Hélder Postiga: "Quero estar de bem com o futebol, quando acabar"

O futebolista que salvou a seleção com 21 anos, passou pela Índia e agora regressou ao Rio Ave conta o que mudou na sua vida

Com outros, será diferente. Por mim, não consigo olhar para Hélder Manuel Marques Postiga sem me lembrar do rapazinho - tinha 21 anos - que, chamado de emergência a uma seleção portuguesa em perda para a Inglaterra, entrou a um quarto de hora do fim e, oito minutos depois, chamou a si o golo que iniciou a reviravolta. Mais tarde - pareceram anos -, no mesmo jogo, deixou um país inteiro em taquicardia, quando decidiu marcar um penálti "à Panenka". Entrou e bem, como todos recordamos. Momentos especiais, claro, de uma carreira jogada para a frente - dos dez clubes que representou como profissional e que o levaram a uma seleta digressão pela Europa (Espanha, França, Itália, Inglaterra e Grécia), além de uma mais recente incursão asiática (na Índia, para ser rigoroso), Hélder só não deixou a impressão digital de goleador na Lazio, de Roma. Curiosa é a escolha do próprio avançado: o golo que marcou no Estádio Rei Balduíno, em Bruxelas, a 2 de junho de 2007. Além de um pontapé "fantástico", para recuperarmos um qualificativo da época, porquê? "Porque permitiu a nossa primeira vitória fora nessa qualificação [para o Euro 2008, num grupo de oito seleções, que obrigou a 14 jogos] e porque tinha sido pai uns dias antes..." Num golo, juntavam-se alegrias distintas, uma delas dedicada à mulher, Ana Filipa, e ao filho mais velho, Gonçalo, a que se juntaria Margarida, em setembro de 2009.

Postiga é saudado, logo à entrada no restaurante, como um campeão. Naturalmente - quatro Ligas no Futebol Clube do Porto, mais uma Taça de Portugal, uma Supertaça e uma Liga Europa. Com uma mágoa: a de não ter jogado a final de Sevilha, frente ao Celtic, depois da indigesta expulsão do segundo jogo da meia-final... com a Lazio (enguiço romano?). A serenidade de Hélder emerge: "Claro que, na altura, foi uma sensação horrível, saber que não poderia entrar em campo na final... Hoje, reconheço que fui imprudente, impulsivo como só se é numa certa idade... Além disso, aprendi - quando chegam os momentos de recordar - a fixar-me nas coisas boas e a deixar as outras mesmo para trás... O que está feito não tem remédio. Por isso, tento tirar o máximo prazer do presente e, sem precipitações, ir preparando o futuro." Como acontece com as pessoas inteligentes e positivas. E com uma ressalva: "A família, o meu núcleo familiar, foi decisiva para que eu crescesse, para que chegasse ao meu equilíbrio. A minha mulher é psicóloga e é, também, a minha psicóloga [risos]... E os meus filhos permitem algo decisivo: mesmo quando o dia não foi bom, o futebol passou a ficar à porta de casa. Lá dentro, o tempo e as atenções são deles..." O bem-estar financeiro garante, ainda, outra sábia sentença ao pai Hélder: "O meu filho Gonçalo começou nos últimos tempos a falar na hipótese de vir a ser futebolista. Não me assusta nem me encanta - tenho tentado explicar-lhe que, felizmente, temos uma situação que lhe permite, a ele e à irmã, Margarida, virem a ser aquilo que quiserem, algo que se sintam bem a fazer profissionalmente."

os meus filhos permitem algo decisivo: mesmo quando o dia não foi bom, o futebol passou a ficar à porta de casa. Lá dentro, o tempo e as atenções são deles

Climas e mudanças

Sem escapar à euforia do Euro - situação que merecerá reforço pela chegada, ao mesmo restaurante, do campeão Bruno Alves, garantia de um abraço entre os dois internacionais -, passamos pela condição dos incondicionais emigrantes, rumo às saídas de Hélder do retângulo (o país, não o relvado). "Aprendi sempre e muito, de cada vez que joguei no estrangeiro. E fui brindado com a enorme diversidade dos sítios por onde fui passando. Nem é preciso sair de Espanha: em Valência, quase todos os dias eram de sol, o que - reconheço - mexe comigo positivamente. Ao contrário, na Corunha, o tempo estava cinzento muitas vezes, chovia muito..." Ainda assim, a experiência mais complicada foi mesmo a primeira, em Londres, quando esteve ao serviço do Tottenham: "Fui eu que escolhi o clube, até porque na altura havia alternativas, até mais vantajosas do posto de vista financeiro. Mas eu apontei para ali... Foi complicado: nunca tinha saído do país, não falava a língua, era muito novo. Estava muito habituado à família, aos amigos, aos meus sítios... Cá, quando chegava alguém para a equipa, fazíamos questão de mostrar os melhores restaurantes, os bairros mais simpáticos para viver, de criar um ambiente que acelerasse a adaptação. Eu, em Londres, não tive nada disso e o Tottenham estava muito longe da estrutura que tem hoje... Houve dias complicados: os amigos telefonavam a dizer que estavam a almoçar aqui ou ali e só me apetecia apanhar o avião..."

Comparamos esse período com aquilo que Alex Ferguson, o mítico manager do Manchester United, proporcionou a Cristiano Ronaldo: por várias vezes, mandou o português até à Madeira para "curas de saudade" ou, ao menos, para "intervalos na pressão". O cenário de Hélder era radicalmente diferente, mesmo não sendo único: "O Hugo Viana também enfrentou um tempo complicado no Newcastle. E o Ricardo Quaresma em Barcelona... De todos, aquele que teve mais sorte, digamos assim, foi mesmo o Ronaldo..." No Tottenham, mais uma contrariedade: "O homem que me tinha vindo buscar, o Glenn Hoddle, saiu do clube... Mas, mais uma vez, há uma parte da responsabilidade que é minha: quando eu comecei a dar sinais de querer sair [após uma época, 2003--2004, 24 jogos disputados e dois golos marcados], falaram comigo para me citarem o exemplo do Bergkamp, que não tinha marcado qualquer golo na sua primeira temporada no Arsenal e que, depois, nunca mais parou... Mas eu já estava com a cabeça fora dali."

Se há escala obrigatória - nesta viagem sentada diante de umas lulinhas, que já todos os que trabalham no restaurante sabem corresponder a uma inclinação do atleta -, talvez pelo insólito, ela prende-se com a recente "passagem para a Índia", onde Hélder jogou uma parte da época 2015-2016, antes de regressar, desta vez para alinhar pela equipa da sua terra natal, o Rio Ave, de Vila do Conde. Fico a saber que, sem o impacto mediático de tantos campeonatos europeus e da América Latina, esta Super Liga indiana, criada há dois anos por três poderosas empresas (locais ou multinacionais) para fazer subir o nível do futebol local e disputada por oito equipas milionárias, conseguiu o quinto lugar mundial no que toca a público. Postiga sorri: "Os indianos são muitos..." Mais a sério, explica que há uma aposta clara em treinadores de nome e competência - "o meu era o Antonio López, que jogou no Atlético de Madrid e no Sevilha, mas também andavam por lá o Zico, o Roberto Carlos, o Marco Materazzi, que foi defesa do Inter de Milão, e o David Platt" - mas, ao mesmo tempo, uma adaptação das estruturas, com departamentos médicos, com técnicos de formação..." Por outras palavras, ainda vamos ouvir falar do futebol indiano.

O Hugo Viana também enfrentou um tempo complicado no Newcastle. E o Ricardo Quaresma em Barcelona... De todos, aquele que teve mais sorte, digamos assim, foi mesmo o Ronaldo...

Aventuras e futuro

Pergunto-lhe pela adaptação, pelas diferenças. "Há duas maneiras de encarar estas oportunidades. Quem quiser, pode passar o tempo na piscina do resort de cinco estrelas onde nos instalam e não sair dali. Eu não sou assim... Quando posso, ponho a mochila às costas e vou um bocado à aventura, quero conhecer a terra onde estou..."

O que pode transformar-se em experiências complicadas, como a do encontro com Calcutá: "Podemos tentar imaginar o cúmulo da miséria - Calcutá é pior do que isso..." Ou, então, render vivências excecionais: "Fui até às ilhas Andamão [que aparecem em destaque numa aventura de Sherlock Holmes, O Signo dos Quatro], no meio do Pacífico." Percebo, pela expressão de Hélder, que foi inesquecível.

Por estes dias, o homem que marcou 27 golos com a camisola de Portugal vai decidir o futuro. Por uma vez, não abre o jogo - o que se compreende sem problemas. Sabe, isso sim, que não continuará no Rio Ave, que veio ajudar, com cinco golos, a qualificar-se para a Liga Europa da temporada que agora começa. "Gostava que me percebessem, que não sou ingrato, nada disso. Mas correu tão bem que, compreensivelmente, os adeptos vão exigir tão bom ou melhor, a seguir. Acontece que sou mesmo daqui, não venho cá fazer um ano ou dois. Vivo aqui e quero continuar a viver. E se corre mal? Vou agora, em final de carreira, chatear-me com pessoas de quem sou amigo ou que me viram crescer?" Tudo claro.

Evocamos as privações que um jogador de alta competição teve de enfrentar. E é desarmante a frontalidade de Postiga: "Tive de me coibir de muita coisa, quando era mais novo. Mas eu sou daqueles que tiveram direito a uma contrapartida do futebol, consegui fazer uma carreira digna, bonita... Talvez não estivesse tão bem-disposto se tivesse ficado a meio do caminho." O percurso deu-lhe tempo para "aprender a gostar do Sporting", clube em que jogou depois de alcançar fama e proveito no FC Porto. Não esconde que pôs a hipótese de se retirar diante de lesões graves - e foram duas. E que, num futuro próximo, espera "não ficar deprimido quando deixar de jogar". Sorri, ao confessar: "O dia ideal ainda é o do jogo... mas sem aquecimento." Mais a sério, tece um propósito: "Não me quero arrastar nem fazer nenhuma asneira. Quero estar de bem com o futebol, quando acabar esta carreira." E depois? Treinador, diretor desportivo, olheiro? Volta a sorrir: "Quero voltar a estudar. Tornei-me profissional muito cedo e, nessa altura, não havia as condições que há hoje, para os jovens da alta competição. Sinto a falta..." Venha de lá o pão-de-ló, sirva-se o café. Campeão já temos à mesa, na bola e na vida.

Restaurante Marinheiro, Póvoa de Varzim

Couvert com presunto

Lulinhas grelhadas com salada

Vinho branco maduro

Pão-de-ló de Ovar

Cafés

Total: 39,10 euros

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