O segundo melhor arranque de Mourinho em 20 anos de carreira

Treinador venceu os seis primeiros jogos oficiais pela equipa romana. "Com um treinador ganhador" título é possível, diz Antunes, que jogou na Roma e conhece o clube por dentro.

Não é o melhor arranque de época da carreira de José Mourinho, mas para lá caminha. O treinador português venceu os seis primeiros jogos oficiais pela AS Roma, naquele que é o segundo melhor registo desde que se estreou como treinador principal no Benfica (2000-01, entrou já com a temporada a decorrer). Só o Chelsea versão 2005-06 superou o atual início, com nove vitórias consecutivas. Para já Mourinho tem seis triunfos seguidos e pode chegar aos nove no dérbi romano... com a Lazio (dia 26). Antes terá de vencer o Hellas Verona (domingo) e a Udinese.

Habituado a inovar e revolucionar plantéis, nem sempre as coisas correm bem de início ao técnico. Ter treinado e com sucesso em Itália pode ter ajudado a este reinício italiano de sonho, uma vez que, segundo ele, já nada lhe é estranho. Foi campeão no Inter em 2008-09, ano em que começou a liga com um empate. Resultado que repetiu logo depois no arranque das três temporadas ao serviço do Real Madrid.

Além dos nove triunfos seguidos no Chelsea que são a melhor marca até hoje, Mourinho tinha como melhor registo quatro vitórias consecutivas (Chelsea, em 2004-05 e 2014-15 e Manchester United em 2016-17).

"Temos limitações, uma temporada é uma maratona e temos de ter calma. Seis vitórias não são 60, tal como 7sete não serão 70. Estamos a construir uma equipa. Estou contente com o que estamos a construir, mas é muito cedo", disse, depois do sexto triunfo seguido, frente ao CSKA de Sófia (5-1) na quinta-feira, na Liga Conferência. Antes venceu o Sassuolo (2-1), o Salernitana (4-0) e a Fiorentina (3-1) para o campeonato italiano, além do Trabzonspor (2-1 e 3-0), na nova competição da UEFA.

Um registo impecável que contrasta ainda com a imagem de treinador defensivo: 19 golos marcados e três sofridos em seis jogos.

A pré-época já tinha sido um bom indicador. Em nove jogos particulares, os gladiadores romanos só perderam um (5-2, com o Bétis) e empataram dois (0-0, com o Sevilha e 1-1 com o FC Porto). O jogo com os sevilhanos foi mesmo o único em que a equipa não marcou qualquer golo.

Antunes: "É um clube complicado. Um clube tão grande e com uma massa associativa tão apaixonada que quando corre bem é fenomenal, mas quando corre mal é um perigo sair de casa. A paixão é tanta que não há meio termo."

Brilhantismo e esperança. Título foge há 20 anos

O sucesso imediato de Mourinho em Roma não surpreende Antunes, um dos quatro portugueses que já vestiram a giallorossa - os outros foram Abel Xavier, Mário Rui e Rui Patrício. "Brilhante! Era por isto que os adeptos esperavam há alguns anos. A chegada de Mourinho trouxe algum brilhantismo e esperança ao clube e os primeiros jogos têm mostrado isso e daí que os adeptos estejam tão eufóricos", elogiou ao DN o lateral esquerdo do Paços de Ferreira.

Para Antunes, o campeonato italiano "é muito equilibrado, não há equipas fáceis", e por isso é difícil dizer quem será o verdadeiro teste às ambições desta Roma, se a Juventus em reconstrução, o imprevisível Nápoles, os rivais de Milão ou a Lazio: "O dérbi romano é uma loucura, mas um dérbi é um dérbi e qualquer um pode ganhar. Não é o jogo ideal para ver o que vale uma equipa."

Mas serão os romanos candidatos ao título? "O Mourinho mais do que eu sabe quais os objetivos da época, mas para mim a Roma é candidata ao título ou pelo menos dará luta até ao fim. É a ambição natural do clube", respondeu o lateral português, lembrando que "com um treinador ganhador" tudo fica mais fácil.

O último título da equipa da Roma foi em 2000-01 (ano do início de carreira de Mourinho). E desde então que é um trauma. O assunto "assombra" o balneário a cada ano e Antunes sabe disso. Chegou ao clube em 2007-08, fez nove jogos e perdeu o título na última jornada para o Inter de Mancini: "Nós empatámos com o Catania e eles venceram o Parma com um golo do Ibrahimovic. Foi traumático apesar de termos ganho Taça e a Supertaça."

Antunes deixou amigos e negócios em Roma. Vai lá duas ou três vezes por ano e assim que Mourinho foi anunciado choveram telefonemas e mensagens: "Perguntavam se ia voltar (risos)." Eternamente agradecido ao clube que lhe deu a oportunidade de fazer uma carreira no futebol e chegar ao topo, o ex-campeão pelo Sporting deixa um aviso ao treinador compatriota: "É um clube complicado. Um clube tão grande e com uma massa associativa tão apaixonada que quando corre bem é fenomenal, mas quando corre mal é um perigo sair de casa. A paixão é tanta que não há meio termo."

Alegria e humildade e desobediência

O início de época na AS Roma tem sido avassalador a todos os níveis. Em campo ou fora dele, o treinador português tem deslumbrado os adeptos romanos e os amantes do futebol em geral. As palavras e os gestos denunciam que recuperou a alegria pela competição perdida há muito e uma humildade nunca vista para com os adversários.

O jogo com o Sassuolo (2-1), da segunda jornada do Calcio é um exemplo disso. Mourinho cumpria o jogo 1000 da carreira e "não o queria recordar com um jogo de merda". Longe disso... acabou nas bocas do mundo pelo festejo épico do golo de El Shaarawy aos 90+1 minutos que levou o treinador a correr e participar nos festejos.

O sprint valeu-lhe a alcunha de special run (adaptação da célebre special one) e fez lembrar a corrida louca de 2004, quando Costinha (FC Porto) marcou um golo ao Manchester United em Old Trafford e fez os dragões avançar para a conquista da Champions. "Se aguém pensar que eu sou velho, vejam este sprint final, provei que fisicamente estou em forma", confessou o português, depois de ter pedido desculpa ao adversário pelos festejos exacerbados.

Já esta semana disse que não se importava de perder com o CSKA de Sófia, na Liga Conferência, desde que se apurasse. Razão? O carinho por Mladenov, o treinador dos búlgaros com nacionalidade portuguesa que jogou no seu Vit.Setúbal. Goleou (5-1, na quinta-feira). Se ficou satisfeito? Não! "Os laterais não se envolveram muito no ataque, houve pouca intensidade e perdemos imensos duelos defensivos. Não jogámos mal, não digo isso, mas não fizemos o suficiente para merecer uma vitória por 5-1", disse Mourinho, que ontem revelou a história de desobediência de Mancini nesse jogo.

"Quando um jogador pede para ir à área num canto, tu dizes que não e ele vai na mesma e marca... Só podes sorrir", reagiu o português no Instagram. E o sorriso tem sido a imagem de marca deste novo Mourinho, que não esconde estar "apaixonado" pelo clube e pelos adeptos.

isaura.almeida@dn.pt

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