Sporting campeão. O milagreiro Amorim, a visão de Varandas e a aposta certeira nos jovens

19 anos depois, o leão voltou a conquistar o título nacional, o 19.º do seu historial. Líder desde a 6.ª jornada e sem derrotas no campeonato, foi galgando etapas, com um discurso cauteloso, que acabou com um final feliz.

Confirmou-se o cenário que já era de alguma forma anunciado. O Sporting é o campeão nacional da época 2020-21 - o 19. º título do seu historial, apesar de no autocarro dos festejos estarem escritos 23, porque o clube contabiliza os Campeonatos de Portugal - e colocou um ponto final em 19 anos de jejum sem vencer a principal prova do futebol português. Os leões precisavam de vencer nesta terça-feira o Boavista em Alvalade para a festa rebentar e cumpriram o objetivo, ganhando por 1-0, com um golo de Paulinho, aos 36', sagrando-se campeões a duas jornadas do fim do campeonato, com mais oito pontos do que o segundo classificado, o FC Porto. Este, recorde-se, é o segundo título conquistado esta época, depois da Taça da Liga, em janeiro.

É uma temporada notável, onde porventura o maior mérito pertence ao treinador Rúben Amorim. Mas também ao presidente Frederico Varandas, que apesar de alvo de críticas, não teve problemas em março do ano passado, ainda decorria a época 2019-20, ter ido buscar o treinador ao Sporting de Braga para substituir Jorge Silas, pagando a cláusula de 10 milhões de euros (o valor mais alto de sempre pago em Portugal por um treinador), mesmo numa altura em que o clube vivia mergulhado em problemas financeiros.

Qual vidente, naquele dia 5 de março de 2020 Varandas fez a apologia de Rúben Amorim, que muitos criticaram pelo valor que custou e até pelo passado benfiquista. "É o treinador certo para valorizar o plantel em 30 ou 40 milhões de euros"; "Dentro de alguns anos será demasiado grande para o futebol português": "Vem potenciar os jogadores da formação, há uma mudança de paradigma"; "Tem muita ambição, crer, conhece a realidade futebol português e sabe o que é trabalhar num clube grande", perspetivou.

O final da época passada foi apenas uma espécie de tubo de ensaio. O treinador entrou em março, apanhou a pandemia no auge, com jogos adiados, público fora dos estádios (o que no caso do Sporting se questiona se não terá sido até benéfico, porque numa determinada altura existiu um divórcio com as claques) e a equipa já sem objetivos no quarto lugar. Mas foram meses que serviram para lançar as bases para a nova temporada (estreando um novo sistema tático 3X4X3), onde o Sporting surgiu inicialmente como outsider perante o favoritismo apontado a Benfica e FC Porto. Basta ver os prognósticos das casas de apostas, que inicialmente davam apenas 3% de hipóteses ao Sporting.

Esta época começou e no início de novembro surgiu logo um primeiro sinal na 6.ª jornada, com os leões a ocuparem a liderança isolada da I Liga, algo que não se via em Alvalade desde setembro de 2016, com Jesus ao leme. E nunca mais a perderam! No final da primeira volta da I Liga, o Sporting já liderava confortavelmente, com mais oito pontos do que o FC Porto, o segundo classificado.

A liderança nunca esteve fortemente ameaçada (chegou a ter 10 pontos de avanço sobre o FC Porto), mas mais recentemente, uma série de empates (três em quatro jogos) chegaram a fazer sonhar o dragão, que à jornada 28 estava a quatro pontos. Mas o Sporting voltou a entrar nos eixos, o FC Porto teve nova escorregadela, e a diferença atual de oito pontos permitiu que a festa feita a duas jornadas do fim da I Liga, com os leões a atingirem os 82 pontos.

Campeão sem derrotas?

A equipa de Rúben Amorim tem ainda mais um grande desafio até ao final do campeonato, que é terminar a prova sem qualquer derrota sofrida. Para já, em 32 jogos, regista uma folha de serviço sensacional, com 25 vitórias e sete empates - FC Porto (casa e fora), Famalicão (casa e fora), Rio Ave (casa), Moreirense (fora), Belenenses SAD (casa).

O atual Sporting foi a única equipa nacional a conseguir estar tantos jogos consecutivos sem perder em campeonatos com mais de 30 rondas. O anterior recorde pertencia ao FC Porto, que, em 1987/88, época em que venceu a Taça Intercontinental, a Supertaça Europeia, o campeonato e a Taça de Portugal, só perdeu a invencibilidade à 29.ª jornada.

No início do século XXI, entre as épocas 2001/02 e 2002/03, o Sporting, do romeno Laszlo Bölöni esteve perto de igualar este recorde, ao chegar aos 28 jogos sem perder, antes de, em 16 de setembro de 2002, cair com grande estrondo em Paços de Ferreira (0-4).

Os leões vão em 32 jogos sem perder e podem tornar-se a primeira equipa a acabar invicta um campeonato com mais de 30 jornadas. Se o conseguirem, ficarão mesmo assim muito longe do recorde de invencibilidade dos outros grandes em mais do que uma época, já que o Benfica esteve 56 jogos sem perder, entre 1976/77 e 1978/79, e o FC Porto 55, entre 2009/10 e 2011/12.

