Pichardo dá ouro a Portugal. "Forma de agradecer ao país que me apoiou"

O luso-cubano fez a melhor marca na final do triplo salto - saltou 17,98 metros. Nelson Évora, em 2008, tinha sido o último atleta português a subir ao lugar mais alto do pódio nuns Jogos Olímpicos.

Aí está o primeiro ouro para Portugal em Tóquio 2020. Pedro Pablo Pichardo confirmou as expectativas (já tinha deixado boas indicações na qualificação) e garantiu na madrugada desta quinta-feira a melhor marca na final do triplo salto, com 17,98 metros, distância que lhe valeu o ouro. Foi a quarta medalha para Portugal na competição, depois dos bronzes de Jorge Fonseca (judo) e Fernando Pimenta (canoagem), e da prata de Patrícia Mamona (triplo salto).

A prata foi para o chinês Yaming Zhu, com 17,57 metros, e o bronze para o burquinense Fabrice Zango, com 17,47. Pichardo recebeu entretanto a medalha de ouro de Tóquio2020 pelas, 10:47 em Lisboa, na cerimónia de pódio, onde se ouviu o hino nacional.

"Toda a gente acha que é fácil, mas dá trabalho. Estava à espera de que fizessem uma melhor competição contra mim. Entre eles, fizeram, mas esqueceram-se de mim. Deixaram-me lá em cima sozinho. Esperava mais pelo menos do Zango ou do Will Claye. Não aconteceu, ainda melhor", disse.

"Este ouro tem um significado muito grande, pois é a única forma que tenho de agradecer ao país que me apoiou desde o primeiro dia. Agradecer com medalhas e bons resultados. O meu pai é um bocado maluco a colocar pressão em cima de mim. Não vai estar feliz com a marca. Ele estava à espera que eu fizesse pelo menos os 18 metros. Tenho a certeza que quanto a ser campeão olímpico está contente, mas com a marca não estará feliz. É um bocado maluco, exige muito"", prosseguiu.

"Não sou uma pessoa muito emotiva. Sou campeão olímpico, mas amanhã acordo e é um dia normal. Já estou a pensar em setembro ganhar a Liga Diamante. Não paro aqui, estou sempre a pensar em competir", explicou.

A consagração de Pichardo permitiu a Portugal garantir a melhor participação da sua história em Jogos Olímpicos, com quatro medalhas. Até aqui, as melhores prestações tinham sido em Atenas2004 e Los Angeles1984, ambas com três metais.

Além disso, o atleta cubano que desertou da ilha e se naturalizou português em 2019, entrou no restrito grupo de cinco atletas que conquistaram medalhas de ouro para Portugal, juntando-se a Carlos Lopes (Los Angeles 1984), Rosa Mota (Seul 1988), Fernanda Ribeiro (Atalanta 1996) e Nelson Évora (Pequim 2008).

Este bom desempenho dos atletas portugueses em Tóquio2020, de resto, permite à missão portuguesa superar o que estava contratualizado com o Governo, pelo menos no que a pódios diz respeito, uma vez que só dois estavam estipulados.

Portugal passou a contar com um total de 28 medalhas conquistadas em Jogos Olímpicos (cinco de ouro, nove de prata e 14 de bronze).

O atleta luso-cubano tem como melhor marca 18,08 metros, distância que alcançou em maio de 2015, em Havana, Cuba, no Memorial Barrientos. O recorde do mundo pertence ao britânico Jonathan Edwards, que em agosto de 1995, em Gotemburgo, saltou 18,29 metros.

Pichardo desertou de Cuba em abril de 2017 durante um estágio da seleção do seu país em Estugarda (Alemanha). A notícia correu mundo. Era um das maiores promessas do atletismo cubano e do triplo salto, vice-campeão mundial e ficou impedido de representar o país a nível internacional e de regressar à ilha durante oito anos. Ficou "em parte incerta" algum tempo e o destino só foi conhecido mais tarde. Lisboa e Benfica - o clube da Luz conseguiu desviá-lo do Barcelona.

Pichardo é treinado pelo pai, Jorge. Essa, aliás, foi uma das razões que o levaram a sair de Cuba, pois no seu país de origem queriam obrigá-lo a ser treinado pelo selecionador nacional cubano.

Em Portugal, confessa gostar do sol do Algarve, por ser a zona mais parecida com a sua terra natal e gosta da comida portuguesa, apenas não apreciando o tradicional bacalhau. Se não tivesse ido para o atletismo, teria sido atleta de boxe.

Em outubro de 2018, numa entrevista ao DN, desvendou vários segredos, entre eles como foi planeada a saída de Cuba.

"Estava tudo combinado com toda família, mas alguns não queriam que saísse porque seria obrigado a ficar oito anos sem entrar em Cuba. Mas tinha de o fazer porque nós estamos a trabalhar para eu ser o melhor do mundo, não é por dinheiro, como muita gente fala, até porque em Cuba eu estava bem: não vivia como um rei, mas tinha a minha casa em Havana, dois carros, uma quinta, um pequeno negócio... Saí de Cuba para demonstrar que somos os melhores no triplo salto. Viajei de Havana para Estugarda e lá um amigo, que me ajudou muito, fez trinta horas de carro com o meu pai da Suécia até Estugarda... só descansaram duas horas. E depois voltámos no mesmo dia para a Suécia, mais 30 horas de viagem. Na altura o meu pai estava a trabalhar num clube sueco há três anos", contou.

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