Vânia Neves: paixão pelas águas abertas sem medo da poluição do Rio

A estudante de Viana do Castelo vai disputar umas das mais duras provas olímpicas: nadar 10 kms no Forte Copacabana

"Quando me dizem que não consigo, é quando mais o quero fazer." A frase de Vânia Neves, a portuguesa de Viana do Castelo que hoje vai nadar 10 km em águas abertas, junto do Forte de Copacabana, define bem a sua personalidade. A poluição não lhe tira o sono - "o médico disse-me para tomar antibiótico e nem penso no resto" - nesta sua estreia olímpica, onde vai cumprir "um sonho".

O gosto pelo desafio de competir em mar aberto tomou-a de assalto assim que o experimentou pela primeira vez, pondo em segundo plano uma carreira na piscina. "Eu já nadava provas de fundo e por brincadeira a minha treinadora disse que depois de disputar os nacionais seria interessante experimentar o nacional de águas abertas. Comecei por fazer 5 km na barragem de Montemor e foi o suficiente para ficar com aquele bichinho."

Garantiu logo ali um 4.º lugar e, na verdade, foi seguindo um novo rumo na carreira desportiva, já ao serviço do Fluvial do Porto, que a fez descobrir "um mundo novo". Uma realidade que, além do treino, também requer uma boa dose de coragem. Em casa, o pai reagiu bem, até pelo passado como desportista - jogou futebol no Salgueiros e no Varzim. Já a mãe ainda se preocupa sempre que a filha vai para o mar. Embora o socorro esteja sempre por perto - "nos nacionais em Portugal há praticamente um caiaque para cada nadador" - podem acontecer imprevistos como "levar uma cacetada e partir os óculos" ou situações mais graves que se prendem com a vontade de continuar a competir dos próprios atletas.

o médico disse-me para tomar antibiótico e nem penso no resto

"Logo na minha primeira prova internacional, em Setúbal, a água estava bastante fria, a cerca de 16 graus. Aos 6 km de prova comecei a sentir uma enorme dificuldade em respirar e pensei: "OK, isto é frio mas é uma prova internacional, não posso parar." Saí da água inconsciente e em hipotermia", recorda Vânia Neves ao DN, de sorriso no rosto.

O susto poderia ser suficiente para a desviar de um caminho que agora culmina com a sua primeira presença em Jogos Olímpicos. Mas, no caso de Vânia Neves, funcionou ao contrário e o interesse em águas abertas virou académico. Licenciada em Ciência do Desporto e a terminar o mestrado em Alto Rendimento na Universidade de Porto, a jovem de 26 anos escolheu esta disciplina da natação para o seu tema de tese, procurando caracterizar as diferenças entre mecânica da braçada e o esforço fisiológico de um nadador de águas abertas e um fundista de piscina.

A nadadora sabe que não está entre as candidatas às medalhas no Rio, salientando que só o facto de participar e estar nos Jogos já lhe deu uma lição de vida: "Quando cheguei pensava que era pequenina, mas aqui sou igual a todos os outros. Somos olhados de igual, do último ao primeiro classificado." Os 10 km de natação são uma das provas mais duras dos Jogos Olímpicos.

Vânia Neves aceita a ideia de ser "uma mulher de armas", pronta para qualquer desafio. "A própria qualificação foi um marco para mim, porque não era de todo favorita e éramos muitas a lutar por 15 vagas. O pensamento que eu tive foi que tinha a mesma hipótese que as outras, e aqui vou fazer o mesmo."

Enviado especial ao Rio de Janeiro

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