SOS Cabedelo. História de surf e da luta por uma onda

Em 2009, Eurico Gonçalves e Miguel Figueira formaram a associação para defesa da famosa onda da Figueira da Foz

De entre todas as vedetas da terceira etapa da Liga Meo, o Allianz Figueira Pro, que arranca hoje na Figueira da Foz, há uma que se destaca: a própria onda do Cabedelo.

Uma das melhores e mais famosas ondas da Europa, o Cabedelo, onda característica que quebra a partir do pontão, num fundo de areia que se conta entre os mais consistentes do país, já recebeu inúmeras provas nacionais, do Mundial de Qualificação e do World Tour. Foi, aliás, na Figueira, em 1996, que decorreu a primeira prova do Circuito Mundial (WCT).

E foi na defesa desta onda que em 2009 se formou a associação SOS Cabedelo, pela mão do campeão nacional de longboard Eurico Gonçalves e do arquiteto e surfista amador Miguel Figueira.

Eurico Gonçalves relata a génese do projeto: "Estava a terminar o meu mestrado de surf na Faculdade de Motricidade Humana, onde adquiri algumas noções de práticas de proteção da orla costeira, e um dia, em conversa com o professor Pedro Bicudo, ele próprio surfista, falei-lhe das alterações que sentia na onda do Cabedelo e da coincidência destas mudanças com a extensão de 50 metros do molhe norte. Ele explicou-me que sim, que havia uma ligação direta. "Se é assim com 50 metros, imagina 400 metros", disse-me, referindo-se aos planos de extensão do pontão."

Esta conversa fez soar o alarme para Eurico Gonçalves, que partilhou a sua inquietação com o amigo de infância e arquiteto Miguel Figueira. A resposta foi uma mobilização sem precedentes da comunidade surfista da Figueira da Foz, com 230 surfistas a formarem um gigantesco SOS nas águas do Cabedelo. "Uma enorme festa", conforme recorda Eurico Gonçalves, que marcou o dia 21 de setembro de 2009 como a data de nascimento do SOS Cabedelo.

Surf também dá empregos

Assim começou uma história de defesa da onda e da orla costeira. "Sabemos onde e quando começou mas não sabemos onde vai acabar", conta o cofundador Miguel Figueira. "Não fomos contra a obra porque não podíamos ir contra o desígnio da cidade e do porto, mas reclamámos um papel do surf como interlocutor no processo. Porque é o surf que, a par das pescas, dá emprego a esta gente da Figueira", sublinha Eurico Gonçalves.

Ainda segundo Miguel Figueira, a defesa do Cabedelo não é apenas uma causa localista na defesa de uma onda que reclama para si o estatuto de um dos locais seminais do surf nacional, referenciado em revistas internacionais desde os anos 70, quando o surf era uma curiosidade importada por alguns estrangeiros. A "praia submersa" do Cabedelo, ou duna hidráulica, a primeira barreira de defesa contra as ondulações e aquela que, simultaneamente, cria a onda surfável, está ligada aos bancos de areia da Nazaré e de Peniche: "Estamos a falar de uma plataforma sedimentar que reúne o Cabedelo mas também Buarcos, conhecida como a direita mais longa da Europa, Peniche, a onda de fundo de areia mais tubular da Europa, e a Nazaré, a maior onda do mundo. Obviamente, o tamanho da onda da Nazaré tem que ver com o canhão, mas são os fundos de areia que lhe dão a forma."

E qual é o papel do surf de competição e de provas como a Liga Meo Surf nesta causa? "É fundamental. Porque chama a atenção para a qualidade da onda e porque é um motor económico importantíssimo", defende Eurico Gonçalves, recordando alguns marcos em que o Cabedelo e a história do surf internacional se tocam: "Não podemos esquecer que foi aqui que se realizaram os primeiros campeonatos do Circuito Mundial em Portugal, e que foi aqui, em 1997 e 1998 que Kelly Slater conquistou dois dos seus títulos mundiais. O Cabedelo faz parte da história do surf, do seu passado, mas queremos que continue a fazer parte do seu futuro."

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