Kikas. Um projeto de família pronto a surfar a maior onda da carreira

A poucos dias da estreia na Liga Mundial de Surf (WSL), o pai e o tio de Frederico Morais revivem o caminho do miúdo de sorriso aberto, educado e competitivo que aos 7 anos já sonhava entrar na elite mundial. Agora quer surfar para não sair...

Gosta de andar com a prancha debaixo do braço, e se for ao som do rock californiano dos Red Hot Chili Peppers, tanto melhor. Frederico Morais, Kikas para o surf, vai cumprir a partir de terça-feira um sonho com 17 anos! Aos 7 anos avisou que ainda iam ouvir falar dele (ver entrevista ao lado) e cumpriu a promessa em dezembro de 2016, quando se qualificou para a Liga Mundial de Surf (WSL). Kikas é agora um dos 34 melhores surfistas do mundo e o segundo português da história a conseguir entrar na elite, depois de Tiago Saca Pires (2008 a 2015).

Assim que garantiu um lugar no circuito mundial ligou ao pai. "Disse-me "conseguimos" e começou a chorar", recorda Nuno Morais ao DN, "expectante" pela estreia do filho no Gold Coast (Austrália). Kikas terá pela frente o brasileiro Filipe Toledo e ainda o veterano australiano Adrian Buchan, no heat 10. E o pai vai lá estar para ver. "A Austrália é a segunda pátria do Kikas. Ele vai para lá desde os 11 anos, os amigos dele são australianos, o treinador é australiano. Conhece as pessoas de Gold Coast, fala com toda a gente, sente-se em casa e está lá a preparar a estreia desde janeiro, a competir nos QS", revela o pai ao DN, adivinhando o que passará pela cabeça do filho nesta altura: ""O que eu vou fazer? Será que vou conseguiu passar o heat?" Essa dúvida é a luta interior dele."

Foi em 2013 que o jovem surfista natural de Cascais ameaçou chegar à elite mundial, quando foi eleito o rookie do ano na Hawaiian Triple Crown, após vencer John John Florence (atual campeão mundial) no QS de Sunset Beach. Terminou nesse ano em 59.º lugar, entre os cem melhores da modalidade, subindo para 40.º em 2014 e derrapando até ao 63.º lugar, em 2015, antes do incrível terceiro posto no ranking da World Qualifying Series e a tão ambicionada qualificação para a Liga Mundial.

"A WSL é chegar ao cima da montanha e perguntar: como cheguei aqui e como me mantenho aqui para não cair? Muitas foram as vezes que parámos para pensar se estávamos no caminho certo. Mas sempre com determinação e sem olhar para trás, com a certeza de que íamos atingir o topo da montanha", confessa Nuno Morais, feliz por chegar "à fase do "tudo valeu a pena"". O acordar às 05.30 para treinar, as dezenas de viagens, o andar de um lado para o outro à procura de ondas, o estudar no carro...

Um amor ao acaso e por etapas

"O amor pelo surf surgiu do nada", segundo o pai e treinador de Kikas até 2011, ano em que Richard Marsh assumiu esse papel. Foi numas férias em Vilamoura e com uma prancha da antiga campeã nacional de bodyboarder Dora Gomes: "Um dia estávamos na praia e ele andava a brincar com a prancha na espuma. Eu olhei para ele e disse: "Não podes fazer ondas na espuma, tens de fazer na água, eu vou contigo." Depois veio o "tens jeito, vamos fazer melhor, tens de ir lá para fora... eu vou contigo"."

E assim, etapa a etapa, cresceu o amor ao surf. Foi campeão nacional pela primeira vez com 10 anos, na categoria sub-12, e aos 14 festejou o título sub-21 anos! Fez-se campeão precoce e o surf começou a fazer muito mais sentido do que o râguebi, a modalidade rainha na família Morais. Ou não fosse o pai antigo jogador, e o tio, Tomaz Morais, ex-selecionador e antigo coordenador da federação de râguebi.

