O surfista que se desdobra entre provas e projetos sociais

José Ferreira, vice-campeão nacional, tem tido uma época de altos e baixos, mas quer regressar hoje ao seu melhor no Allianz Sintra Pro

Foi ingrato o final da época passada para José Ferreira: o surfista de Cascais viu o título nacional escapar-lhe na derradeira etapa, o Huawei Cascais Pro, na final com Gony Zubizarreta. Uma bateria decisiva que se traduziu na vitória da Liga para o surfista espanhol e o título nacional para Pedro Henrique.

"Ainda dói", confessa José Ferreira, de 25 anos, não escondendo alguma mágoa: "Honestamente, não é fácil esquecer porque foi um resultado polémico. Houve quem acreditasse, como eu, que o desfecho daquela bateria não deveria ter sido aquele. Mas o surf não é o futebol. No futebol, ganha a equipa que marca mais golos; no surf, está tudo dependente da avaliação dos juízes, há uma subjetividade que torna as coisas mais complicadas de avaliar. Naquele caso, os juízes julgaram de uma maneira diferente da minha, mas estou habituado. Ando em competições desde os meus 12 anos e já me aconteceram coisas destas muitas vezes. Mas sim, desta vez doeu."

Mesmo marcado pelo desaire do ano passado, a Liga Meo Surf 2017 nem começou mal para José Ferreira, que chegou à final na etapa inaugural, em Ribeira d"Ilhas, perdendo apenas para Tiago "Saca" Pires, ex-competidor do CT e grande conhecedor da onda ericeirense.

Todavia, depois da estreia na Ericeira, os pódios nunca mais apareceram, deixando José Ferreira, à entrada para esta quarta etapa (tem hoje início na Praia Grande, em Sintra), no 6.º lugar da Liga, liderada por Tiago Pires.

Não há, ainda assim, qualquer mal-estar por parte de José Ferreira. Afinal, apesar de o título estar, teoricamente, demasiado longe, ainda há duas etapas para melhorar a classificação. Mas a questão primordial nem é essa, assume o próprio surfista de Cascais: "Não estou preocupado. Para ser sincero, tenho estado mais focado em outros projetos, ligados à área social, do que na competição."

Ajudar crianças em risco

José Ferreira aliou-se à psicóloga Ema Evangelista num projeto intitulado Wave by Wave, que o próprio expõe: "O Wave by Wave surgiu numa parceria com a minha sócia Ema Evangelista e o objetivo é trazer os benefícios de uma abordagem de terapia clínica para a praia e para o surf, tendo como alvo crianças em situações de risco. Abordamos questões de comunicação e de gestão de crises emocionais e ajudamos estas crianças através do surf. E os resultados têm sido muito positivos, conforme atesta um estudo levado a cabo pela Faculdade de Motricidade Humana."

Uma experiência a todos os níveis gratificante, assegura o vice--campeão nacional: "Tenho estado muito absorvido neste projeto e o surf competitivo tem sido menos uma prioridade para mim. O surf e a competição fazem parte da minha vida há muitos anos e sempre farão, mas estou a ter muito gozo com este novo projeto."

Mas, se a competição está a ter menor relevo na vida de José Ferreira, como fica o sonho de uma presença no World Tour da WSL? "Sinceramente, já não penso nisso. A partir do momento em que perdi a maior parte dos patrocínios que me permitiriam correr o WQS (Circuito Mundial de Qualificação), esse objetivo deixou de o ser. Não há condições financeiras para fazer um circuito com tantas viagens e encargos."

Tudo somado, parece apontar para um cenário pouco favorável ao sucesso de José Ferreira no Allianz Sintra Pro deste fim de semana, mas o próprio nega veementemente: "Não, nada disso. É verdade o que digo sobre a competição assumir um papel mais reduzido na minha vida, neste momento. Também é verdade que não estou a treinar com a mesma regularidade e não estou a surfar o meu melhor, mas, vendo bem, isto acaba por me reduzir a pressão e dar-me muita calma e objetividade para encarar esta etapa. E isso, no surf, como no desporto em geral, pode ser muito importante. Por isso, acho que quando chegar à Praia Grande logo se vê..."

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