O fazedor de campeões que revolucionou o atletismo faria hoje 100 anos

Das mãos do Senhor Atletismo saiu o primeiro campeão olímpico português e outros grandes atletas. No dia em que completaria 100 anos (morreu em 2016), o DN republica um trabalho sobre a grande carreira de uma das maiores figuras do desporto português.

O destino já não o deixou ver mais uns Jogos Olímpicos, a competição que colocou a coroa de glória na sua carreira imensa - quando, em 1984, Carlos Lopes, o maior dos muitos campeões que "produziu", subiu ao lugar mais alto do pódio, em Los Angeles, para receber o primeiro ouro olímpico da história de Portugal. Mário Moniz Pereira morreu a cinco dias do arranque dos Jogos do Rio 2016, na sua casa em Lisboa, aos 95 anos.

Senhor Atletismo foi a alcunha magnânima que lhe ficou colada no perfil e que faz justa homenagem à importância de Moniz Pereira na modalidade, na qual ajudou a projetar tantos campeões para palcos mundiais e olímpicos - de Armando Aldegalega a José Carvalho, de Fernando Mamede aos gémeos Castro, de Manuel de Oliveira ao inevitável Carlos Lopes, o rosto principal do seu trabalho.

E, no entanto, Mário Moniz Pereira foi tantas coisas mais do que um senhor do atletismo. Foi um desportista de vários instrumentos, um professor dedicado e um homem de grande sensibilidade cultural, bom pianista, que alimentava também de forma intensa uma paixão pelo fado - escreveu, por exemplo, Valeu a Pena, que a cantora Maria da Fé celebrizou, mas tantos outros, que cativaram intérpretes como Carlos do Carmo, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, entre muitos outros.

Nascido em Lisboa a 11 de fevereiro de 1921, no seio de uma família abastada, Mário Moniz Pereira revelou desde cedo uma grande apetência pelo desporto. Todo ele. Por isso, praticou um pouco de tudo: andebol, basquetebol, futebol, hóquei em patins, ténis de mesa, voleibol e, claro, o atletismo que o haveria de consagrar.

Tão profunda quanto a paixão pelo desporto foi aquela que cultivou pelo Sporting, clube em que se filiou em 1922 e do qual chegou a sócio número dois. Vizinho do Dr. Salazar Carreira - um ex-atleta e ex-presidente do clube leonino na década de 1920 -, num prédio na Av. da República, considerava ter sido este dirigente o grande responsável pelo seu interesse pelo desporto, com a ajuda que dele recebeu para a sua formação, através da leitura de dezenas de livros e jornais estrangeiros que o douto vizinho lhe facultava - mais tarde, Salazar Carreira haveria de lhe deixar a sua biblioteca desportiva em testamento.

Licenciado em Educação Física pelo Instituto Nacional de Educação Física de Lisboa, onde foi professor durante 27 anos, foi na pele de treinador de atletismo que ajudou a revolucionar a modalidade e o desporto português, principalmente no pós-25 de Abril de 1974, lutando para vencer as barreiras psicológicas e "políticas" que diminuíam o sucesso desportivo dos atletas portugueses além-fronteiras. Foi fundamental a intervenção que teve em 1975, quando apresentou ao governo o seu plano de preparação olímpica, com a afirmação pública "deem-nos as melhores condições que obteremos iguais resultados" - 11 meses depois, nos Jogos Olímpicos de Montreal, a bandeira portuguesa subiu pela primeira vez ao pódio no atletismo, com a primeira medalha de Carlos Lopes, então prata nos 10 000 metros.

"Ele acreditou que era possível eu tornar-me um campeão. A medalha de prata em 1976, antes mesmo do ouro em 1984, foi o indício de que estava a nascer uma era dourada do atletismo nacional", disse Carlos Lopes, para quem Moniz Pereira será sempre o Senhor Atletismo.

Ao DN, outro dos grandes campeões formados por Moniz Pereira, Fernando Mamede, que bateu o recorde do mundo dos 10 000 metros nos anos 1980, salientou que "ele era, sem dúvida, uma sumidade do atletismo, com uma visão única sobre as capacidades de cada atleta". Para Domingos Castro, vice-campeão do mundo dos 5000 metros em 1987, "o professor fazia parte de um grupo restrito de personalidades portuguesas incomparáveis". "Uma figura emblemática e histórica", descreveu o fadista Carlos do Carmo. De resto, as reações sucederam-se, a nível pessoal ou institucional.

Cinco campeões contam o seu momento inesquecível com Moniz Pereira

Vários foram os campeões tocados pela maestria do homem que revolucionou o desporto em Portugal. Cinco deles, de Carlos Lopes a Fernando Mamede, até aos mais recentes Naide Gomes ou Carlos Calado, passando por Domingos Castro, partilham com o DN a memória mais marcante que o Senhor Atletismo lhes deixou.

Carlos Lopes. "Vou fazer de ti um atleta de eleição"

Nove vezes campeão nacional de pista, dez de corta-mato, sete títulos coletivos e três individuais na Taça dos Campeões Europeus de corta-mato, recordista europeu e mundial na Maratona e um total de 26 recordes individuais. E, claro, uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1976 e uma de ouro em Los Angeles 1984. Resumidamente, é este o currículo de Carlos Lopes, possivelmente a melhor "criação" de Mário Moniz Pereira.

