Portugal aponta às três medalhas no renascimento do meio-fundo

Expectativas elevadas nos desempenhos de Pedro Pichardo (triplo salto), Auriol Dongmo (peso) e Patrícia Mamona (triplo salto). Nelson Évora é a grande ausência na comitiva portuguesa.

Os resultados de Pedro Pichardo (triplo salto) e Auriol Dongmo (lançamento do peso) em 2020 "foram empolgantes" e por isso é "normal" haver expectativas acrescidas com ambos nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta que começam quinta-feira em Torun, na Polónia. Mas Fernando Tavares, o chefe da comitiva portuguesa, não esquece a já duas vezes campeã europeia do triplo salto, Patrícia Mamona, que assegurou a presença no último dia do prazo ao saltar 14,21 metros. E espera regressar com "grandes marcas", além de medalhas...

"Atendendo ao ranking atual, os que estão mais bem posicionados para lutar por um dos três lugares do pódio são o Pichardo, a Auriol Dongmo e Patrícia Mamona. Os resultados que têm surgido são auspiciosos e há naturalmente expectativa na conquista de medalhas", confessou ao DN o também vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo.

Se o prognóstico for cumprido, Portugal pode igualar o máximo de três medalhas alcançado em 1998 (ouro de Rui Silva nos 1500 m, prata de Carlos Calado no salto em comprimento e de Fernanda Ribeiro nos 3000 m) e em 2002 (ouro de Rui Silva nos 1500 m, prata de Carla Sacramento nos 1500 m e de Naide Gomes no heptatlo).

Auriol é a primeira a entrar em ação (quinta-feira, 18.15, na RTP 2), ela que se estreia por Portugal. Nasceu nos Camarões, jogou andebol e basquetebol até ser desafiada a lançar o peso, modalidade que a traria a Lisboa em 2017 para representar o Sporting. Para a atleta, o ano de 2020 foi de sonho. Lançou o peso em 17 provas e ganhou 16. Em agosto atingiu os 19,53 metros, batendo o recorde nacional e fechando a época como melhor atleta mundial do ano no peso, condição que mantém. No Grande Prémio do Brasil, em dezembro, lançou a 18,57 metros, marca que lhe valeu a qualificação olímpica.

"Ausência de Nelson Évora? Acredito que saberá o que faz e seria muito interessante voltar a ter o campeão olímpico de volta ao seu melhor"

Pedro Pichardo desertou de Cuba em 2017, foi contratado pelo Benfica e naturalizou-se português. Em fevereiro foi a grande figura dos Campeonatos de Portugal de atletismo em pista coberta, abrindo a época com um salto de 17,36 metros, marca que lhe deu o passaporte para Torun e a liderança europeia da especialidade.

Com a segunda maior representação de sempre (16 atletas), destaque ainda na comitiva lusa para Francisco Belo (oitavo entre os inscritos no peso e quarto há dois anos), Marta Pen (12.º nos 1500 metros), Ricardo Santos (14.º nos 400 metros e estreante) e Carlos Nascimento (15.º nos 60 metros).

Ausência de Nelson Évora

Consciente de que a covid-19 pode mudar os planos e as ambições da comitiva portuguesa a qualquer momento, o vice-presidente da Federação Portuguesa de Atletismo espera que nenhum atleta português seja infetado e impedido de participar: "A comitiva irá fazer o seu melhor, como é hábito. Os atletas estão ávidos de participar numa prova tão importante como os Europeus de Pista Coberta. A competição internacional tem sido muito reduzida por causa da pandemia, mas estamos convictos de que irão fazer o seu melhor."

A representação portuguesa é a mais equilibrada dos últimos 20 anos, com seis atletas de meio-fundo (não acontecia desde 2002), quatro nos concursos e seis na velocidade. "As nossas velocistas, a Liliana e a Bazolo, têm feito marcas muito interessantes. O Ricardo dos Santos nos 400 metros bateu o recorde nacional. Há um conjunto muito interessante de atletas do meio-fundo, e com um pormenor importante: são sub-23, jovens que estão a evoluir imenso e talvez possamos ver o renascimento do meio-fundo, que há muito tem estado arredado dos bons resultados. Estamos muito confiantes", confia Fernando Tavares, lembrando que, apesar de ser a disciplina que mais medalhas deu a Portugal, o meio-fundo não ganha medalhas desde o ouro de Sara Moreira, em 2013.

