João Vieira marchou, marchou e esteve quase a garantir o bronze

Atleta de 45 anos foi quinto nos 50 quilómetros marcha, o seu melhor resultado em seis participações em Jogos Olímpicos. "Não é qualquer um. É o meu topo de carreira", disse.

João Vieira alcançou esta sexta-feira um honroso quinto lugar nos 50 quilómetros marcha, resultado que lhe valeu um diploma (ficou a 29 segundos do bronze). Na sua sexta participação em Jogos Olímpicos, o atleta de Rio Maior, de 45 anos, garantiu a melhor classificação de sempre, melhorando o 10.º lugar nos 20 quilómetros marcha de Atenas 2004, tendo também concluído pela primeira vez a mais longa distância percorrida em provas olímpicas, à terceira tentativa.

"Fico muito contente com este resultado, um quinto lugar não é qualquer atleta que o consegue e eu vim aqui lutar com todas as minhas forças. Consegui um lugar de finalista, o que é muito bom para a minha carreira desportiva, que já vai longa, podem ser os meus últimos Jogos e assim cumpri o meu dever", afirmou.

O atleta português chegou a Tóquio como vice-campeão do mundo da distância, tendo terminado a prova em 3:51.28 horas, o seu melhor registo da temporada, a 1.20 minutos do novo campeão olímpico, o polaco Dawid Tomala, que liderou a corrida antes dos 30 quilómetros.

Tomala chegou a ter uma vantagem de quase três minutos sobre o primeiro grupo, que contou sempre com João Vieira até às últimas duas voltas, quando descolou do alemão Jonathan Hilbert e do canadiano Evan Dunfee, segundo e terceiro classificados, a 36 e 51 segundos do vencedor.

"Quando faltavam duas voltas, conversaram entre eles e decidiram atacar. Eu já não tive pernas, as minhas pulsações já estavam a disparar", admitiu João Vieira.

A quebra do português ainda permitiu que o espanhol Marc Tur alcançasse o quarto lugar, a um minuto de Tomala e com uma vantagem de 20 segundos sobre João Vieira. "Foi bom, arrisquei e saiu o quinto lugar, estou contente. É o topo da carreira. Apesar de não ter sido uma medalha, um quinto lugar é muito bom, depois da medalha de vice-campeão, só tenho de estar satisfeito", assumiu o marchador do Sporting, que soma 59 títulos nacionais absolutos na especialidade.

João Vieira, que se isolou no segundo lugar no ranking dos portugueses com mais presenças olímpicas (seis), só atrás do antigo velejador João Rodrigues, até teve uma estreia negativa em Jogos, ao não poder alinhar em Sydney 2000 devido a uma doença.

Seguiu-se Atenas 2004 e o seu melhor resultado até hoje, o 10.º nos 20 km, distância em que foi 35.º em Pequim 2008, 11.º em Londres 2012 e 31.º no Rio 2016. Nas últimas duas edições tentou os 50 km mas não terminou nenhuma das corridas.

Carlos Lopes como ídolo

Natural de Portimão, João Vieira foi viver com a família para Rio Maior quando tinha 2 anos. Como conta Arons de Carvalho na sua página Atletismo Estatística, o atletismo começou com idade de infantil, quando ele e o irmão gémeo Sérgio se iniciaram nas corridas. Um dia foi preciso arranjar um marchador para a seleção de Santarém que iria participar na fase nacional do Olímpico Jovem (então DN Jovem), em Lisboa, e os dois experimentaram a prova de marcha: "Foram primeiro (o João) e segundo (o Sérgio). Estavam descobertos dois dos melhores marchadores nacionais de sempre. Daí em diante não mais deixaram a marcha e, um pouco à semelhança dos gémeos Castro das corridas, eram normalmente primeiro e segundo, chegando a combinar entre si quem ganharia nesse dia!"

Como contou numa entrevista à Tribuna do Expresso, começou inspirado pelo ídolo Carlos Lopes: "Quando era miúdo e vi os Jogos Olímpicos de Los Angeles e o Carlos Lopes a ser medalha de ouro na maratona, a partir daí tornou-se um sonho ser atleta de alto rendimento. Com 11 anos o clube aqui da terra [Rio Maior] convidou-me para integrar o grupo de atletismo e fui. Eu e o meu irmão gémeo, o Sérgio. Ele andou comigo mais de 20 anos no atletismo. Somos iguais e muita gente confundia-nos."

João é o mais titulado atleta português de sempre, com 57 títulos nacionais conquistados, entre pista, pista coberta e estrada, dos 5 aos 50 km, ao longo de 24 anos!

Em 2019, já com 43 anos, alcançou um dos pontos altos da sua carreira, ao conquistar a medalha de prata nos Mundiais, mesmo perante as contrariedades da temperatura alta e muita humidade em Doha, no Qatar. "Muitas vezes acordo de manhã e penso que ainda tenho 20 anos e com isso vou à luta todos os dias. Muita gente não acreditava neste resultado e se calhar eu só em sonhos", disse na altura. Com Lusa

nuno.fernandes@dn.pt

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