Justiça investiga atribuição de Jogos a Rio de Janeiro e Tóquio

O senegalês Lamine Diack é a figura central de uma investigação que começou no atletismo e agora pode manchar as Olimpíadas que se realizam em agosto no Brasil

A sensivelmente cinco meses do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a polémica estalou através de uma notícia publicada ontem pelo jornal inglês The Guardian que revelava que a justiça francesa estava a investigar suspeitas de corrupção na atribuição dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e de Tóquio, estes últimos a realizar-se em 2020.

Entretanto, fonte oficial do Ministério Público (MP) francês confirmou à agência France-Presse a notícia do The Guardian.

Pelos dados que são conhecidos, o MP francês está apenas a fazer verificações no âmbito de uma investigação que tinha como alvo a corrupção no atletismo.

O elo entre os dois possíveis processos é o senegalês Lamine Diack, antigo presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) e que está atualmente preso acusado de lavagem de dinheiro e de corrupção, ao ter alegadamente recebido pagamentos no valor de um milhão de euros para encobrir atletas russos que acusaram positivo em controlos antidoping.

O MP francês tem alguns indícios de que os casos de corrupção em que Lamine Diack está acusado estenderam-se aos processos de votação das cidades que acolhem os Jogos Olímpicos neste ano de 2016 e de 2020, pois o africano era também membro honorário do Comité Olímpico Internacional.

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Segundo o The Guardian, Diack terá aliciado seis membros do Comité Olímpico Internacional (COI) em 2008, um ano antes de o Rio de Janeiro ter sido escolhida como palco dos Jogos para este ano de 2016, numa votação em que venceu Madrid, por 66-32.

Ao que tudo indica, existe um e-mail em que o remetente era Lamine Diack e cujos destinatários seriam seis membros do COI, designados apenas pelas iniciais. Estes membros depois pediam para ter direito ao seu bónus através do Conselheiro Especial do Mónaco, um nome de código presumivelmente para identificar Lamine Diack.

O The Guardian, numa informação que não é confirmada pelas autoridades gaulesas, refere que os investigadores têm fortes suspeitas de que Lamine Diack e o seu filho Papa Massata Diack, que era consultor de marketing da IAAF e já foi irradiado do desporto, funcionaram como intermediários entre os comités de candidatura do Rio de Janeiro e Tóquio e os membros do COI com direito de voto.

Mais intrigante é a votação realizada em 2013 em Buenos Aires, na Argentina, relativa aos Jogos Olímpicos de 2020 e que, caso tudo suceda normalmente, vão decorrer em Tóquio no Japão.

Alegadamente existe uma escuta em que Lamine Diack justifica ter deixado de apoiar Istambul em favor de Tóquio porque a IAAF tinha assinado um contrato publicitário de verbas consideráveis com um patrocinador... japonês.

"O Rio de Janeiro ganhou os Jogos porque tinha o melhor projeto quer do ponto de vista da organização dos Jogos quer do ponto de vista da tradição. Vencemos Madrid por 66 votos contra 32, o que exclui qualquer possibilidade de que tenha sido uma eleição viciada", disse ontem fonte do Comité de Organização dos Jogos do Rio de Janeiro 2016.

Por seu turno, o comité de Tóquio reagiu com apenas uma frase: "Essas alegações escapam ao nosso entendimento."

Sebastian Coe na berlinda

O sucessor de Lamine Diack na presidência da IAAF, Sebastian Coe, também tem o seu nome envolvido, pois é suspeito de ter influenciado a atribuição do Mundial de Atletismo de 2021 à cidade americana de Eugene.

O que está a ser investigado é um suposto conflito de interesses, pois Coe foi embaixador da Nike enquanto ocupava o cargo de vice-presidente da IAAF. Acontece que a Nike está sediada precisamente em Eugene. Quando foi decidido em abril do ano passado a cidade que organizaria o Mundial em 2021, o antigo atleta inglês ainda mantinha as duas ligações - à IAAF e à Nike.

Eugene tinha sido derrotada pelo Qatar na atribuição do Mundial 2019, mas depois foi escolhida para 2021 sem que outras candidaturas tenham sido avaliadas pela IAAF.

Este não era um procedimento virgem, pois a cidade japonesa de Osaka já tinha sido eleita da mesma forma em 2007.

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