O ex-piloto que vomitava quando perdia e que trouxe a Fórmula 1 e o MotoGP para Portugal

Paulo Pinheiro é CEO do Autódromo Internacional do Algarve, inaugurado em 2008. Miguel Oliveira e Lewis Hamilton fizeram história na "montanha russa" de Portimão.

Paulo Pinheiro fica-se pelo café e torradas neste brunch virtual. Ele é mais de jantares. Como é alérgico a peixe e marisco está um pouco limitado das escolhas. Habituado a comer bem, não fosse ele filho de cozinheiro, cozinha muitas vezes para os filhos - a especialidade é carne assada no forno. O pai passou-lhe algumas receitas, assim como o gosto pelos carros e a velocidade. "Ele gostava de andar depressa e eu gostava que ele andasse de pressa", lembrou ao DN o antigo piloto de automóveis e agora CEO do Autódromo Internacional do Algarve, que há dias recebeu a Fórmula 1 pela segunda vez em sete meses. Algo que só ele, um "filho do Algarve", nascido (8 de outubro de 1971) e criado em Portimão, se atrevia a sonhar antes da pandemia revolucionar o calendário do Circo e do MotoGP e incluir a pista portuguesa.

É CEO de uma "democracia simples", onde ele manda e a "equipa única e multifacetada" que o ajuda a "fazer milagres" faz o que ele diz. Tenta ser "justo e correto", mas não gosta de "empalar" problemas e lida "mal" com o erro (principalmente o próprio): "Um ano dominei completamente o campeonato e ganhei 8 das 12 corridas. As vitórias eram normais e já não festejava, mas vomitava cada vez que perdia uma corrida."

Para ele o talento sem trabalho não existe o não leva a lado algum e a derrota é sinónimo de trabalho de casa mal feito. E mesmo reconhecendo que é muito importante dar mérito aos vencedores, admite ser competitivo por natureza. "Não é que adore a sensação e ser primeiro, detesto é a sensação de perder, do fracasso..."

Como o relógio não duplica os minutos, raramente tem tempo para relaxar. Por vezes joga paddel com os amigos ou dá um passeio de bicicleta para manter a forma ou um mergulho na praia. Em casa é a televisão que lhe escuta a gargalhada mais vezes. Gosta de séries de comédia como Friends e Um Homem entre Mulheres - algo que ele não sabe o que é. Lá em casa é só "testosterona". Divorciado, vive com os dois filhos, um de 17 anos e outro de 5.

Gosta de futebol e ganhou paixão pelo Portimonense nos anos 70 quando os avós o levavam ao estádio. Também gosta e até praticou artes marciais, mas o que adora mesmo são os carros e a velocidade. Começou devagar, nos karts aos 13 anos, mas foi nos carros que fez carreira. Enquanto acelerava nas pistas tratou de abrir caminho a uma profissão que não envolvesse um volante e um acelerador e tirou o curso de engenharia mecânica. Ainda trabalhou numa empresa de instalações especiais e na Renault até que apareceu um convite para ir para gestor de projetos imobiliários. E foi a lidar com maquetes e projetos que teve a ideia de construir um autódromo.

Assim do nada? "Quer dizer..." Freud pode ajudar a explicar como a ideia andava no subconsciente do ex-piloto desde que ia às corridas de karts a Matosinhos. "Falava nisso com o pai, de como era bom ter um kartódromo mais perto, eram todos no Norte a mais de 600 Km", recordou. Na pujança criativa dos seus 15 anos, ele via a sua terra com todas as condições para ter um kartódromo ou autódromo. A semente ficou lá à espera de ser regada e geminar.

"Felizmente" a sociedade em geral já não olha para o desporto motorizado como os "feios, porcos e maus".

Ele foi evoluindo como piloto e quando competia no circuito do Estoril, o único que existia em Portugal, a ideia voltava a importuná-lo. Até que um dia decidiu que era altura de avançar com um autódromo a Sul, onde o sol chama pela gente e o comércio e indústria sazonal precisavam de mais um projeto que gerasse emprego.

