Nova crise entre Brasil e EUA? A culpa é do assalto que Lochte inventou

Nadadores norte-americanos inventaram assalto para tentar esconder atos de vandalismo. Caso cria tensão entre países

Fora da aldeia olímpica, não há trégua que resista e pouco importa que o caso esteja indiretamente ligado ao Rio 2016: o episódio do alegado assalto a Ryan Lochte e outros três nadadores estado-unidenses veio inflamar os ânimos no Brasil e nos EUA e pode servir de rastilho a um novo conflito diplomático entre os dois países. Ontem, após uma sucessão de depoimentos contraditórios das supostas vítimas, a polícia brasileira revelou que o assalto foi inventado pelo atletas norte-americanos, para tentar esconder atos de vandalismo que tinham praticado num posto de combustível.

A história tem o seu quê de novela ou série policial (com famosos e um pretenso crime...) e ganha contornos de thriller político, ao envolver as maiores potências da América do Norte e da América do Sul, que têm ressentimentos mútuos desde 2013, quando se soube - no âmbito da fuga de informação Wikileaks - que os EUA tinham espiado membros do governo do Brasil e a presidente Dilma Rousseff cancelou uma visita de estado a Washington.

Agora, os protagonistas não são priopriamente políticos VIP, mas são quatro nadadores que saíram com medalhas de ouro do Rio 2016 (Jimmy Feigen na estafeta 4x100m livres, Gunnar Bentz, Jack Conger e Ryan Lochte em 4x 200m livres) - sendo um deles, o veterano Lochte, uma das maiores vedetas da natação norte-americana neste século (seis ouros, três pratas e três bronzes em Jogos Olímpicos, desde 2004). O seu caso tornou-se diplomático a partir do instante em que, na quarta-feira à noite (madrugada de ontem em Portugal), Bentz e Conger foram impedidos de sair do Brasil, quando já se encontravam no voo que os levaria de volta para os EUA.

Na origem de tudo, estavam as contradições dos depoimentos dos atletas sobre o assalto. Inicialmente, Lochte e Feigen contaram que tinham sido assaltados (à mão armada, por homens que vestiam uniformes da polícia), na madrugada de domingo, quando regressavam de táxi de uma festa no Club France, um espaço na lagoa Rodrigo de Freitas gerido pelo Comité Olímpico Francês. No entanto, o facto de os pretensos ladrões apenas terem levado dinheiro (Lochte dizia que entregou 400 dólares após lhe terem apntado uma arma à cabeça), deixando os atletas com os seus telemóveis, levantou suspeitas.

As incongruências dos testemunhos, quanto ao número de assaltos e à hora de regresso à aldeia olímpica aumentaram a suspeição - adensada pela divulgação de imagens de vídeovigilância do momento da chegada dos nadadores, tranquilos e com todos os bens pessoais, ao seu alojamento. E a polícia esforçou-se por esclarecer o episódio, para não passar uma imagem de insegurança para o exterior. Resultado: um tribunal brasileiro decidiu proibir a saída do país de Lochte, Feigen, Conger e Bentz, até que tudo ficasse explicado. As autoridades não foram a tempo de impedir o regresso a casa dos dois primeiros, mas acabaram por travar Conger e Bentz e conseguiram clarificar tudo (apesar de ambos se terem negado a prestar declarações).

Segundo a Polícia Civil brasileira, os quatro campeões olímpicos terão vandalizado a casa de banho de uma bomba de gasolina e urinado num jardim, envolvendo-se depois numa discussão com os funcionários e o segurança do espaço - que exigiam que pagassem pelos estragos provocados. "Só na terça-feira vimos que aqueles baderneiros [arruaceiros] eram os mesmos da história do assalto. Não teve assalto algum. Eles inventaram isso porque estão com vergonha do que fizeram", denunciou um funcionário do posto de combustível, à revista Veja. A imprensa brasileira aponta Ryan Lochte - o primeiro a falar publicamente do assalto - como o responsável pela invenção. "A única verdade do que eles contaram é que estavam bêbados", disse o chefe, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Fernando Veloso.

Perante isto, a organização do Rio 2016 veio admitir o erro dos atletas, tentando ainda assim desculpá-los. "Eles competiram sob uma pressão gigantesca. Vamos dar-lhes descanso. Às vezes fazemos coisas de que nos arrependemos mais tarde. Eles divertiram-se, cometeram um erro e agora a vida continua", afirmou o porta-voz Mario Andrada.

No entanto, o erro promete continuar a dar que falar, com a opinião pública brasileira revoltada com o caso e a americana dividida entre os que criticam os nadadores e os que questionam os níveis de segurança no Brasil. É quase um braço de ferro político entre brasileiros e estado-unidenses, outrota países amigos (aliados na II Guerra Mundial): "Se fosse uma queixa de uma pessoa comum, eles não teriam ido buscar possíveis testemunhas do avião", notou o analista, da estação norte-americana ABC. Mas este parece ser mais do que um caso comum.

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