Jorge Fonseca quer o ouro: "Vai ser épico!"

Com uma humildade genuína não muito vulgar em atletas de topo, o judoca recebeu o DN no Pavilhão Multidesportivo do Sporting para contar como estava o coração e a cabeça antes da viagem para o Japão, onde já foi muito feliz e onde entra em cena nesta madrugada.

Não contem com Jorge Fonseca para dizer que vai tentar ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos. Ele não é pessoa de tentar, ele é mais de fazer acontecer e de tornar possível o impossível. Foi assim com a mudança de São Tomé e Príncipe para Portugal aos 11 anos, o linfoma que lhe ameaçou a carreira em 2015, a infeção por covid-19 e a desvalorização profissional que sentiu na pele após ser campeão mundial em 2019. "Estou num momento épico e espero chegar aos Jogos no meu melhor e o meu melhor é estar no pódio, e se não for no lugar mais alto vou ficar desiludido. Quero o ouro e vou trabalhar para isso", atirou o judoca, sem medo do peso das palavras, em conversa com o DN, antes da partida para o Japão. Esta madrugada o judoca entra em ação.

Jorge Fonseca transborda atitude e confiança para Tóquio 2020. Não porque é bicampeão do mundo de judo na categoria-100 Kg, mas porque está em grande forma e não tem medo de errar. Já não é olímpico de primeira viagem e isso ajuda a compor o forte emocional à volta dos 100Kg e 1,75 metros de talento puro: "Ar descontraído é de nascença, mas também é trabalhado".

Ser campeão olímpico é algo tão raro e precioso que só quatro atletas portugueses (Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nelson Évora) o conseguiram em 100 anos de representação Olímpica. Está preparado para ser o quinto? "Eu estou preparado para tudo menos para isso porque não sei como é, mas espero vir a saber e já está na hora de um ouro na minha geração. Quero dar essa alegria a Portugal. Vai ser épico!", respondeu o atleta, que não gosta da palavra tentar - ouviu-a demasiadas vezes, com promessas vãs - e que acredita que estes Jogos "vão ser históricos" para a missão portuguesa.

Andar na rua sem ser abordado é quase impossível: "Eu gosto do carinho das pessoas, que falem, comuniquem ou deem a opinião. Noto que algumas pessoas têm algum receio por eu ser um bocado grande (risos). Dizem bom dia, perguntam como correm os treinos, como estou... Agora não gosto muito quando ouço "é para ganhar, é para ganhar, caral**. Estamos a contar contigo". As pessoas não sabem o que custa ganhar. Até parece que é só virar um, virar dois, virar três..."

Mas terá noção que isso é um pouco culpa dele? A facilidade que mostrou no último mundial, ganhando todos os combates por ippon... "Eu trabalhei muito para isso. Fui eu que tornei o mundial mais fácil. Puseram em dúvida o meu primeiro título. Deixar família e escola para trás para me dedicar ao judo e ver as pessoas a subestimar o meu valor é terrível. É a pior coisa que existe. Tive fases de revolta interior por causa disso. Eu passava e ouvia: "Foi sorte". Foi sorte?! Então entrei no mundial determinado em mostrar que não era sorte."

Jorge "dormia a sonhar com o mundial" e em como devia calar algumas bocas, fossem de adeptos, colegas ou adversários. A postura que adotou fez toda a diferença: entrar no tatami sem medo de ninguém e passar por cima de toda a gente, com o devido respeito pelo adversário como é óbvio: "Entrei em modo monstro e... Se um é sorte, dois é o quê?"

Foi bicampeão mundial. Ninguém o tinha conseguido nos -100kg, ninguém o tinha conseguido em tão pouco tempo (4, 42 minutos), ninguém o tinha conseguido no judo português. Conseguiu-o Jorge Fonseca e isso é bom e mau. Quando lhe disseram que tinha feito história ele respondeu que só faria história quando fosse campeão olímpico. Agora terá oportunidade para isso em Tóquio 2020, mas a vantagem do efeito surpresa esvaneceu-se: "Vou com essa confiança, mas para mim ser campeão do mundo antes dos JO foi um bocado mau, porque criou uma expectativa muito grande à minha volta. O judo é um desporto um bocado ingrato. Podes ser campeão do mundo e ter um mau combate e ficas pelo caminho em segundos."

Melhor do que nos últimos Jogos faz de certeza, uma vez que passou diretamente à segunda ronda! Saiu a chorar do tatami no Rio 2016 - eliminado na primeira ronda, terminou em 17.º - , mas o Jorge Fonseca de hoje nada tem a ver com o dessa altura. Começa a combater nesta madrugada, frente ao vencedor do combate entre Rafael Buzacarini e Toma Nikiforov.

Linfoma, covid-19, polícia...

Emocionou Portugal quando revelou que superou um linfoma (tumor numa perna) e que foi o filho que não o deixou desistir do judo. Depois dos tratamentos de quimioterapia ficava mal disposto e mal encarado e era o filho que o fazia rir e ter motivação para treinar. Foi pai aos 17 anos e por isso hoje o filho já tem idade para perceber o que o pai faz e quando pergunta para onde vai desta vez, Jorge responde: "O pai vai divertir-se a competir."