Da ideia ao papel e do papel à obra feita e inaugurada passaram-se oito anos e meio. "Foi um processo complexo, passamos por alguns governos e demorou até termos todas as aprovações. Os licenciamentos, os estudos de impacto ambiental, o financiamento, etc. foi muito trabalhoso", confessou o gestor que viu o governo de José Sócrates atribuir-lhe o estatuto de Projeto de Interesse Nacional. Com um custo total de 195 milhões de euros o projeto incluiu uma pista de karting, uma pista off-road, um parque tecnológico, um hotel cinco estrelas, um complexo desportivo e apartamentos.

Para o CEO, a burocracia que adiou o autódromo por oito anos e meio é "uma imagem de marca dos países latinos", e "faz parte do feitio português", mas não define Portugal, um "país de gente trabalhadora", que já deixou de ser apenas aquele sítio mais a ocidente da Europa que só vendia sol e jogadores de futebol. "Felizmente", hoje as empresas, os pais e a sociedade em geral já não olha para o desporto motorizado como os "feios, porcos e maus". E isso muito se deve a muitos outros nomes, para além dos mais importantes e mediáticos como Pedro Lamy, Tiago Monteiro ou Miguel Oliveira.

O autódromo demorou menos de um ano a ser construído e a pista demorou dois dias a ser homologada pela Federação Internacional de Automobilismo. O dia da inauguração não deu para Paulo "sentir nada". Um problema na rede de cronometragem quase impedia que a prova se realizasse. Evitado o fiasco e depois de ver as superbikes (motos) passar pela bandeira xadrez pela primeira vez, o CEO sentiu "uma descarga de alívio", mas passados cinco minutos já estava a tratar de coisas para a nova competição. E tem sido sempre assim, desde outubro de 2008. E com alguns sustos.

Em 2012 o projeto esteve à beira da insolvência por uma dívida de 2,6 milhões. Paulo e a equipa conseguiram dar a volta ao problema. Hoje, para ser autossuficiente e até rentável é preciso que funcione pelo menos 300 dias num ano, mas o normal é parar só no Natal, Ano Novo e uns dias em agosto para fazer a manutenção.

Paulo andava há anos a trocar ideias com a Chloe Adams, diretora desportiva da F1, para portimão ser pista oficial de testes e/ou corrida de substituição. E quando começaram a ser canceladas as primeiras corridas por causa da covid-19 viu a porta abrir-se.

Trazer a Fórmula 1 de volta a Portugal e ao Algarve foi (e continua a ser) a luta de uma vida. Aconteceu num enquadramento difícil e foi uma vitória para toda a equipa do autódromo que emprega cerca de 50 pessoas. Paulo andava há anos a trocar ideias com a Chloe Adams, diretora desportiva da F1, para ser pista oficial de testes e/ou corrida de substituição. E quando começaram a ser canceladas as primeiras corridas por causa da covid-19 todas as semanas "insistia" para ser opção. "E há uma altura em que ela abre a porta" e ele agarrou "com as duas mãos" e envolveu a Câmara de Portimão e o Governo.

Garantir uma prova de F1 tem um preço "exorbitante". Há países no Médio Oriente que pagam entre 50 a 75 milhões de euros - o Mónaco é o único que não paga -, valores fora do alcance da bolsa portuguesa. Agradecer à pandemia é um termo "um pouco forte", mas lá que ajudou, isso ajudou, pois fez com que as organizações das grandes provas olhassem para "outras possibilidades", como a capacidade de gerar boas corridas. E aí Portimão fez a diferença.

