O maior mecenas do desporto brasileiro que ajudou Senna e Pelé morreu em Portugal

Braguinha tinha 94 anos e mudou-se para a sua quinta em Sintra há uns meses. Empresário de sucesso, ajudou centenas de atletas brasileiros. Mas também João Lagos e muitos portugueses durante o 25 de Abril.

O brasileiro António Carlos de Almeida Braga, conhecido como Braguinha, morreu terça-feira aos 94 anos, em Portugal, na Quinta da Penalva, em Sintra, para onde se tinha mudado há uns meses devido à pandemia. Empresário de sucesso, era sobretudo conhecido por ser o maior mecenas do desporto brasileiro, que impulsionou a carreira de vários desportistas, entre eles Senna, Pelé, Emerson Fittipaldi e Gustavo Kuerten (Guga). Foi também o maior patrocinador do voleibol brasileiro.

João Lagos, que durante anos organizou o Estoril Open, era grande amigo de Braguinha, e ao DN recorda-o como "um grande empresário e banqueiro brasileiro completamente apaixonado por desporto, que ajudou centenas de atletas, clubes e seleções". "Não foi só o Senna, o Fittipaldi, o Pelé e o Guga. Foram centenas. Ele contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento do desporto do brasileiro", referiu, lembrando ainda que o empresário "ajudou muitos portugueses, sobretudo no 25 de Abril, quando muita gente deixou Portugal e foi para o Brasil".

Lagos privou durante décadas com Braguinha - "estivemos juntos em Jogos Olímpicos, em grandes torneios de ténis por esse mundo fora, e ele vinha sempre cá ao Estoril Open" - e por isso fala num "companheiro insubstituível".

Histórias para contar seriam muitas, mas Lagos recorda o dia em que a simples presença de Braguinha lhe abriu as portas para organizar um Open de golfe em São Paulo, no Brasil. "Ele tinha aterrado no Rio, depois de uma viagem das Bahamas. Sabia que eu estava em dificuldades e nem saiu do aeroporto. Apanhou um avião para São Paulo e veio ter comigo. Só a simples presença dele ao meu lado abriu-me portas por todo o lado. Passei a ser um gajo importante ali naquele meio", contou.

Braguinha não gostava de protagonismo. Numa das poucas entrevistas que deu, à Veja, em 2013, contou que no dia da morte de Senna estava em Imola ao lado do tricampeão do mundo momentos antes de ele morrer. Foi então que Ron Dennis, patrão da McLaren, passou por eles e só o cumprimentou a ele, deixando Senna furioso.

A ligação a Senna ia muito além do desporto. O ex-piloto passava várias temporadas na quinta de Braguinha em Sintra. Numa dessas visitas viveu um experiência radical, quando sentado no lugar do pendura foi acelerar com Senna para o autódromo do Estoril.

Anos antes tinha sido igualmente importante no lançamento da carreira de outro piloto de F1, o brasileiro Emerson Fittipaldi. A relação começou no ano de estreia de Fittipaldi, quando Braguinha, dono de uma companhia de seguros, foi-lhe bater à porta a dizer que o queria ajudar sem pedir nada em troca.

Um artigo publicado no site brasileiro UOL recordava que muitas vezes depois dos jogos ou provas onde estava como adepto, Braguinha encontrava-se no final com os desportistas e oferecia-lhes um valor em dinheiro, "um bicho sem pedir nada em troca".

A ajuda a Guga e Pelé

Foi ele também que ajudou a impulsionar o voleibol brasileiro na década de 1980, com a criação da equipa Atlântica Boavista, que juntou os melhores jogadores da modalidade. E foi igualmente fundamental na carreira de sucesso de Gustavo Kuerten, três vezes vencedor de Roland Garros.

Foi o mecenas brasileiro que ajudou Guga no início de carreira, pagando-lhe ainda como juvenil as primeiras viagens internacionais para torneios na Europa.

Mas os exemplos no desporto são mais. O escritório da FIFA no Brasil, quando João Havelange presidia ao organismo, era num espaço do qual Braguinha era proprietário. E por falar em futebol, o empresário era adepto confesso do Fluminense, clube do qual era sócio benemérito. Braguinha foi também presença habitual em todos os Mundiais de futebol, onde assistiu aos jogos da seleção canarinha. A partir da década de 1970 passou também a assistir ao vivo aos Jogos Olímpicos. E, claro, aos grandes torneios de ténis.

Pelé foi outro dos seus grandes amigos, que num determinado período foi ajudado pelo mecenas. "Ele literalmente entrou pelo cano", confessou Braguinha à Veja, confirmando que o ajudou numa altura em que os negócios do rei do futebol não corriam bem. "Admiro demais o Braguinha. Além de ser meu amigo há mais de quatro décadas, ensinou-me muito sobre o mundo dos negócios", referiu Pelé há uns anos. Grato, o rei ofereceu-lhe as chuteiras com que marcou o seu 1000.º golo no Maracanã.

Filho de um engenheiro português que enriqueceu nos setores imobiliário e de seguros, Braguinha nasceu em São Paulo e mudou-se para o Rio de Janeiro aos 9 anos. Depois de concluir o ensino médio não quis estudar mais. Foi então que o pai o levou para a empresa e se tornou num empresário de sucesso, dono de uma das maiores seguradores do País, a Atlântica Seguros, posteriormente anexada com a Bradesco Seguros.

A ligação a Portugal era enorme. E por isso será sepultado no jazigo da família em Gondarém, Vila Nova da Cerdeira, ao lado do pai e do avô. "Por aqui se vê bem a ligação dele a Portugal", remata João Lagos.

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