Se há mérito sobretudo do treinador e também do presidente, os protagonistas foram os jogadores. O Sporting gastou esta época (mercado de inverno incluído) perto de 30 milhões de euros em reforços - mais de metade em Paulinho ao Sp. Braga, em janeiro, por 16 milhões. Antes, no verão, chegaram a Alvalade Pedro Gonçalves (ex-Famalicão), Nuno Santos (ex-Rio Ave), Feddal (ex-Bétis), Tabata (ex-Portimonense), Antunes (ex-Getafe), Adán (ex-At. Madrid), Pedro Porro (cedido pelo Man. City) e João Mário (cedido pelo Inter Milão). Matheus Reis (cedido pelo Rio Ave) e João Pereira (livre) assinaram na reabertura do mercado de inverno.

Aposta nos jovens e o muro Coates

Depois houve uma aposta clara e acertada em jovens da formação, que começou na época passada. Desde que está no Sporting, Amorim lançou um total de sete jogadores da Academia de Alcochete. O último foi Dário Essugo, de apenas 16 anos, em março passado, que se tornou no futebolista mais novo da história dos leões a jogar pela equipa principal, batendo o recorde que pertencia ao central Santamaria, na época 1998-1999.

Além do jovem de origem angolana, Amorim foi ainda responsável pelo lançamento de Nuno Mendes, Gonçalo Inácio, Tiago Tomás, Joelson Fernandes, Eduardo Quaresma e Daniel Bragança. O caso de Matheus Nunes é diferente, pois o brasileiro chegou com 20 anos, para jogar na equipa de sub-23.

Alguns destes jovens tornaram-se mesmo primeiras opções, sendo o exemplo mais flagrante o defesa direito Nuno Mendes, de 18 anos, atualmente o jogador mais valioso do plantel leonino (25ME), que entretanto já foi chamado por Fernando Santos à seleção e que já está a ser cobiçado por grandes emblemas europeus. Mas há também o caso do avançado Tiago Tomás, 18 anos, que participou num total de 36 jogos oficias, com seis golos marcados.

A mudança na baliza, com a contratação do experiente guarda-redes espanhol Antonio Ádan, foi também determinante na campanha triunfal desta época, com o guardião a revelar-se uma das grandes figuras deste título, a par da temporada extraordinária do central Sebastián Coates no eixo da defesa (provavelmente o jogador mais em destaque nesta época), do papel fundamental de João Palhinha no meio-campo, dos golos importantíssimos de Pedro Gonçalves (18) e dos desequilíbrios do lateral espanhol Pedro Porro.

Refira-se que apenas seis elementos do plantel leonino já tinham vivido uma experiência semelhante - a conquista de um título de campeão nacional. As seis exceções são Adán (At. Madrid), Coates (Nacional de Montevideu), Neto (Zenit), João Pereira (Benfica), Antunes (D. Kiev) e Nuno Santos (Benfica). Todos os restantes tiveram ontem o batismo.

O discurso sem euforias

Há quem considere que o afastamento precoce da Liga Europa (logo em outubro, no play-off de qualificação) e da Taça de Portugal (na primeira quinzena de janeiro), que significaram menos jogos, contribuíram de forma decisiva para a equipa se unir em torno de um único objetivo. Um objetivo que, diga-se, nunca foi assumido em Alvalade. Numa clara estratégia de retirar pressão aos jogadores, o treinador Rúben Amorim foi repetindo, jornada após jornada, e mesmo quando a diferença pontual para o FC Porto chegou a ser de dez pontos, que no grupo o pensamento era jogo a jogo, e que esse era o foco. A exceção a esta linha de raciocínio só foi aberta na segunda-feira, precisamente na véspera do jogo com o Boavista.

"Sempre disse que se chegássemos a este ponto, em que estivessem em jogo três pontos que nos dessem o título, seriamos obviamente candidatos ao título. Estou contente por estarmos a três pontos de ganhar um campeonato que não se ganha há muito tempo", referiu, encarando com naturalidade os preparativos da festa - "até ficávamos ofendidos se o Sporting não estivesse a preparar a festa, era sinal que não confiavam em nós."

E foi assim, jogo a jogo, sem derrotas na Liga, com um discurso cauteloso do treinador e sem euforias antecipadas, que o Sporting conquistou esta terça-feira o 19.º título de campeão da sua história, 19 anos depois do último, sob a orientação do romeno Laszlo Bölöni, numa equipa que tinha estrelas como João Vieira Pinto, Mário Jardel, André Cruz, Paulo Bento, Pedro Barbosa, Quaresma, entre outros.

A excelente temporada, agora coroada com o título nacional, vai permitir também ao Sporting um significativo encaixe financeiro com a entrada direta na Liga dos Campeões do próximo ano. Os milhões da competição milionária, aliás, já estavam assegurados desde a semana passada com a vitória em Vila do Conde, diante do Rio Ave. Serão pelo menos 23 milhões de euros logo à cabeça, mas este valor ainda pode subir. Uma temporada para mais tarde recordar.

nuno.fernandes@dn.pt

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