Shakespeare, o homem da casa, reacende a epopeia de Leicester

Um simples adjunto, sem experiência como técnico principal, fez renascer o campeão inglês: venceu todos os jogos até aqui (seis) e pôs os foxes quase a salvo da descida

Dito de uma forma simplista, é isto: "Shakespeare está a escrever mais um capítulo do conto de fadas do Leicester." Afinal, mesmo que não se lhe conheça parentesco com o mais famoso poeta e dramaturgo da língua inglesa (William Shakespeare) e que os adeptos já comecem a desconfiar de histórias de encantar, ele conseguiu reacender a chama da maior epopeia do futebol europeu nos últimos anos. Craig Shakespeare - um simples adjunto, o homem da casa que acompanhou a ascensão dos foxes desde a III Divisão - fez renascer o Leicester, com uma série de seis vitórias consecutivas.

O número, fruto de cinco triunfos na Premier League (Liverpool, Hull, West Ham, Stoke e Sunderland) e um na Liga dos Campeões (Sevilha), é significativo. Só Carlo Ancelotti (Chelsea, 2009-10) e Pep Guardiola (Manchester City, esta época) conseguiram um arranque tão bom na liga inglesa. O Leicester nunca tinha chegado tão longe nas competições europeias (a vitória sobre o Sevilha valeu a passagem aos quartos-de-final da Champions). E tudo se torna ainda mais sonante tendo em conta que a equipa estava em crise profunda, a um ponto dos lugares de descida, até dispensar Claudio Ranieri, no final de fevereiro.

Craig Shakespeare, de 53 anos, foi uma opção de recurso para render o treinador italiano que levara o humilde clube à conquista do título inglês, na época passada. Conhecia bem a casa - chegou lá em 2008-09, como adjunto de Nigel Pearson - e os ícones de equipa, como Schmeichel, Morgan, Drinkwater ou Vardy, que com ele subiram desde as divisões inferiores. E, com o apoio deles, iniciou redenção. "Perguntou-nos qual a nossa opinião sobre a estratégia a utilizar contra o Liverpool. Dissemos-lhe que devíamos pressionar mais em cima. Assim fizemos e resultou", recordou Vardy.

O triunfo sobre os reds (3-1) - seguida de outro sobre o Hull, de Marco Silva ( 3-1) - convenceu a direção do Leicester. A 7 de março, o interino, sem experiência como treinador principal (só fizera, e ganhara, uma partida, pelo WBA, em 2006), foi confirmado como manager do Leicester até final da época. E as vitórias continuaram a suceder-se.

Como jogador (centrocampista), Shakespeare só fez carreira nos escalões secundários: como lenda, ficou o dia em que secou Ruud Gullit, num Grimsby Town-Chelsea, para a Taça de Inglaterra. Mas foi lá que formou a personalidade calma que agora dá frutos em Leicester. "Ele sabe como falar com toda a gente, seja o presidente do clube ou o pai de um miúdo das escolinhas", resumiu, ao Telegraph, Dan Ashworth, dirigente da federação inglesa, com quem Shakespeare colaborou, durante a breve passagem de Sam Allardyce como selecionador.

No Leicester, ele "é a argamassa que une todos os jogadores", diz, por sua vez, Ken Way, antigo psicólogo da equipa. E os resultados comprovam-no: a defesa, comandada por Schmeichel e Morgan, regressou à segurança da temporada passada (não sofreu golos no sábado, contra o Stoke, nem na terça-feira, diante do Sunderland); e Jamie Vardy reencontrou-se com as balizas (cinco golos nas últimas seis partidas). O resultado foi a escalada do aflitivo 17.º para o tranquilo 11.º lugar da Premier League, já com oito pontos de avanço sobre os lugares de descida de divisão - de Sunderland (20), Middlesbrough (23) e Swansea (28), que tem mais um jogo.

Todavia, Shakespeare não dá a missão por concluída. "Não posso dizer que estamos salvos, porque as outras equipas também podem conseguir uma sequência de vitórias como a nossa. Temos de nos manter concentrados, para preparar o jogo de domingo com o Everton [16.00, Sport TV3], que será outro grande desafio para nós", disse o técnico do Leicester. Se prolongar a a marcha 100% vitoriosa em Goodison Park (Liverpool), Shakespeare iguala os máximos - seis triunfos consecutivos - de Carlo Ancelotti e Pep Guardiola.

"Às vezes, tenho de me beliscar para acreditar no que está a acontecer. Se mencionado ao lado deles deixa-me muito orgulhoso", confessa Shakespeare. No entanto, o sonho continua: na quarta-feira, segue-se a visita ao Atlético de Madrid, para a 1.ª mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões. O Leicester, único sobrevivente inglês na liga milionária, é o principal outsider da competição. E, com Craig Shakespeare, parece ter recuperado o jeito para epopeias inesperadas.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG