Senna deixou legado além do desporto

Mais do que um piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna é um ídolo para os brasileiros, e o seu legado, que vai além do desporto, é lembrado 20 anos após a sua morte, a 1 de maio de 1994.

"Todos os povos, em todas as culturas, precisam de um herói. Ele [Ayrton Senna] foi a representação do herói moderno, que se traduz através da prática de um desporto de alta performance e, nele, honra o seu país de origem", afirmou à Lusa o escritor e jornalista Edvaldo Pereira Lima, que publicou três livros sobre o piloto.

Quando Senna começou a destacar-se na Fórmula 1, o Brasil vivia um período de descontentamento popular com o país, então recém-saído de uma ditadura militar, com problemas económicos e carente de ícones.

Até o futebol, que poderia gerar outros ídolos, não vivia um bom momento. Pereira Lima realça que Senna ganhou grande admiração do público em 1986, quando, um dia após a seleção de futebol ser eliminada pela França no Mundial do México, ganhou uma corrida em Detroit, nos Estados Unidos, e decidiu comemorar com a bandeira brasileira.

"A conexão do povo com seu herói começa a nascer após essa corrida, quando ele passa a representar o ideal de um brasileiro moderno, sintonizado com o mundo globalizado, capaz de vencer incorporando a cultura que vem de outros povos e levando também o que identificamos como características brasileiras: a emoção e a garra", disse o jornalista.

Além da paixão e do empenho, Senna mostrava inteligência racional, disciplina e uma obsessão por ultrapassar limites na sua relação com o desporto. Essas eram qualidades não associadas ao Brasil pelo senso comum, mas que o brasileiro buscava ter, e reconhecia como parte de sua identidade.

"Senna representa a virada de um país meio provinciano, que começa a ver-se mais como uma nação emergente, e de importância internacional", realçou o escritor.

A morte trágica e precoce do piloto, no Grande Prémio de São Marino, em Imola, Itália, num momento em que já era um ídolo, aumentou a comoção em relação à sua imagem. "Quando o corpo chega ao Brasil, ao longo do caminho, pessoas davam as mãos, choravam juntas, faziam coreografias em forma de coração. Isso não se explica apenas pela ação dos media, foi espontâneo", acrescentou o escritor.

Uma prova de que o mito de Ayrton Senna continua vivo entre os brasileiros é o resultado de uma sondagem, divulgada em dezembro do ano passado, sobre a imagem e a marca de atletas no Brasil. Em votação aberta, pela internet, o piloto tricampeão do Mundo de Fórmula 1 foi o mais lembrado.

Mas os bons resultados nas pistas não foram os únicos legados deixados por Ayrton Senna no Brasil. Em seu nome, a irmã Viviane Senna criou em 1994 um instituto para apostar no talento de jovens com pouca condição social.

O Instituo Ayrton Senna, uma ideia do piloto, capacita anualmente 75 mil educadores, e seus programas beneficiam cerca de dois milhões de alunos em diversas regiões do Brasil.

A entidade, que integra desde 2012 o fórum da OCDE de políticas para o desenvolvimento, promove soluções para uma educação integral de crianças e jovens, em suas múltiplas competências.

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