Matic, uma estrela sérvia com um pé na sua aldeia

O antigo jogador do Benfica não esquece as suas raízes. Financia duas equipas de futebol na Sérvia e também ajuda vários projetos sociais na cidade natal de Ub, onde já deu nome a uma rua

Não houve aplausos espontâneos nem nenhum anúncio oficial quando o dono da equipa visitante chegou ao minúsculo estádio naquela vila sérvia, a cerca de duas horas a sudoeste de Belgrado, a capital.

O jogo de futebol entre o Brezovica e o Vrelo Sport da IV Divisão da Sérvia foi uma espécie de dérbi local. Algumas centenas de apoiantes, que pagaram cerca de um dólar por bilhete, encheram as bancadas de cimento descobertas ao longo de um dos lados do campo. Foi a maior enchente da época.

Não foi nada de invulgar o facto de não ter havido nenhuma fanfarra a receber o dono do Vrelo Sport; os donos de clubes não são as pessoas mais populares. Ainda assim, a chegada de Nemanja Matic não causou praticamente nenhuma reação, embora ele seja o jogador mais famoso da Sérvia e passe a maior parte do tempo a jogar num dos maiores clubes do mundo.

Matic, de 29 anos, entrou no estádio passando por dois agentes da polícia que guardavam uma cerca frágil e curvando a sua alta estatura para passar debaixo de um corrimão de metal partido. Tomou o seu lugar no centro das bancadas entre os adeptos da casa e abriu um pacote de pevides de abóbora, o lanche preferido em partidas de futebol em qualquer lugar dos Balcãs.

Dentro de 24 horas, Matic juntar-se-ia aos companheiros de equipa da Sérvia no Campeonato do Mundo na Rússia. Mas tinha negócios importantes a tratar primeiro. Matic, que passa a maior parte do ano em Inglaterra, onde joga pelo Manchester United, veio para ver se a equipa que ele fundou em 2015 em Vrelo, a sua cidade natal, venceria o campeonato. O Vrelo Sport estava em primeiro, mas o Brezovica ainda se mantinha no segundo lugar.

Poucos jogadores de futebol de classe mundial são também donos de equipas. Matic possui duas. Ele também financia o FK Jedinstvo, um clube da III Divisão da vizinha Ub, onde ele jogou em pequeno. Faz tudo parte de uma ligação profunda que ele mantém com a Sérvia e, mais especificamente, com a sua cidade natal, com a ajuda dos milhões que conquistou na Premier League. Matic também se tornou conhecido na Sérvia pela sua filantropia; financiou uma série de projetos, incluindo melhoramentos na igreja, equipamentos para bombeiros e, supostamente, até mesmo as contas de mercearia de alguns reformados.

Subindo a escada lentamente

O caminho de Matic até Old Tra-fford e ao Mundial foi longo. Começou a jogar pela equipa da aldeia de Vrelo, treinado pelo seu pai, antes de se juntar à prestigiada academia do Estrela Vermelha de Belgrado. Matic era alto e desajeitado, mas o Estrela Vermelha viu um médio atacante em desenvolvimento. Ficou lá quatro anos, mas foi dispensado, e outro ano na academia do Partizan de Belgrado também terminou em fracasso.

Aos 16 anos voltou para casa e assinou com a maior equipa que conseguiu encontrar, o FK Jedinstvo. Incapaz de reivindicar um lugar regular na equipa, viu-se, aos 18 anos, a caminho do FK Kolubara à experiência. "Vieram mais de 15 jovens jogadores, mas nós precisávamos apenas de cinco", disse Veroljub Dukanac, que treinava o Kolubara na época. Quando Matic marcou com um forte tiro de pé esquerdo, apesar de não estar a usar botas depois de se ter magoado, Dukanac agarrou-o.

Depois de uma época foi descoberto por um agente e levado para a Eslováquia para uma experiência bem sucedida em Kosice, e começou assim a jornada em direção à Premier League. O Chelsea contratou-o e depois emprestou-o ao seu clube parceiro holandês, o Vitesse Arnhem, antes de o vender ao Benfica. Na Luz, Matic foi convertido num médio defensivo e jogou tão bem que o Chelsea gastou 29 milhões de dólares para comprá-lo de volta três anos depois.

Matic tornou-se um dos principais jogadores na equipa de José Mourinho, vencedora do campeonato inglês em 2014 e, quando Mourinho acabou por se mudar para o Manchester United e regressar ao seu antigo clube, comprou Matic pela terceira vez.

Mas Matic nunca se esqueceu de casa ou das pessoas que ele acreditava terem-no ajudado ao longo do caminho. Começou o Vrelo Sport do zero e concordou em assumir o Jedinstvo um ano depois, em 2016. Ambos os clubes estavam cheios de familiares, amigos, jogadores com ligações a Ub e outras pessoas que ele tinha conhecido nos seus primeiros anos.

O presidente do Jedinstvo e do Vrelo Sport é Darko Matic, seu primo. O homem do equipamento é um velho amigo da escola. O técnico assistente do Jedinstvo é Milos Obradovic, um amigo da academia do Estrela Vermelha; quando Obradovic teve de se reformar como jogador depois de partir a perna pela segunda vez, Nemanja Matic ofereceu-lhe o lugar.

O Jedinstvo estava de rastos financeiramente quando Matic concordou em tomar conta do clube há dois anos. O clube acabara de descer à IV Divisão, e o estádio estava em péssimo estado, afirmou Branko Matic. Matic pagou pela sua reconstrução e deu-lhe o nome de Dragan Dzajic, talvez o maior jogador da Sérvia, que tem raízes em Ub e Jedinstvo.

"O Jedinstvo não é um negócio lucrativo", reconheceu Branko Matic, embora o plano de longo prazo seja polir jovens jogadores talentosos e vendê-los a equipas maiores. "Quando Nemanja foi para o Chelsea, conseguimos 120 mil euros", disse Branko Matic, apesar de Nemanja Matic ter feito apenas uma aparição no Jedinstvo como sénior.

A força de uma cidade

O gabinete do presidente da câmara de Ub, Darko Glisic, fica a dez minutos a pé do estádio do Jedinstvo e fica ao lado da Rua Nemanja Matic. A decisão de mudar o nome dessa rua foi a votação mais fácil que o município alguma vez tinha feito, afirmou Clisic. "Nunca ninguém teve nada de mal a dizer sobre ele, e ele uniu todos os cidadãos de Ub", disse Glisic. "É por isso que nós lhe demos uma rua."

Matic tornou-se de longe o jogador mais famoso da sua cidade natal. "Aqui, o tempo para quando o Manchester United joga", disse Glisic.

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