"Se ninguém assobiasse, seria porque não existiam saudades"

Fernando Mendes e Pacheco jogaram no Benfica e Sporting e contam como foi passar para o rival, a propósito de Coentrão

Fábio Coentrão que se prepare porque os adeptos do Benfica não o vão poupar agora que assinou pelos leões, curiosamente o clube que apoiava na juventude, antes de brilhar ao serviço do Benfica entre 2009 e 2011. A claque No Name Boys já avisou que os assobios esperam o lateral-esquerdo na Luz, numa publicação na rede social Instagram... e que até teve um like de Renato Sanches. E um dos jogadores mais antigos do plantel benfiquista, Salvio, picou o defesa dizendo que jamais trocaria as águias pelo eterno rival, salientando a importância de referências como Luisão, Jardel, André Almeida, Lisandro López e Fejsa.

A centenária rivalidade entre os grandes de Lisboa conhece agora mais um caso de "traição", sobretudo porque o internacional português chegou a dizer que "assinava já um contrato vitalício" pelo Benfica (2011) e que em Portugal só jogava pelos encarnados (2015). Agora garante que "sempre" foi "feito de Sporting".

Estar identificado com um dos rivais e passar a jogar pelo outro é uma situação complicada, conta Fernando Mendes, que em 1989 se desvinculou dos leões para assinar pelas águias. "Não foi fácil, mas foi uma decisão que tomei na altura. Tinha oito meses de salários em atraso", contou ao DN o antigo lateral-esquerdo, 50 anos.

"Estive 15 dias escondido numa casa de Jorge de Brito [presidente do Benfica na altura] em Lagos, na Meia Praia. Houve telefonemas para casa dos meus pais. Depois comecei a fazer a minha vida normal, ainda que tenha deixado de frequentar alguns sítios onde estavam pessoas mais ligadas ao Sporting", recordou o ex-futebolista internacional português, que esteve na Luz até 1993, ainda que com uma temporada ao serviço do Boavista pelo meio.

A receção no regresso a Alvalade foi tudo menos acolhedora para Fernando Mendes, que ainda assim tira ilações positivas da reação gerada. "Fui muito assobiado. Afinal, fui criado no Sporting, fui para lá com 9 anos. É sinal que têm saudades nossas. Se ninguém assobiasse, seria porque não existiam saudades. Por isso, foi mais ou menos agradável", analisou o antigo jogador, que acabaria também por passar pelo FC Porto, entre 1996 e 1999. "Quando fui para o FC Porto, foi mais pacífico, porque passei por outros clubes pelo meio", afirmou o agora comentador, que também representou Estrela da Amadora, Belenenses, Vitória de Setúbal, Montijo e São Marcos.

O verão quente de 1993

Caminho inverso fez Pacheco, que deu início ao verão quente de 1993, em que Paulo Sousa também trocou a Luz por Alvalade, um trajeto que João Pinto também esteve perto de fazer naquele ano. Mais de duas décadas depois, o antigo extremo, 50 anos, diz que o seu caso foi mais complicado do que o de Coentrão. "Não é uma mudança direta, não há muito de similar. Se existe alguma polémica foi por ele ter dito que em Portugal só jogava no Benfica. Mas vai ser difícil para ele. É sempre complicado jogar num clube que é rival de outro pelo qual passámos. Isso acabou por marcar a minha carreira", afirmou ao nosso jornal, sem revelar a "verdadeira razão" por ter rescindido com os encarnados e depois assinado pelos verde e brancos naquele verão.

"Estão pessoas envolvidas. Mas convém ficar claro que eu não troquei o Benfica pelo Sporting. Primeiro, rescindi com o Benfica e só depois fui para o Sporting. Não tinha nada apalavrado quando ainda era jogador do Benfica", justificou. "Tive algumas situações que não gostei quando estava no Benfica, e disse que a final da Taça de Portugal de 1993 [ganha por 5-2 ao Boavista] seria o meu último jogo pelo clube. Tratou-se de questões internas, que entendi que não devia partilhar, mas não troquei um clube pelo outro. Só quando já estava livre é que assinei pelo Sporting", aditou, reforçando a ideia.

Também ele antigo internacional português, Pacheco diz que não teve "ameaças concretas", mas que houve "alguns piropos" devido à mudança, cujo processo se desenrolou de forma secreta até se concretizar. "Ninguém me tentou demover, porque nunca partilhei a história com alguém. Não houve um único colega meu que soubesse da minha intenção", lembrou.

Embora tenha feito "férias normais" durante esse verão quente, o ex-futebolista foi insultado por adeptos benfiquistas. "O meu nome andava escrito de forma pouco simpática nas ruas de Lisboa, e danificaram dois carros que eu tinha. Quando regressei à Luz, fui recebido como devia pelos benfiquistas, que não gostaram da minha saída e insultaram-me", recordou o antigo atleta, que também passou por Torralta, Portimonense, Belenenses, Reggiana (Itália), Santa Clara, Atlético e Estoril.

Mais de 50 traições

Mais de meia centena de futebolistas já vestiram a camisola de ambos os grandes de Lisboa. Os derradeiros a entrar para este lote foram André Carrillo e Lazar Markovic, que na temporada passada representaram águias e leões depois de já terem estado do outro lado. A história de trocas de jogadores remonta logo ao primeiro dérbi da história (ver caixa ao lado).

Fábio Coentrão vai tentar entrar para um lote restrito que teve em Luís Filipe a mais recente entrada: ser campeão nos dois rivais (2001--02 no Sporting e 2009-10 no Benfica). A lista é curta, e apenas contempla mais nove nomes: Pérides, Pedras, Nélson Fernandes, Artur Correia, Rui Jordão, Carlos Alhinho, Laranjeira, Eurico Gomes e João Pinto.

Ainda assim, e mesmo sem a felicidade de conquistar o título nacional, jogadores conceituados como Caneira, Dimas, João Pereira, Marinho, Paulo Sousa, Dani, Carlos Manuel, Maniche, Paulo Bento, Derlei, Simão, Cadete e Futre jogaram na condição de visitado tanto em Alvalade como na Luz.

Um dos que gerou mais mal-estar foi Simão Sabrosa, que fez parte da formação no Sporting, de onde saiu em 1999 para o Barcelona. "Devo tudo ao meu querido Sporting", afirmou na altura. Dois anos mais tarde, assinou pelo Benfica, e logo na primeira época de águia ao peito teve uma declaração polémica, em vésperas de um dérbi que podia dar o título ao Sporting: "O que gostaria era que o Benfica ganhasse o título. Acredito numa vitória do Benfica em Alvalade e, se tiver de ser para roubar o título ao Sporting, melhor ainda."

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