Ítalo. Das tampas de caixas de esferovite ao ouro olímpico no surf

O surfista brasileiro venceu na final o japonês Igarashi, que reside em Portugal. No discurso de vitória não esqueceu as origens humildes e a infância difícil.

O brasileiro Ítalo Ferreira tornou-se nesta terça-feira no primeiro campeão olímpico de surf, na final do concurso masculino na praia de Tsurigasaki, batendo o japonês Kanoa Igarashi, que reside em Portugal. O brasileiro fez um total de 15,14 pontos, numa final marcada pelas condições climatéricas marcadas pela passagem do tufão Nepartak, com Igarashi a registar 6,60.

O Brasil conquistou assim o primeiro título olímpico do surf masculino, gorada que foi a tentativa de Gabriel Medina chegar ao bronze, ao perder contra o australiano Owen Wright pouco antes. Ainda assim, o anfitrião Japão voltou a conquistar uma medalha (prata) numa prova de estreia em Tóquio, depois do skate, com Momiji Nishiya, quando faltam ainda começar as competições de escalada e de karaté, as outras duas novidades.

A conquista histórica no Japão fez Ítalo recordar-se da sua história de vida, pois o início da carreira não foi fácil (nasceu no seio de uma família humilde na cidade de Baía Formosa). Ainda criança, costumava usar as tampas das caixas de esferovite onde o pai vendia peixe como prancha. "Acho que isto serve de inspiração para aqueles que vêm de baixo, que têm sonhos, que acreditam, que foi o que eu fiz. É preciso aproveitar todas as oportunidades da vida. Às vezes só temos uma. Eu vivo intensamente. Eu sabia que aqui era uma oportunidade para mostrar o meu melhor, de sair com esta medalha, até porque eu vim com este sentimento, de vir e ganhar o campeonato", disse Ítalo.

"Eu vim com uma frase para o Japão: diz amém que o ouro vem. Eu treinei muito nos últimos meses, mas só tenho que agradecer a Deus por tudo isso. O meu objetivo é ajudar as pessoas e as famílias. Eu queria que a minha avó estivesse viva para ver isto. Sou muito feliz pelo que me tornei, pelo que fiz pelos meus pais. Sempre pedi para que este sonho fosse realizado e ele aconteceu", acrescentou.

Membro da elite mundial de surf desde 2015, Ítalo demonstrou o seu talento logo no seu primeiro ano a competir na World Surf League (WSL), quando conquistou o prémio "rookie do ano". Em 2019 sagrou-se campeão do Mundo de surf (assumiu a liderança do ranking precisamente depois de uma vitória no circuito português de Peniche), vencendo o compatriota Gabriel Medina na final. Foi o terceiro brasileiro a chegar ao título mais almejado, depois de Medina e Adriano de Souza. E agora foi o primeiro a ser medalhado olímpico.

O título feminino foi para a norte-americana Carissa Mo ore, que venceu na final a sul-africana Bianca Buitendag.

nuno.fernandes@dn.pt

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