Nuno Morais sempre esteve ligado ao desporto, mas "não percebia nada de surf". Sabia que tinha de o acompanhar e beber conhecimentos com os treinadores que ele tinha periodicamente na Austrália e no Havai, por exemplo: "Eu recolhia informação e fui fazendo o meu know-how para conseguir passar para ele. Quando cheguei a um ponto em que ele já tinha um rendimento elevado e eu já não lhe consegui passar mais-valias, afinal nunca fui surfista, o Richard Marsh caiu do céu..."

O sorriso e os valores de família

O papel de pai "sempre se misturou" com o de treinador. E hoje, bem vistas as coisas, segundo Nuno Morais, o Frederico "beneficiou" com isso: "Porque como pai e treinador fazia muito mais coisas do que um treinador. Eu continuava a tarefa de treinador como pai. Esta simbiose deu resultados. A filiação é muitas vezes discutível na alta competição, mas naquela altura dos 10, 12, 13 anos foi crucial."

Tomaz Morais, o tio, assistiu a esses primeiro tempos de camarote. "O meu irmão Nuno, pai do Kikas, foi treinador dele sem nunca ter feito surf, o que diz tudo. Ele foi aprender. Passava horas em casa, sentado no sofá da sala, a passar para a frente e para trás vídeos do Kikas a surfar e ligava entusiasmado: "Já viste o pé, já viste isto, já visto aquilo.""

Mas o que Tomaz Morais nunca esquece é o sorriso dele, "uma característica física e de personalidade forte de alguém que sabe o que quer, persistente, rigoroso, mas ao mesmo tempo calmo e confiante". Foi participando nas decisões de carreira do Kikas quando era necessário, mas sempre preferiu o papel de tio: "O meu irmão, muitas vezes, levava o Kikas para o balneário. Ele ficava sempre muito calado e muito bem-comportado. Não me lembro de alguma vez me ter dado trabalho... Foi um rapaz fantástico, não me deu preocupações... Sempre com um sorriso, sempre bem-disposto, muito carinhoso com as primas e muito feliz por fazer aquilo que ele mais gosta de fazer: surfar."

Feliz pelo percurso do sobrinho numa modalidade um pouco marginalizada na altura em que Frederico começou a levar o surf a sério, sofre, e muito, com as provas. "Nem imagina... Incrível! Sofro com o mar, sofro com ele... são fatores que eu não controlo e isso tira-me o sono. Ainda agora nos QS foram noites sem dormir, mas gostei do que vi, está em muito boa forma e muito competitivo, um automotivado por natureza, que representa enormemente o país, e isso deixa-me demasiado orgulhoso."

O power surfer, segundo Dog Marsh

Kikas é orientado por Richard Dog Marsh, um dos mais respeitados treinadores de surf do mundo, desde 2011. O ex-surfista australiano vê no português "surf puro" e matéria-prima para evoluir : "É um power surfer, um surfista de grande envergadura e consegue gerar muita potência com os seus carves. Estou a adorar trabalhar com o Frederico, é uma excelente pessoa para conviver e estou também superentusiasmado com a sua evolução."

O surfista português conta ainda com um um preparador físico na sua entourage, além de um psicólogo e do treinador. João Miguel trata do físico de Frederico há nove anos e elogia-lhe a capacidade de treino. "No início de época fazemos um trabalho de base, de força, e depois faz o chamado treino funcional, com exercícios mais virados para a modalidade. É um atleta supercompleto, tem força, velocidade, explosão, alguém que adora o treino, e isso tem-no ajudado a conseguir os resultados", diz o preparador que, de vez em quando, ainda lhe dá alguns conselhos ao nível da nutrição.

O treino de ginásio é normalmente alternado com o de mar e demora entre 50 minutos e uma hora, porque "o que interessa é a intensidade", mas nada substitui o surfar: "Se o mar está bom ele fica no mar."

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