Que comecem os Jogos da ambição portuguesa... se a pandemia deixar

Serão certamente os Jogos Olímpicos mais estranhos e bizarros de toda a história, devido a uma pandemia que adiou a competição um ano e que ainda gera muitos receios na cidade japonesa e até pedidos de cancelamento. Não terão público nem o glamour de outras edições, mas ameaçam ser os melhores de sempre para a missão portuguesa, que nunca passou das três medalhas.

Os Jogos Olímpicos do medo devido ao contexto de pandemia, das restrições, da incerteza quanto aos vencedores, da ausência de Michael Phelps e Usain Bolt e da ambição portuguesa começam esta sexta-feira. Uma reunião de emergência do Comité Olímpico Internacional com a Organização Mundial de Saúde deixou até no ar a possibilidade de um cancelamento devido à subida de casos de covid-19, algo que ninguém quer acreditar. Uma coisa é certa: estes serão os Jogos mais peculiares de sempre.

A minimalista cerimónia de abertura tem lugar ao meio-dia (hora de Lisboa) de 23 de julho e dará início aos XXXII Jogos Olímpicos. Serão 19 dias de intensa luta pela glória e pela superação dos limites do corpo humano... que não será presenciada por ninguém além dos próprios. O público foi proibido e irá ser substituído por sons gravados que prometem ecoar e dar moral aos atletas.

Os Jogos Olímpicos já tinham sido cancelados por três vezes (Berlim 1916, Tóquio 1940 e Londres 1944 por causa de guerras mundiais), mas nunca adiados. Aconteceu em 2020 devido à pandemia de covid-19 e por isso Tóquio 2020 acontece apenas agora, marcado por indefinições, indecisões, polémicas, protocolos, testes e resistência popular.

A 8 de julho, as autoridades japonesas viram-se obrigadas a recolocar Tóquio sob estado de emergência. As medidas estão longe de representar um lockdown total e incidem mais sobre horários de funcionamento de bares, restaurantes e karaokes e à venda de álcool.

A aldeia olímpica funciona como uma bolha e impera o distanciamento social, rígidas normas de higiene e uso de máscaras, num ambiente que chega a ser hostil e controlador em nome da saúde pública, segundo uma reportagem da Agência Lusa. E apesar da vacinação - recomendada, mas não obrigatória - foram registados ontem em Tóquio 1832 casos, número mais alto em seis meses.

Qual thriller futurista, no caso dos jornalistas, o controlo de movimentos por GPS é uma das várias medidas "demasiado castradoras e violadoras dos direitos profissionais da comunicação social", segundo a Associação da Imprensa Desportiva Internacional. Quem desobedecer será expulso do País.

A própria cerimónia de abertura será limitada e com apenas uma parte das delegações. Serão mil pessoas num estádio com capacidade para 70 mil. Chefes de Estado apenas 15 (o francês Emmanuel Macron é um deles) e mais 70 representantes governamentais - de Portugal vai o ministro da Educação, que tem a pasta do Desporto, Tiago Brandão Rodrigues. Os EUA, por exemplo, terão a primeira-dama, Jill Biden, na representação diplomática.

Já confirmada foi a presença do Imperador do Japão, Naruhito, que manifestou fortes reservas quanto à realização da competição, na qualidade de presidente honorário dos Jogos Olímpicos e dos Jogos Paralímpicos. Tal como o Imperador, em abril, cerca de 70% dos japoneses posicionaram-se contra a realização das Olimpíadas. E há uns dias, um grupo de quatro cidadãos entrou na Justiça para tentar barrar a realização do evento - ainda não é conhecida a decisão.

Argumentam que o primeiro-ministro Yoshihide Suga tinha dito que só haveria JO com 300 ou menos casos de covid-19 no país, sendo que anda a registar mais de 3 mil por dia há sete dias seguidos - mais de 1800 em Tóquio, cidade que tem mais habitantes (13, 9 milhões) do que Portugal.

Os mais caros de sempre. Derraparam mais de 7 milhões de euros

O novo (ou renovado) estádio Olímpico de Tóquio foi construído no lugar do recinto que recebeu as Olimpíadas de 1968. O custo das obras derrapou. Foram gastos 12, 7 mil milhões de euros em infraestruturas, o dobro do previsto em 2013, quando Tóquio ganhou a corrida à organização do maior evento do mundo, tornando-se nos JO mais caros de sempre.

E prometem continuar a crescer. Dez mil voluntários desistiram e a organização teve de contratar pessoas para assegurar um serviço que costuma ser grátis, fruto da paixão dos adeptos pela experiência. Segundo a imprensa japonesa, os custos foram sendo justificados com o valor que entraria com a venda de ingressos... que agora será zero!

Mas quando a tocha for acesa tudo isso será passado e haverá 339 medalhas de ouro em disputa nas 33 modalidades do programa. E com um grande grau de incerteza quanto ao vencedor e à integridade da prova, uma vez que a covid-19 limitou a realização de testes antidoping em 2020.

Ambição portuguesa ao rubro

Do andebol aos estreantes do surf e do skate, do triplo salto ao judo e passando pela canoagem ou ciclismo. Nunca como em Tóquio 2020 os atletas portugueses assumiram tão frontalmente a luta por medalhas numa comitiva com 92 atletas (36 mulheres, o maior contingente de sempre a três anos dos Jogos para paridade, Paris 2024) de 17 modalidades. Entre eles Nelson Évora, o único campeão em atividade, que vai dividir a honra de ser porta-estandarte com a também medalhada Telma Monteiro (bronze no Rio 2016).

O protocolado são dois lugares de pódio, 12 diplomas (até ao 8.º lugar) e 26 resultados entre os 16 primeiros. Pouco, tendo em conta os 31 atletas com apoios Top Elite (objetivo medalha) e 19 atletas com apoios Elite (objetivo diploma). Não será certamente falta de confiança do chefe da Missão Marco Alves ou dos responsáveis do Comité Olímpico de Portugal (COP). É preciso entender o contexto. Os Jogos Olímpicos foram adiados um ano, sendo que o acordo entre o governo e o COP foi assinado em 2018, um ano antes de três medalháveis o poderem ser.

Jorge Fonseca só em 2019 tomou de assalto o judo, com dois inéditos títulos mundiais. Pedro Pablo Pichardo, que pediu asilo em 2017 depois de desertar de Cuba, só passou a representar Portugal no triplo salto em agosto de 2019, sendo dono da melhor marca mundial do ano. Já Auriol Dongmo é portuguesa (nascida nos Camarões) desde outubro de 2019 e tem dominado o lançamento do peso ao nível mundial desde então.

Para fazer história e igualar o melhor registo de sempre (Los Angeles 1984) e Atenas 2004, Portugal tem de conquistar pelo menos três medalhas. A primeira pode chegar já na madrugada de sábado, quando os primeiros portugueses - João Almeida e Nelson Oliveira - entrarem em ação no ciclismo de estrada.

isaura.almeida@dn.pt

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