Ele já perdeu a conta às voltas que deu à pista e confirma que "é uma montanha russa", uma pista que se adora ou se odeia. Uma pista que o Hamilton adora e que o Verstappen odeia. "O Verstappen não odeia, o que ele não gostou foi de ter perdido para o Hamilton. Ele tem vindo ao Algarve no inverno testar o carro com o pai e os amigos... por isso é porque gosta", corrigiu o CEO em defesa da sua mina de ouro.

As curvas cegas e o efeito de montanha russa que se sente à medida que a velocidade do carro aumenta, é tudo aquilo que os autores do projeto queriam obter quando a desenharam: "Nem imagino que fosse de outra forma. Se fosse uma pista banal ninguém vinha para o ponto mais ocidental da Europa. Ser diferente é um dos aspetos fundamentais para a nossa existência e taxa de ocupação. Qualquer carro ou moto que seja competitivo aqui é competitivo em qualquer parte do mundo e separa os pilotos medianos dos bons. "

Ao contrário do que se possa pensar ele não lida diretamente com os pilotos, tirando uma ou outra exceção, mas ele orgulha-se de uma relação e amizade com meia dúzia de pilotos do MotoGP e um ou outro da F1. As histórias engraçadas do paddock "não podem ser contadas", mas dão para ele se rir sozinho de vez em quando. Quase trinta anos depois da serenata de Ayrton Senna à chuva no Grande Prémio de Portugal de 1985, que colocou o circuito do Estoril para sempre na história da F1, Lewis Hamilton colocou a pista do Algarve no livro dos recordes em 2020. "Deu muito gozo" ver o campeão do mundo bater em Portimão o recorde de 91 vitórias de Schumacher, uma pessoa com quem tinha uma relação profissional e até de alguma amizade.

"O Verstappen não odeia a pista, o que ele não gostou foi de ter perdido para o Hamilton."

O britânico repetiu o triunfo na corrida da semana passada. Não ter público nas bancadas em nenhuma das corridas este ano salvou-o de inúmeros pedidos de convites. Quer dizer, "mesmo assim ainda houve alguns"... A esse nível as semanas antes da F1 "são sempre complicadas", mas com o mesmo pragmatismo que gere o autódromo, Paulo admite que "é fácil dizer que não". Quando não dá não dá e não vale a pena arrastar o assunto com diplomacia que só leva à desilusão... neste caso.

A importância mediática da F1 não tem comparação, mas o MotoGP tem o Miguel Oliveira e isso deu-lhe uma dimensão estratosférica: "Ter o Miguel a vencer na estreia da pista no MotoGP foi um inesquecível. Ele é um herói nacional, uma referência e merece tudo o que de bom lhe possa acontecer."

Mas para Paulo Pinheiro "o momento mais marcante" foi a conferência de Imprensa do anúncio do regresso da F1 a Portugal, após 24 anos: "A presidente Isilda Gomes empenhou-se muito para que fosse possível. Eu e ela sabemos que foi um momento especial para ambos por circunstância da vida que nos tiram a alegria, mas fica entre nós."

O impacto de uma prova é sempre medido em milhões. Sem público esse impacto na economia regional e nacional foi menor do que o desejado. Os dados que existem do Moto GP de 2020 (vencido por Miguel Oliveira) mostram um impacto direto na região de 10 milhões de euros e na F1 perto dos 35 milhões. Valores que em circunstâncias normais seriam acima dos 70 milhões de euros.

Além disso há uma valor sempre difícil de contabilizar e que diz respeito à promoção de Portimão, do Algarve e de Portugal no mundo: "Não há campanha mundial que alcance o que estas provas conseguem e Portugal teve quatro momentos desses em sete meses."

E agora? Depois "disto", leia-se receber a F1 e o MotoGP por duas vezes em sete meses, o que se pode esperar? "Quando provamos o que é bom queremos mais e nós já estamos a trabalhar para manter ambas as competições. Há concorrência, mas nós temos argumentos e queremos ter F1 e MotoGP em 2022", confessou Paulo Pinheiro.

isaura.almeida@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG