"Já não consigo ir passear o cão à rua sem se juntar uma multidão"

Com apenas 19 anos cumpriu dois sonhos de criança no clube do coração, onde chegou com 11 anos: "Sou um miúdo, alguém que veio da formação do Sporting, chegou à equipa principal e é campeão nacional." Amor ao clube cresceu com as idas ao estádio com o pai.

Gonçalo foi uma criança feliz a jogar à bola no bairro de Miratejo (Seixal), onde ainda vive com os pais e o irmão Rodrigo, o tagarela da família. Chateava toda a gente para jogar futebol e partiu molduras e jarras para desespero da mãe. Tímido, não gosta da exposição das redes sociais e tem os mesmos amigos desde os 5 anos... com quem passa horas a jogar PlayStation. Eis o retrato do mais jovem central a ser campeão nacional pelo Sporting.

Foi campeão nacional aos 19 anos. Qual é e sensação?

Há momentos em que ainda não acredito. É um sonho de criança. Estes dias têm sido incríveis. Eu não esperava nada disto quando comecei a época... pelo menos não tão rápido e no meu primeiro ano de sénior. É uma sensação incrível. Quando entrei dentro do campo e me estreei parecia mesmo um sonho, não acreditava que estava a jogar pelo Sporting. Agora sou campeão e continuo com a mesma sensação.

Quando se é campeão tão novo, que objetivos se colocam para a carreira que ainda está a começar?

Continuar a melhorar e a conquistar troféus. Ganhei dois (campeonato e Taça da Liga) na minha época de estreia e vou fazer os possíveis para ajudar a equipa a repetir. É uma sensação incrível. Festejar com os adeptos, com a equipa... não consigo explicar o que senti, apenas vivi o momento. Nasci em agosto de 2001. Tinha menos de um ano quando o Sporting foi campeão há 19 anos (2001-02) e não tinha noção de como ia ser quando fosse outra vez. Agora sou eu o campeão. É tudo inacreditável. Nunca tinha visto tanta gente junta como no cortejo até ao Marquês de Pombal. Os adeptos foram espetaculares.

Qual é o próximo sonho/objetivo?

Ainda tenho vários. Um deles é chegar à seleção principal, acho que esse é o sonho de todas as crianças que jogam à bola. Jogar pela seleção do nosso país deve ser incrível e um orgulho sem igual. Todos os dias trabalho para isso.

Ainda fez alguns jogos nos sub-23. Como foi quando foi chamado por Rúben Amorim à equipa principal?

Como sou um bocado tímido... foi complicado. No início demorei a habituar-me. Não tinha confiança com quase ninguém tirando o Nuno Mendes, o Tiago Tomás e o Eduardo Quaresma, mas encontrei um grupo incrível que me ajudou imenso. Estavam sempre a puxar por mim. O nível era outro, a exigência também, mas fui-me adaptando e as coisas foram melhorando.

Essa timidez é algo que vem de criança?

Sim, sempre fui um miúdo que ficava no meu canto, nunca gostei de muita confusão. A bola era mesmo a única coisa que me fazia mexer. Quando ia a algum lado com os meus pais chateava toda a gente para jogar comigo, e quando chegava a casa ia logo atrás da bola para jogar. Parti muitas molduras, quadros, jarras... a minha mãe estava sempre a dar-me na cabeça para parar de jogar e eu parava uns minutos, depois pedia-lhe para voltar a jogar e ela deixava [risos]. E olha onde eu cheguei...

Como foi a infância no bairro Miratejo, no Seixal?

Fui uma criança muito feliz. Sempre na rua a jogar à bola com os amigos. Tenho o mesmo grupo de amigos desde os cinco anos e ainda hoje convivemos. Damo-nos muito bem. Conheço toda a gente do bairro. Tem má fama, mas quem entra aqui percebe logo o bom ambiente e a boa gente que cá mora.

Agora é a celebridade do bairro e o exemplo perfeito de quem cumpre os sonhos apesar da origem humilde...

Sim. E não é só para as pessoas do meu bairro, julgo que para toda a gente. Ainda sou um miúdo, alguém que veio da formação do Sporting e chegou à equipa principal e foi campeão nacional.

Tem um irmão com necessidades especiais...

Sim, o Rodrigo, mas para mim ele é normal. É a alegria da família, estamos sempre a rir, ele é muito engraçado e de vez em quando sai-se com cada piada... É um tagarela, quando estamos à mesa ele é o único que fala, não deixa ninguém falar. É uma pessoa incrível, temos uma ligação muito boa. Quando eu estou chateado ele vem ter comigo e faz-me rir. Quando jogo ele vai para a rua, fala e pergunta a toda a gente -"viste o meu irmão, aquele passe..."

E o Gonçalo, ainda consegue andar incógnito na rua?

Não, já não consigo ir passear o cão à rua sem se juntar uma multidão. Vou a qualquer lado pedem-me autógrafos, selfies, camisolas. Lido bem com isso até certo ponto. Não dá para dar camisolas a toda a gente e dizer não é o mais difícil. Já estive no papel de adepto e sei como é. Eles viram-me crescer a agora sou jogador do Sporting e campeão nacional. À medida que vou crescendo como jogador preciso de mais tranquilidade e sei que um dia vou ter de sair do bairro...

