Joshua escapou ao crime e às drogas para chegar ao topo

Pugilista britânico, que chegou a estar preso e vive com a mãe numa habitação social, abateu Klitschko na luta pelo título mundial de pesos-pesados. Agora, tem na mira Tyson Fury

Não é exagero: "O boxe salvou-lhe a vida", como diz o promotor Eddie Hearn. Ou, pelo menos, resgatou-o do poço onde arriscava afundar-se. O britânico Anthony Joshua escapou ao crime e às drogas para chegar ao topo do pugilismo. E anteontem, perante 90 mil pessoas, no Estádio de Wembley (Londres, Reino Unido) foi recompensado: derrotou o ucraniano Wladimir Klitschko na luta pelos principais títulos mundiais de pesos-pesados.

Esta é uma daquelas histórias de superação (e redenção) em que o boxe é pródigo: um lutador que, depois de uma juventude errante - em que chegou a estar preso e a andar com pulseira eletrónica -, se conseguiu reerguer, sem perder a humildade e o apego às raízes, que o fazem ainda viver com a mãe numa antiga habitação social, num bairro dos arredores de Londres. Anthony Joshua, de 27 anos e origem nigeriana, é o homem do momento. Afinal, acaba de juntar os títulos de pesos--pesados da WBA (Associação Mundial de Boxe) e da IBO (Organização Internacional de Boxe) ao da IBF (Federação Internacional de Boxe), que já detinha.

A façanha foi conseguida num combate de contornos épicos, perante um recorde de assistência no Reino Unido, no pós-II Guerra Mundial. Ao fim de um confronto intenso, em que - coisa rara - ambos chegaram a ir ao tapete, Joshua deitou Klitschko novamente por terra ao 11.º assalto, vencendo por KO.

Esta foi a 19.ª vitória de Anthony Joshua em 19 combates como profissional - todas por knock-out. E, mais do que no encaixe milionário dos pugilistas (15 milhões de libras, ou seja, 17,8 milhões de euros para cada) ou no futuro de A.J. na defesa dos cinturões (com Deontay Wilder, Wladimir Klitschko e até Tyson Fury na mira...), os holofotes mediáticos detiveram-se no percurso de vida do novo ícone dos pesos-pesados a nível mundial - um atleta com perfil, idade e potencial para ofuscar até as maiores estrelas do boxe na atualidade, como Floyd Mayweather.

Além do talento dentro do ringue, Anthony Joshua pouco tem que ver com Mayweather (estrela de pesos-médios, já retirado) ou Tyson Fury (caído em desgraça, depois de se ter tornado campeão de pesos--pesados, em finais de 2015). Onde eles eram vaidade e ostentação, A.J. é humildade e discrição: "um campeão do povo", como gosta de se intitular, ou o género de working class hero que subiu a pulso até ao topo.

Essa ascensão não foi linear. Em 2009, incluiu uma curta passagem pela cadeia - "por andar envolvido em lutas de rua e outras maluquices" -, da qual o pugilista saiu condenado a 14 meses de prisão domiciliária, com pulseira eletrónica. Em 2011, teve outro desvio: um ano de suspensão desportiva e a obrigação de cumprir 100 horas de trabalho comunitário, por ter sido apanhado com droga. E só então, ao perceber "o sofrimento que estava a causar aos amigos, à família e, principalmente, à mãe", Anthony Joshua entrou no caminho da redenção. Para escapar à delinquência, A.J. voltou a viver com a mãe (saíra de casa aos 18 anos) e focou-se no boxe - uma descoberta tardia, depois de mostrar talento para futebol e atletismo. "Escapar à prisão foi um ponto de viragem para ele. E o boxe salvou--lhe a vida: deu-lhe disciplina e um foco para dar uso ao seu físico brutal", recorda Eddie Hearn, citado pelo jornal Daily Mirror.

Depois de se sagrar campeão olímpico em Londres 2012, ainda como amador, Joshua lançou-se para o estrelato. Desde a estreia como profissional, em outubro de 2012, acumulou triunfos, quase sem deixar os adversários respirar (só por uma vez tinha precisado de ir além do 3.º assalto...). Em 2016, ganhou o primeiro título mundial, da IBF (KO sobre Charles Martin). E, agora, juntou-lhes os da WBA e da IBO, deixados vagos por Tyson Fury - ao cair nas malhas da droga e deixar (por agora) a prática desportiva.

Tanto triunfo e mediatismo trouxeram milhões de libras - mas não mudaram assim tanto a vida do pugilista. Embora tenha adquirido uma mansão para a ex-namorada Nicole Osbourne (mãe do seu filho Joseph, de ano e meio), Anthony continua a viver com a mãe, na habitação social onde cresceu - decidiu simplesmente comprá-la aos serviços camarários. E continua a conduzir um Jaguar F Pace, de 50 mil libras, depois de ter oferecido um BMW avaliado em 95 mil ao seu primeiro treinador, Sean Murphy.

"Não sou perfeito, mas tento", diz ele, sobre o registo perfeito de 19 vitórias e zero derrotas. Mas o que sobressai é o lado de bom samaritano, de quem até acabou o combate a prestar tributo a Klitschko.

Isso não evita que o lutador ucraniano, de 41 anos, ainda pense na desforra - prevista no contrato do combate de anteontem. Deontay Wilder, campeão mundial de pesos-pesados do WBC (Conselho Mundial de Boxe, o cinturão que falta unificar) também já desafiou A.J. Mas Joshua preferiu lançar o isco a Tyson Fury: "onde é que estás?", perguntou, na conferência de imprensa após o combate. "Vamos lá dançar", respondeu o antigo campeão, via Twitter. Os dados estão lançados.

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