"Paulo Bento era arrogante e tinha atritos com brasileiros"

Elpídio Silva ficou conhecido em Portugal por "o pistoleiro", devido à forma como festejava os golos. Na I Liga, marcou-os ao serviço de Sp. Braga, Boavista, Sporting e V. Guimarães. Viveu os melhores momentos da carreira vestido de axadrezado, tendo sido campeão nacional em 2000/01 e disputado a Liga dos Campeões na época seguinte. Já em Alvalade, foi pouco feliz. Foi aposta de Fernando Santos, mas só apontou cinco golos. Em vésperas de um Boavista-Sporting, diz que o favoritismo é dos leões.

Já deixou de jogar há oito anos. O que faz agora?

Vivo no Brasil, em Lagoa Seca, a cinco quilómetros de Campina Grande, no estado de Paraíba. Tenho um negócio, juntamente com a minha mulher, que consiste no aluguer de um terreno e organização de eventos como casamentos e batizados. Também tenho um restaurante português e uma escolinha de futebol, pois o terreno que temos inclui três campos de futebol.

Como tem estado a lidar com a retirada dos relvados?

É tudo uma questão de adaptação. A minha vida toda foi futebol e no início foi complicado, mas o futebol já não vai dar mais e saí de cabeça erguida. Foi um sonho que realizei, pois nunca pensei jogar a Liga dos Campeões. Tenho muitas saudades e vejo jogos do campeonato português todas as semanas, mas agora é para o meu filho, que está a jogar em Portugal, no Vianense, e é muito parecido com o pai e acho que vai dar jogador. Vai fazer 17 anos em janeiro e é pretendido por Sp. Braga e Boavista.

Nunca lhe passou pela cabeça continuar ligado ao futebol?

Tinha muita vontade de ser treinador e trabalhar com jovens, mas no final da minha carreira passei dois anos no Chipre [no Alki Larnaca e AEK Larnaca], onde o futebol me deu uma grande deceção. Gostava de futebol a sério e lá não era. Os jogadores faziam-se moles e havia resultados combinados. Houve vezes em que pedi para sair da concentração porque achava que os jogos estavam vendidos.

Quais são as melhores recordações que guarda da carreira?

Tive o meu auge em Portugal. Tenho lembranças muito boas do Atlético Mineiro e do Japão, mas as melhores são do primeiro ano em Braga e do título pelo Boavista. Acho muito difícil o Boavista ser campeão de novo. Muito mais rapidamente será o Sp. Braga. Também guardo o V. Guimarães no meu coração, porque levámos o clube à UEFA, quase dez anos depois da última participação. O único clube em que não me destaquei foi o Sporting. Não tive sorte e houve muitas questões fora dos relvados.

O que falhou para não vingar em Alvalade?

A minha mulher não se adaptou a Lisboa, passei três ou quatro meses num hotel enquanto encontrava casa e tive uma lesão grave na cabeça. Foram coisas pelas quais não passei nos outros clubes, onde já tinha casa e escola para os meninos. Tudo era complicado no Sporting.

É a maior mágoa da carreira?

Sim, porque o Sporting é um clube grande e não consegui mostrar o meu valor. Falhei, mas o Sporting também.

Mas fez uma época completa com Fernando Santos, em 2003/04, e depois foi emprestado ao V. Guimarães e acabou por voltar...

No meu regresso, apanhei o Paulo Bento, que tinha sido meu colega na primeira época no Sporting e não me encaixava bem como treinador e pessoa. Achava que ele era muito arrogante e tinha atritos com brasileiros. Explicou-me que não contava comigo.

E ao olhar para este Sporting, acredita que está melhor que o do seu tempo?

Sim. Tem uma equipa consistente, um treinador que tem fibra de campeão e tem vindo a fazer bons jogos, embora a última temporada não tenha corrido tão bem. O Sporting tem investido bem, de acordo com as necessidades do treinador e da equipa. Antigamente, os empresários chegavam e colocavam os jogadores.

É esta época que vai quebrar o jejum?

Quem deve vir a sagrar-se campeão é o FC Porto, que está mais consistente e a jogar o melhor futebol do campeão, com três excelentes jogadores na frente.

O próximo jogo do Sporting no campeonato é frente ao Boavista, no Bessa, um palco onde o Elpídio brilhou. O que perspetiva deste duelo?

São duas equipas em momentos distintos. O Sporting está a lutar pelo primeiro lugar, com os mesmos pontos do FC Porto, e o Boavista melhorou com a chegada do novo treinador. É um clássico, mas o favoritismo vai para o Sporting, que luta para ser campeão.

Voltando atrás na sua carreira, como vai parar ao Japão em 1997, pela porta do Kashiwa Reysol?

As pessoas têm uma visão muito errada do Japão. Vão para lá treinadores de fora, que introduzem os métodos deles. Aprendi muito lá e não tive dificuldades quando fui para Portugal. Tinha-me destacado nas camadas jovens do Atlético Mineiro, marcando muitos golos, e houve um japonês que gostou muito de um vídeo que o meu empresário fez.

E como se dá a vinda para Portugal?

Esse mesmo empresário, João Baptista Feijó, tinha vários jogadores em Portugal e colocou-me no Benfica. Eu tinha tudo acertado com o Benfica, em 1998. Contudo, o presidente [Vale e Azevedo] não me enviou um fax com a documentação necessária. Já estava no aeroporto e irritei-me com o meu empresário, porque o Benfica não fez o que estava certo, mas naquele momento ele ligou para o Sp. Braga, que enviou o fax na hora.

Marcou 18 golos na primeira época em Braga mas não conseguiu manter o registo na segunda...

Fui muito bem acolhido e adaptei-me muito rápido. Fiz muitos golos e apareceram-me muitas propostas. Apareceu o FC Porto, Alavés e Atlético Madrid, mas o presidente [João Gomes] fez tudo para não me libertar. O futebol é o momento e eu pensava muito em dar o salto e chegar à seleção brasileira. Depois tive uma pubalgia e problemas com o treinador, Manuel Cajuda. Não consegui ter um rendimento tão bom e as pessoas pensavam que era de propósito.

Em 2000, é transferido para o Boavista e logo na primeira época é campeão. No início da temporada, acreditavam que era possível?

Na segunda entrevista que dei quando estive no Boavista, disse que tinha ido para lá para ser campeão. O grupo era mesmo muito bom, e com o presidente [João Loureiro] e [o treinador] Jaime Pacheco, remávamos todos para o mesmo lado. Logo nos primeiros meses, o meu contrato foi revisto e eu disse ao presidente: "Coloca aí que se eu for campeão, você tem que me dar x". Ele riu-se e disse que eu estava louco, mas no final da época pagou tudo certinho. Eu estava convicto. E no segundo ano [2001/02] só não fomos campeões porque perdemos um jogo frente ao Varzim. O Jaime Pacheco tirava o máximo de nós, até à exaustão, e dava certo.

É nessa fase que começa a festejar golos a simular disparos e que ganha a alcunha de pistoleiro. Porquê?

Tínhamos um grande grupo de brasileiros e sempre gostei de filmes antigos. Achava engraçados aqueles gestos e disse ao Duda que ia passar a festejar os golos assim, a fingir que lhe dava um tiro e ele a cair no relvado. Hoje o meu filho faz o mesmo e já lhe chamam Lucas Pistoleiro.

Mais tarde, em 2004/05, é emprestado pelo Sporting ao V. Guimarães. Como correu essa aventura?

Não fiz uma grande época em termos de golos - apenas marquei sete -, mas fiz grandes jogos. O V. Guimarães tem uma grande massa adepta.

Feitas as contas, qual o clube do seu coração em Portugal?

Tenho uma grande ligação ao V. Guimarães e ao Sp. Braga, mas passei três anos fantásticos no Boavista, onde fui campeão, constitui família e fiz história. Apoio todos os clubes que representei.

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