"A escolher um, elejo como o meu grande momento com o professor uma das primeiras conversas que tivemos quando cheguei ao Sporting. Na altura, ele disse-me que iria fazer de mim um atleta de eleição, só bastaria que eu acreditasse nas minhas capacidades e o resto seria fruto do nosso trabalho em conjunto", recorda. Carlos Lopes sublinha que o seu treinador não precisava de se alongar muito. "Ele geria os atletas de acordo com as características específicas de cada um, mas no meu caso sabia quem tinha à frente e não dizia muitas palavras. Felizmente, de uma forma geral, consegui bons resultados, com enorme ajuda do professor, que foi o meu mentor. E tenho a certeza de que foi igualmente o melhor exemplo, para muitos atletas, da maneira correta de estar no desporto."

Fernando Mamede. Choro emotivo após o recorde europeu

Fernando Mamede foi um dos grandes projetos de sucesso de Moniz Pereira, tendo sido um dos melhores atletas mundiais nos 5000 e nos 10 000 metros. "É difícil escolher apenas um momento, mas posso referir como mais marcante aquele em que bati o recorde da Europa nos 10 000 metros, na pista de tartan do Estádio José Alvalade [30 de maio de 1981]. Quando nos apercebemos do que tinha acontecido, abraçámo-nos e a emoção tomou conta de nós. É que, para além da marca em si, éramos os dois grandes sportinguistas e conseguir este recorde no Estádio José Alvalade..." Fernando Mamede não conseguiu acabar a frase, emocionado, ao lembrar-se deste episódio que viveu com o seu antigo treinador e mentor.

Mesmo sendo um dos gigantes da história do atletismo português, Fernando Mamede tinha um grande problema de auto-confiança. Moniz Pereira era a única pessoa que o conseguia convencer a não duvidar das suas qualidades. "Demonstrava-me por A + B que se eu conseguia fazer grandes marcas nos treinos, não havia razão para que não fizesse o mesmo em competição."

Domingos Castro. Professor sabia que aquele era o dia

Domingos Castro lembra um momento muito especial vivido com Mário Moniz Pereira. "Foi no dia em que fui vice-campeão do mundo, em 1987, atrás do marroquino Said Aouita. Quando eu e o meu irmão Dionísio estávamos no aquecimento, ele despediu-se de nós a dizer que queria ir cedo para a bancada para arranjar um lugar onde pudesse dar instruções para a pista. De repente, voltou para trás e disse-me: "hoje é o teu dia, tomates no sítio." E a verdade é que lá dentro só o Aouita me ganhou", recorda.

O vencedor por cinco vezes da Taça dos Clubes Campeões Europeus de Corta-Mato ao serviço do Sporting conta ainda "um conselho para a vida" que recebeu do professor. "Quando tínhamos viagens para fora era ele quem negociava os cachets, não havia cá empresários. Ele dizia--nos sempre: não gastem o dinheiro à toa, pensem no dia de amanhã. Foi fundamental para nós", confessa.

Naide Gomes. Ir até ao fim, "nem que seja a rastejar"

Naide Gomes chegou ao Sporting no final de 1997 e uma das primeiras conversas que o professor Moniz Pereira teve com ela marcou-a para sempre. "Ele disse-me que se estivermos aleijados de uma perna, temos de cortar a meta com a outra perna, se estivermos magoados das duas pernas, temos de ir a rastejar até à meta! Mas uma coisa é certa, nunca, mas mesmo nunca nos poderíamos dar por vencidos!", conta.

"Foi a partir daqui que percebi que se quisermos alcançar algo que queremos muito, temos sempre de acreditar até ao fim que não há impossíveis. Com o professor aprendi a ter grande confiança nas minhas qualidades e a nunca colocar a possibilidade de desistir", reconhece. Nesses primeiros tempos como leoa, Naide entrava em provas combinadas, mas depois evoluiu para o salto em comprimento. Também nesta especialidade Moniz Pereira disse algo que Naide nunca mais esqueceu. "Menina, que salto tão alto é esse? Isto não é salto em altura! Salte lá mais baixo e vai ver que vai conseguir mais resultados", atirou. O conselho foi seguido e com os conselhos de Moniz Pereira e a orientação do treinador Abreu Matos, Naide não se cansou de bater recordes: 23 títulos nacionais, dois mundiais e dois europeus.

Carlos Calado. Uma conversa que valeu recordes

Carlos Calado ingressou no Sporting em 1996, vindo do Clube de Natação de Rio Maior. Na altura, com 21 anos, já era um atleta conceituado, campeão de Portugal no triplo salto e no salto em comprimento. Mas foi uma conversa que teve com o professor Moniz Pereira, nos primeiros dias de leão ao peito, que o motivou para outros patamares.

"Em todas as provas do Sporting em que possas participar eu quero-te lá. E podes ter a certeza de que vais alcançar todos os títulos possíveis porque tens qualidade para te bater com qualquer atleta!" Logo nessa ocasião percebeu que Moniz Pereira "era alguém que dava um gozo extraordinário ouvir, pois ele fazia questão de nos contar histórias importantes que lhe tinham acontecido e que demonstravam a sua enorme experiência de vida".

A previsão de Moniz Pereira concretizou-se e Carlos Calado foi somando marcas de excelência ao serviço do Sporting e da Seleção Nacional. "Nove recordes nacionais chegaram a ser meus nos 100, 200 metros e no salto em comprimento, antes de surgirem o Francis Obikwelu e o Nelson Évora", sublinha.

Trabalho publicado na edição do DN do dia 1 de agosto de 2016 e agora republicado no dia em que Moniz Pereira completaria 100 anos.

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