Desta vez a diversão é no Japão, o país favorito, onde nasceu o judo e onde ele já esteve 15 vezes! Três dessas viagens foram marcantes, mas só uma delas é para recordar. Foi em Tóquio que foi campeão mundial pela primeira vez, em 2019. E também foi lá que teve problemas com a polícia, uma vez por passar a rua fora da passadeira e a outra por correr na rua sem T-shirt: "São coisas passadas. Quero construir novas memórias." Mesmo que seja numa Aldeia Olímpica em bolha por causa da covid-19. Na partida para Tóquio prometeu dançar um "pimbazinho" para celebrar a medalha, mas ao DN confessou que dança o que a organização puser a tocar. Porque ginga não lhe falta!

Jorge é uma força da natureza e nem o sonho (falhado para já) de ser polícia o vai travar. Ele garante que não se arrependeu de dizer que queria ser polícia, mas prefere não falar sobre isso. Primeiro não entrou por não ter o 12.º ano (agora já tem), depois pela idade (limite é de 27 anos e ele já fez 28). "Era um sonho e não o consegui realizar, mas tenho 28 anos e outros sonhos para concretizar. Quero ser campeão Olímpico e vou trabalhar para isso", desabafou, sem esconder a mágoa.

Jorge queria que tivessem lutado por ele como ele luta pelo País que o acolheu. E defende que as exceções deviam estar contempladas na lei, mas também sabe que exceções só são bem vistas na hora das medalhas: "E isso é muito triste. Quase todos os atletas em França, Itália, Rússia, Brasil são polícia ou militares. Porque é que não posso entrar para a polícia? Pela idade? Não vou estar a lutar contra o sistema nesta altura, respeito, mas fico muito triste e desiludido porque acho que tenho capacidade para isso. Tentar? É simples, é só alterar uma má lei."

Aluno superou o mestre

Jorge foi descoberto por Pedro Soares, um ex-judoca, numa escola da Damaia, depois de chegar a Portugal. Quase 17 anos depois mantêm-se juntos e há muito que o aluno superou o mestre. "No princípio a minha carreira serviu como referência e exemplo, mas nada teve a ver com a dimensão de um atleta como o Jorge. A única coisa que lhe passei foi a mentalidade vencedora. Essa é a base do sucesso", elogiou o técnico, admitindo que é hoje mais treinador por culpa do pupilo: "Se acabasse agora já tinha valido muito a pena. Nós salvámo-nos um ao outro. Foi muito bom para ele eu aparecer na vida dele e para mim ele aparecer na minha vida. O Jorge proporcionou-me continuar no judo ao mais alto nível."

Ainda consegue ver o menino que um dia encontrou numa escola na Damaia e que convenceu a ir para o judo? "Não [sorrisos] e ainda bem. Com 28 anos, o Jorge está num momento muito bom de equilíbrio físico e mental, coisa que não tinha na altura. Está feito um homem. Um homem forte, com princípios e um exemplo para os jovens e a Sociedade. Aconteça o que acontecer em Tóquio, este homem que um dia foi um menino assustado ainda tem muito para dar ao judo", respondeu.

E, na opinião de Pedro Soares, o adiamento de um ano foi bom para o judoca do Sporting. "Se em 2020 eu pudesse empurrar o Jorge para 2021 fazia-o porque ele vinha de um mundial e não estava a lidar bem com a pressão de ser o primeiro campeão mundial do judo português. O contexto de pandemia deu-nos algum jeito para tratar a ressaca desse título. Agora estamos a 100% . Se a pandemia teve algo de bom, no caso do Jorge, foi adiar os Jogos", confessou o técnico.

Jorge Fonseca não é um atleta muito técnico ou tático, mas sim um atleta de projeção e explosão e com capacidade física invulgar, segundo Pedro Soares, admitindo que ser bicampeão trouxe ao judoca uma tranquilidade e confiança que treino algum lhe daria. "Aposto que agora todos querem evitar o Jorge no sorteio. Foi preciso não ser candidato para mostrar que o é. Ele é um atleta que nunca venceu uma Taça do Mundo ou um Europeu. Ele tem duas medalhas de ouros e ambas em mundiais. E não é só ser campeão é a maneira como o foi. Deixou todos em alerta e vai ter de haver muita competência da nossa parte para os superar", admitiu o técnico, sabendo que "ele tem arcaboiço para ter os olhares em cima deles" e que só "tem de entrar sem medo de errar".

E há uma pergunta que o treinador tinha reservado para depois de Tóquio 2020, que desafiou o DN a fazer. "Pergunte-lhe se vai manter a categoria -100 kg. É a pergunta que todos querem saber. Se não mantiver o peso passa para os +100Kg e aí...", atirou Pedro Soares, esperando o comprometimento do seu pupilo, que respondeu: "Vou manter. Vou manter." Palavra de campeão (Olímpico?)!

isaura.almeida@dn.pt

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