Ivo Cação, um surfista da Figueira viciado em "ondas boas"

Aos 27 anos, o surfista que ficou conhecido por quase vencer um conceituado campeonato de tubos com um braço partido e engessado, está empenhado em brilhar em casa

Ivo Cação é o protagonista obrigatório do regresso da Liga Meo Surf à Figueira da Foz, após um interregno de 5 anos, para o Allianz Figueira Pro, que será disputado na praia do Cabedelo entre 2 e 4 de Junho. O mais conceituado surfista de uma terra ligada aos desportos de ondas tem, aos 27 anos, uma atitude muito própria de encarar o surf e a competição: "É complicado motivar-me para os campeonatos quando as ondas não estão boas. Se calhar, não devia dizer isto, mas apesar de competir no Nacional Open desde os 14 anos, o que me dá mais "pica" são ondas boas, e essas são raras em campeonatos."

Um discurso que pode parecer uma desculpa para um surfista que nas últimas etapas da Liga esbarra sistematicamente na barreira dos quartos-de-final, mas há um episódio que já ficou para a história do surf nacional e que suporta o argumento de Ivo Cação.

O cenário foi a praia de Supertubos, em Peniche. Na ocasião, palco da edição de 2012 do Capítulo Perfeito, campeonato especial onde se celebram as ondas tubulares e a capacidade dos surfistas negociarem aquela que é considerada a manobra rainha do surf: o tubo.

Para esta prova especial, os melhores surfistas nacionais e especialistas de tubos estavam presentes, com o natural destaque a ir para Tiago Pires, então no auge da sua carreira no World Tour.

Se, como mais ou menos esperado, a vitória sorriu mesmo ao portuguese tiger, como era conhecido internacionalmente Tiago Pires, ainda houve perfume de surpresa na prova, com o segundo lugar a ir para um Ivo Cação que se apresentava de braço partido e com um gesso comicamente grande.

Se a história e as imagens do surfista figueirense se tornaram imediatamente virais, nunca ninguém explicou porque é que o gesso no braço de Cação era tão óbvio.

"Toda a gente sabe que fiquei em segundo lugar no Capítulo com um braço partido, mas há uma parte da história que nunca contei publicamente", confessa Ivo Cação, partindo para a narrativa: "Parti o braço a fazer skate numa altura em que não havia ondas e imediatamente fui ao hospital, onde me colocaram um gesso. Mas eu queria surfar e já só pensava na possibilidade de entrar no Capítulo Perfeito, por isso perguntei ao ortopedista se podia surfar assim. Obviamente, ele disse-me que eu era maluco! (risos) Mas como insisti muito, ele explicou-me como poderia isolar o braço e arrisquei. Infelizmente, não correu bem e molhei o gesso no mar. Fui novamente ao hospital e ainda tentei mentir, disse que tinha sido a tomar banho, mas ninguém acreditou. Voltaram a engessar-me o braço e, desta vez, com um gesso muito maior. Chegaram mesmo a desafiar-me a surfar assim. Foi por isso que apareci no Capítulo Perfeito com um gesso enorme, devia pesar uns três quilos."

A experiência na Nazaré

A paixão por "ondas boas" ou, como o próprio Ivo vai dizendo, "um pouco maiores do que a média", mais uma coincidência feliz de patrocinadores com o surfista de ondas grandes João Macedo, levaram-no a uma incursão à Praia do Norte, na Nazaré, no inverno passado. Uma experiência que excedeu as expectativas: "Saímos a remar da Vila, contornámos o penhasco e quando vi as ondas percebi que eram bem maiores do que aquilo a que estava habituado. Segundo a estimativa do António Silva [surfista especialista em ondas grandes], teriam uns 7 ou 8 metros. Ou seja, mesmo bem maiores (risos)."

Mas com isto tudo, não se pense que Ivo Cação não gosta de competir. "Longe disso", esclarece prontamente quando se lhe faz a pergunta. "O surf para mim foi competição desde o início, mas o pro- blema tem sido alguma dificuldade em adquirir o ritmo competitivo que alguns dos principais surfistas da Liga trazem dos campeonatos lá fora. Eles competem muito no estrangeiro e chegam cá com esse ritmo. Eu não consigo fazer o mesmo por falta de apoios. Tenho excelentes patrocinadores, que me fornecem material, mas faz-me falta um patrocinador principal que financie viagens para ir às provas internacionais", lamenta.

Mas existe a esperança no sortilégio das ondas caseiras, nomeadamente o Cabedelo, uma das melhores ondas de fundo de areia da Europa. Foi precisamente ali que Ivo fez o seu melhor resultado na Liga, um segundo lugar em 2011 e agora espera poder fazer algo semelhante. "E se possível... com ondas boas", vai dizendo.

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