são impossíveis de superar, mas isto demonstra que os brancos podem consegui-lo", acrescenta o antigo maratonista, "com pena" de que os portugueses estejam agora distantes da ribalta nestas disciplinas.

Agora, Sondre Nordstad Moen - que batera em outubro o recorde nacional norueguês de meia-maratona (59:48 minutos, em Valência) - já olha para o futuro, dizendo até que a experiência de correr no Japão ("pela primeira vez", num fuso horário tão distante do seu) "foi uma boa experiência para se preparar para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020". Faltam dois anos e meio. Mas é provável que o recorde europeu de maratona não se conserve até lá. "De Mo Farah, espero tudo. Pela maneira como ganhava aos africanos nos Jogos Olímpicos e Mundiais [em 5000 e 10000 metros] e como já o vi vencer uma meia-maratona de Lisboa, a vir de trás, depois de parecer completamente fora da corrida, é capaz de tudo. Se fizer um tempo 2:03.00 ou 2:04:00, já não fico surpreendido", conclui António Pinto.

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