O grande desafio de Tamila começa já a seguir aos mundiais

Campeã europeia júnior dos 1500 livres no ano passado, a nadadora portuguesa nascida na Ucrânia vai aos mundiais de piscina longa à procura de novos recordes, antes de atravessar o Atlântico atrás do grande sonho americano

Tamila Holub é a mais nova dos sete nadadores portugueses que a partir de hoje competem nos mundiais de natação em Budapeste, na Hungria, mas já não é uma figura anónima das piscinas. A atleta, de apenas 18 anos, bateu dezenas de recordes nacionais ao longo dos últimos anos e, em 2016, deu mesmo a Portugal um raro título europeu de juniores na natação (o primeiro desde 2005), ao sagrar-se campeã continental nos 1500 metros livres, a sua prova de eleição.

Nascida na Ucrânia mas a viver em Portugal desde os 3 anos, a nadadora do Sporting de Braga é uma das maiores promessas de futuro da natação portuguesa, que procura reduzir o fosso histórico que a tem separado da elite mundial ao longo de décadas - nesse sentido, no ano passado deixou outros bons sinais, com a grande referência lusa da atualidade, Alexis Santos, a somar duas meias-finais olímpicas e uma medalha de bronze nos Europeus. Agora, no fecho da sua primeiro época como sénior, os mundiais de Budapeste marcam também uma importante viragem de ciclo na carreira de Tamila Holub, que decidiu mudar-se, já a partir de agosto, para os Estados Unidos, onde vai prosseguir a carreira (e os estudos) na Universidade da Carolina do Norte.

A aposta é clara: Tamila quer dar à carreira a projeção que o seu título europeu de juniores prometeu. E para isso sente necessidade de passar a testar-se diariamente com as melhores, de mente focada em Tóquio, onde em 2020 vão realizar-se os próximos Jogos Olímpicos. "Quero aproveitar as diferenças de treino que existem nos EUA para poder continuar a evoluir", explica ao DN a jovem nadadora, muitas vezes apontada como a Katie Ledecky portuguesa por, tal como a campeã olímpica norte--americana, ser especialista nas distâncias mais longas das piscinas: 800 e 1500 metros livres, dos quais detém os recordes nacionais absolutos. A prova mais longa, a sua preferida, vai passar a integrar o programa olímpico em Tóquio, o que serve para reforçar a ambição.

Tamila Holub, que já teve a sua primeira experiência olímpica no ano passado, no Rio 2016, quer comprovar o potencial que sente já ter dentro dela. "A ideia é essa. Sei que provavelmente valho tempos a nível de uma final, sinto-o nos treinos. Mas provavelmente falta de-senvolver mais alguns aspetos técnicos e é disso que vou à procura para evoluir. E também, claro, porque lá vou poder conciliar a natação e os estudos como em Portugal não conseguiria", justifica esta minhota de adoção (chegou a Braga com 3 anos), que vai cursar Medicina na Carolina do Norte.

O uniforme de médica, contudo, pode esperar, pois de momento Tamila está mesmo "muito focada na natação", diz, ela que começou a nadar aos 6 anos como terapia contra as recorrentes doenças respiratórias que a afetavam e quer agora provar a si própria que fez bem em abraçar o sonho da alta competição quando tinha 12 anos.

A aposta não é inédita na história da natação portuguesa. Vários foram já os atletas que atravessaram o Atlântico à procura de impulsionar a carreira. Alguns voltaram desiludidos. Para Tamila, e para os pais, a decisão foi fácil, garante. "Muito fácil, porque era mesmo isto que eu queria. Sair da minha zona de conforto. Aqui já é tudo muito confortável, preciso de maiores desafios. Em Portugal já consegui vários recordes, nos 1500 continuo a nadar sozinha e, se quero evoluir, tenho de ter competitividade", refere, explicando que dos cinco convites que recebeu de universidades americanas escolheu o da Carolina do Norte precisamente devido "ao grupo forte" com que vai treinar. "Há lá uma atleta que tem melhores tempos do que eu e outra mais ao menos ao meu nível, e isso pode ser bom para puxar por mim", diz.

A Federação Portuguesa de Natação também a apoia na decisão. "Julgo que é uma boa aposta da Tamila. É uma aposta refletida da parte dela e do seu enquadramento, o grupo de trabalho na universidade é bom, por isso penso que tem condições para evoluir. Vamos monitorizar de perto essa evolução", refere ao DN o presidente António José Silva, que reconhece em Tamila Holub "uma das fortes esperanças" para o próximo ciclo olímpico e para o futuro da natação portuguesa.

Foco nos mundiais

Apesar do entusiasmo evidente quanto ao futuro, a jovem de ascendência ucraniana garante que tem nesta altura "a atenção totalmente focada nos mundiais" que hoje arrancam e nos quais vai competir nas provas de 800 e 1500 livres. O objetivo "é bater os recordes pessoais [e nacionais] em ambas as provas". "Seria um bom balanço final da época", diz, sobre o seu primeiro ano como sénior.

O futuro, esse, reserva planos mais grandiosos e começa já a seguir.

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