O vice da Federação não olha para os europeus como um "teste" para os Jogos Olímpicos, onde espera ter uma boa delegação no atletismo, "modalidade que tem dado atletas olímpicos a Portugal."

Um deles é Nelson Évora. O atleta do triplo salto do Barcelona não defenderá a medalha de prata dos últimos Europeus. "O Nelson decidiu concentrar-se no apuramento para os Jogos Olímpicos. Ele sentiu uma dor do joelho e optou em conjunto com o seu treinador para gerir o esforço como forma de preparação para Tóquio 2020, e daí ter optado por nem sequer tentar estar presente nestes Europeus. É vulgar alguns atletas fazerem essa gestão em ano de Jogos Olímpicos. Acredito que saberá o que faz e seria muito interessante voltar a ter o campeão olímpico Nelson Évora de volta ao seu melhor", revelou Fernando Tavares.

Rússia é a grande ausente

A 36.ª edição dos Europeus tem inscritos 733 atletas (405 masculinos, 328 femininos) de 47 países, destacando-se a ausência da Rússia, que em condições normais seria um dos açambarcadores de medalhas. A nível individual, a grande ausente (por lesão) é a sérvia Ivana Spanovic, campeã mundial (2018) e tricampeã europeia (2015, 2017 e 2019) no comprimento.

No total, 16 campeões vão defender o título, caso do polaco Marcin Lewandowski (1500 m e 3000 m). A holandesa Nadine Visser (60 metros barreiras), a ucraniana Yaroslava Mahuchikh (altura), a italiana Larissa Iapichino (comprimento), a grega Paraskevi Papahristou (triplo), a belga Noor Vidts (pentatlo), o norueguês Jakob Ingebrigtsen (1500 metros), o italiano Gianmarco Tamberi (altura) e o sueco Armand Duplantis (vara) estão entre as grandes figuras em Torun.

Refugiado do Congo em Portugal nos 60 m

O refugiado congolês Dorian Keletela vai disputar a prova de 60 metros. O velocista do Sporting, de 22 anos, integra a equipa de atletas refugiados da World Athletics na prova de velocidade, no sábado, em Torun, na Polónia.

O passado de perseguição e sofrimento trouxe-o a Portugal em 2017. A tia, uma política da oposição do governo congolês, pediu exílio a um país europeu e conseguiu colocá-lo num avião para Lisboa, onde pediu exílio. Era um jovem de 17 anos, assustado e de poucas palavras. Passou por dois centros de refugiados na zona de Lisboa, e foi num deles que o atletismo entrou na sua vida.

Entrou logo para uma das maiores escolas do atletismo nacional, o Sporting. Tinha um jeito meio desengonçado e corria com os pés para fora, mas era muito muito rápido e especializou-se nos 60, 100 e 200 metros. Nos Europeus de pista coberta, Keletela apresenta-se com o 61.º tempo (6,79 segundos) entre os 71 participantes.

Fã de Francis Obikwelu, Dorian está integrado no programa Viver o Desporto - Abraçar o Futuro, desenvolvido pelo Comité Olímpico de Portugal.

Lista de atletas portugueses nos europeus

Masculinos

Carlos Nascimento (Sporting) - 60 metros

Mauro Pereira (Sobral de Ceira) - 400 metros

Ricardo dos Santos (Benfica) - 400 metros

Isaac Nader (Benfica) - 1500 metros

José Carlos Pinto (Benfica) - 1500 metros

Nuno Pereira (Sporting) - 1500 metros

Samuel Barata (Benfica) - 3000 metros

Francisco Belo (Benfica) - lançamento do peso

Pedro Pichardo (Benfica) - triplo salto

Femininos

Lorene Bazolo (Sporting) - 60 metros

Rosalina Santos (Sporting) - 60 metros

Cátia Azevedo (Sporting) - 400 metros

Marta Pen Freitas (Benfica) - 1500 metros

Mariana Machado (Sporting Braga) - 3000 metros

Auriol Dongmo (Sporting) - lançamento do peso

Patrícia Mamona (Sporting) - triplo salto

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