O que lhe rouba tempo para além do futebol?

Jogar PlayStation. Vou treinar, venho para casa e sou capaz de ficar a jogar até ir dormir. Tenho um grupo de 11 amigos - um deles é o capitão Coates - e jogamos todos os dias. É um escape. Não sou pessoa de redes sociais, se fosse possível nem tinha Instagram, não gosto nada da exposição pública ou de me exibir em fotografias.

É um produto da chamada formação do Sporting. Quando chegou à Academia com 11 anos conseguia vislumbrar um futuro no futebol?

Tinha quatro anos quando fui para a escolinha do Chalana. Depois fui para o Almada, um clube onde aprendi muita coisa. Estou no Sporting graças a eles também. Eu sempre fui sportinguista. Acho que já nasci sportinguista. O meu pai levava-me ao estádio, íamos sempre mais cedo, tínhamos o ritual de ir comer à rulotes e conviver com outros adeptos. Adorava aquele ambiente de festa, os adeptos a cantar, toda a gente equipada. Lá dentro vibrava com tudo, gritava todos os golos, um corte ou uma defesa do guarda-redes. Eram momentos muito bons e por isso quando apareceu a oportunidade de ir para o Sporting foi fácil vestir a camisola. A cada ano que passava só pensava que queria ficar mais um ano no clube do meu coração. Nunca quis sair do Sporting nem jogar noutro clube...

E durante esse processo teve dúvidas sobre se ia ser jogador profissional?

Houve alguns momentos de dúvida, quando não jogava e metia coisas na cabeça, mas foi assim que percebi que mentalmente era forte e estava preparado para ser jogador. Tinha um sonho na cabeça e nada me iria impedir de o concretizar. E quando me estreei pela equipa principal... entrei dentro de campo e parecia mesmo um sonho, não acreditava que estava a jogar pelo Sporting. Assim que consegui liguei aos meus pais e aos amigos. Nos maus momentos tento automotivar-me com boas lembranças. Não sou muito de desabafar, guardo tudo para mim... essa é a minha fórmula. Sou feliz a jogar futebol. Eu não sei o que era de mim se não fosse o futebol. Se me perguntassem o que eu faria se não fosse jogador, não saberia o que responder.

Sempre jogou a defesa central? Tinha algum ídolo?

Comecei a central, mas também joguei a médio defensivo e ainda fiz duas épocas a lateral esquerdo até voltar a ser central. Nunca tive um ídolo, mas tenho algumas referências. Gosto de alguns centrais esquerdinos que gostam de sair a jogar, como o Mathieu. Cheguei a treinar com ele, ajudou-me muito. Ser um central esquerdino e sair a jogar pode ajudar-me a fazer carreira porque não há muitos com essas características. O futebol europeu procura muito esse tipo de centrais e se eu for bom...

Pelo menos para o Bruno Fernandes é. Em 2019, quando ainda ninguém conhecia o Gonçalo Inácio, ele elogiou-o e chamou a atenção para si...

[Risos] Foi muito bom receber um elogio de um jogador como o Bruno Fernandes. Eu não o conhecia, mas via-o a ver os nossos treinos e jogos muitas vezes, acho que foi assim que ele me descobriu.

O treinador Rúben Amorim também o elogiou várias vezes...

É bom para um jovem jogador receber elogios de um treinador e de forma tão descontraída. Dá-me confiança e isso é muito bom. Os elogios são sempre bons, mas só acontecem quando são merecidos e estamos bem, por isso prefiro concentrar-me mais no meu trabalho. Ele é que me pode ajudar nos maus momentos como quando fui expulso no jogo com o Sp. Braga.

O que sentiu quando viu o cartão vermelho?

Raiva, frustração... nem sem explicar. Eu não estava em mim, fiquei mesmo muito chateado.

O golo em Guimarães, que valeu três pontos, compensou isso de alguma forma?

Sim. Foi um golo muito importante porque valeu três pontos. Ainda houve aquele momento de espera porque o árbitro marcou fora de jogo, mas fiquei muito feliz quando foi validado. De vez em quando marco golos nos treinos. O jogo de cabeça é um dos aspetos a melhorar. Temos de estar sempre a evoluir. Evoluí muito em termos técnicos, táticos e físicos quando subi ao plantel principal. O Sporting está bem servido de centrais e ajudam-me muito.

Tem contrato até 2025. Emigrar é um objetivo?

Não para já. Por enquanto só penso no Sporting, é onde estou e onde quero ficar. Para mim é um clube diferente, o clube do meu coração.

Existe alguma pressão para a conquista do bicampeonato?

O nosso foco é jogo a jogo. Agora é descansar, ir de férias e depois é pensar em ganhar a Supertaça.

A época do Sporting foi quase perfeita e com alguns recordes. Aquela derrota com o Benfica é a espinha encravada na garganta?

Sim, é uma espinha encravada...

O Sporting foi campeão, o Pedro Gonçalves o melhor marcador ... e o melhor jogador?

Para mim o Coates. Também podia dizer o Pedro Gonçalves, mas o Coates fez uma época fantástica. Esteve imperial em muitos jogos. O Coates sempre foi o mesmo, sempre o admirei e foi um dos que me ajudaram imenso.

isaura.almeida@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG