Madonnina mia! Clubes de Milão ameaçam Juventus

Já lá vão quase dez anos desde que AC Milan e Inter Milão terminaram a Liga italiana nos dois primeiros lugares e onze desde que ambos encabeçavam a tabela à 18.ª ronda como agora. Depois de nove títulos seguidos estará o ciclo vitorioso bianconero a chegar ao fim?

Cerca de 125 quilómetros separam Turim e Milão mas, em termos futebolísticos, a distância das duas cidades do norte industrial e poderoso de Itália para o resto do país é muito, muito maior. É preciso recuar 20 anos para se encontrar um campeão (então a AS Roma, curiosamente sucedendo à rival Lazio) que não tenha saído do trio formado por Juventus, AC Milan e Inter. Entre os três somam 72 vitórias na Liga italiana (79 se somarmos os sete obtidos pelo Torino, agora segundo clube da capital piemontesa mas que dominou o calcio nos anos 40 do século passado, numa trajetória que esbarrou na Basílica de Superga quando a equipa regressava a casa depois de um jogo no Estádio Nacional, frente ao Benfica), com os bianconeri a contabilizarem 36 títulos, os mesmos que rossoneri e nerazzurri juntos (18 cada um).

Muito deste domínio acentuou-se nas últimas temporadas. Tal como o Bayern Munique, na Alemanha, e o PSG, em França, a Juventus chegou a um patamar nunca antes atingido e, de uma enfiada, acrescentou nove triunfos consecutivos ao seu palmarés, aproveitando da melhor forma a instabilidade que reinou nos dois clubes milaneses durante esta última década.

No entanto, esta temporada tudo parece ter mudado. Ao fim de 18 jornadas, Milan e Inter encabeçam a classificação e a Juventus (que nesta quarta-feira ganhou a Supertaça) ocupa o quinto lugar, embora com um jogo a menos, a dez pontos do Milan e a sete do Inter. Não é ainda uma distância significativa, é certo (sobretudo se vencer a partida em atraso com os napolitanos), mas a Velha Senhora, durante os seus nove anos de reinado, apenas em dois não liderava à 18.ª jornada e a verdade é que nunca esteve tão longe do líder: em 2015/16 era quarta mas com menos três pontos que o Inter (acabaria por vencer com 24 de vantagem sobre os nerazzurri que ficaram em quarto); e em 2017/18 estava em segundo a um ponto do Nápoles.

Mais preocupante é a fraca qualidade de jogo que a equipa exibe durante a maior parte dos jogos (ainda assim aplicou ao AC Milan a sua única derrota) e a dependência que tem de Cristiano Ronaldo (o português mantém a sua letalidade e é mesmo o capocannoniere com 15 remates certeiros mas muitas vezes tem de recuar demasiado porque a bola não lhe chega e já não tem a "explosão" de outrora). E, claro, o facto de ter escolhido para técnico Andrea Pirlo, um ex-jogador extraordinário nado e criado em Brescia que vestiu a camisola dos três grandes, mas com zero de experiência no banco (inicialmente devia orientar a equipa de sub-23 até ser promovido a principal oito dias depois), para suceder a Maurizio Sarri, não abre espaço para grande otimismo. Até porque, além de AC Milan e Inter, a Juventus ainda tem pela frente Nápoles (orientado por Gennaro Gattuso e a AS Roma (de Paulo Fonseca), além da espectacular Atalanta de Gasperini e a Lazio de Simone Inzaghi a morder-lhe os calcanhares.

Importância dos investidores

Enquanto a Velha Senhora se sentava tranquilamente no trono do futebol italiano até chegar à fase de pensar que o título é uma garantia automática, em Milão as duas società foram-se reconstruindo a partir de investimento estrangeiro, embora nem sempre de forma pacífica: se o Inter está nas mãos, ou pelo menos a maior parte (68,55%), da Suning Holding Group, uma empresa privada propriedade do multimilionário chinês Jindong Zhang - cujo filho, Steven Zhang, é o presidente do clube desde 2018 -, num negócio aprovado na assembleia geral extraordinária a 28 de junho de 2016, o processo rossonero foi mais bem complicado. Em 2017, o AC Milan foi comprado por um fundo de investimento privado chinês à Fininvest, empresa com ligações a Silvio Berlusconi. No entanto, o fundo liderado por Li Yonghong falhou um pagamento de 32 milhões de euros da dívida que contraiu para pagar os 99,92973% das ações e o hedge fund norte-americano Elliot Management Corporation acabou por tomar conta do assunto em 2018. Removeu Li Yonghong da presidência e promoveu o empresário Paolo Scaroni ao posto, comprometendo-se a injetar 50 milhões de euros para estabilizar a situação financeira do clube.

Já no campo, a partir de 2019, curiosamente, ambos os clubes apostaram em antigos jogadores da Juventus para dirigirem as respetivas equipas, depois de anos de instabilidade absoluta. Depois de Massimiliano Allegri, o técnico que levou a equipa ao último triunfo na Serie A (e que conquistaria depois cinco dos nove títulos da Juve), o AC Milan somou sete treinadores (fora o interino Mauro Tassotti) até chegar a Stefano Pioli, campeão nacional e europeu pelos bianconeri como jogador e que como técnico ostentava no currículo passagens por Bolonha, Lazio, Inter e Fiorentina Já os nerazzurri não fariam melhor (dez treinadores e um interino desde José Mourinho, o último campeão) até contratarem a peso de ouro (12 milhões anuais) Antonio Conte, que além de jogador da Juve (onde venceu 13 títulos e também foi campeão europeu) fora o seu técnico nos três títulos iniciais da caminhada atual. Mas a contratação de Giuseppe Marotta para o cargo de diretor-desportivo, o cérebro por trás da construção da Juventus a partir de 2010, também foi um golpe de mestre.

Velhos e novos leões

De qualquer forma, não deixa de ser surpreendente que o AC Milan ocupe neste momento a liderança da Serie A, sobretudo para quem viu o play-off com o Rio Ave para a Liga Europa, onde a equipa quase era eliminada. Gastou pouco (cerca de 28 milhões e alguns empréstimos) para fazer alguns ajustes na equipa da época passada em nomes como Tonali, Ante Rebic, Jens Petter Hauge, Simon Kjaer, Meïté, Brahim Díaz, Kalulu ou o lateral português Diogo Dalot. E manteve as figuras basilares, como o guarda-redes Donnarumma, o central e capitão Romagnoli, o lateral-esquerdo Theo Hernández, o médio Hakan Çalhanoglou e, claro, o avançado sueco Zlatan Ibrahimovic, que com os dois golos apontados segunda-feira ao Cagliari chegou aos 12 na prova (em oito jogos...) e é, aos 39 anos, o líder da equipa em campo com o mau feitio que lhe é característico.

Também o português Rafael Leão tem estado em destaque, justificando os cerca de 30 milhões investidos na sua contratação (a maior dos últimos dois anos): o avançado formado no Sporting, já leva cinco golos e quatro assistências na liga em apenas 13 jogos, quase tantos como em toda a época passada (seis golos, duas assistências). E agora, com a chegada do croata Mario Madzukic para complementar Zlatan na frente de ataque, o internacional sub-21 poderá assegurar que joga onde mais tem rendido, a partir do flanco esquerdo.

Quanto ao Inter, que Fabio Capello apontou como o principal favorito ao título, também manteve a espinha dorsal do conjunto que terminou a um ponto da Juventus na época passada. O experiente Handanovic na baliza, os centrais De Vrij e Sriniar, o inglês Ashley Young, o médio Brozovic e a dupla de avançados constituída pelo possante belga Romelu Lukaku, grande figura do conjunto graças ao seu poder físico que destrói qualquer defesa, e pelo argentino Lautaro Martínez. Além disso, gastou perto de cem milhões em reforços de qualidade, como o lateral Hakimi (ex-Real Madrid), a maior parte deles no mercado interno: Barella, Sensi, Pinamonti e Kolarov. Para completar, a dupla chilena constituída por Arturo Vidal e Alexis Sánchez deu mais um toque de experiência à equipa.

Resta saber se os dois clubes milaneses vão aguentar o ritmo até final: Pioli também começou muito bem no Inter mas acabou por baquear na fase final e não continuou; já o Inter tem fama de falhar nos momentos decisivos. Perto do fim de fevereiro, se o futebol não for interrompido entretanto, há novo derby della Madoninna (para a Taça joga-se outro já dia 25), assim conhecido em homenagem à estátua dourada que encima o Duomo, a catedral da cidade lombarda. E esse pode ser o tira-teimas decisivo para saber quem vai ser o novo rei do calcio - isto se a Juventus entretanto não se reerguer das cinzas.

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