"Há dez anos que olho para as datas de Magalhães a pensar na minha volta ao mundo"

Em 2019 assinalam-se os 500 anos da partida do navegador português Fernão de Magalhães para a primeira circum-navegação ao globo. Ricardo Diniz admite que o mote é excelente para criar "um alinhamento" que lhe permita partir para a sua primeira volta ao mundo

Leia a primeira parte da entrevista:

Contabiliza as milhas náuticas que já percorreu? Equivalem a quantas voltas ao mundo?

Anda à volta de 103/104 mil milhas, o que equivale a quatro voltas ao mundo.

Mas a volta ao mundo, de uma só vez, ainda é um objetivo por cumprir. Em 2019, cumprem-se 500 anos da partida de Fernão Magalhães para a primeira circum-navegação ao globo. Tendo em conta que muitas das suas expedições se aliam a datas relevantes da história de Portugal, será em 2019 que vai abraçar esse desafio?

Já há dez anos que olho para as datas de Magalhães e penso que a minha volta ao mundo, se calhar, vai ser nessa altura. No entanto, ao contrário de outras idades, aceito perfeitamente se nunca fizer a volta ao mundo. Para mim, é tão importante o propósito e o alinhamento que se ele não existir eu simplesmente não vou. Se perceber que faz sentido, que posso de alguma forma ser útil às comunidades portuguesas através dessa volta ao mundo, então irei. Se for apenas um desejo pessoal, isso não chega para partir. Mas se esse alinhamento existir, provavelmente em 2019 irei iniciar a minha volta ao mundo.

Prefere esse tipo de alinhamento entre a viagem e a história do país à participação numa regata como a Vendée Globe, a mais conceituada volta ao mundo em solitário?

Completamente. Adoro a Vendée Globe, é o Everest da vela e sigo a prova todos os dias quando se realiza de quatro em quatro anos. Mas não me atrai participar. O que me atrai é voltar a fazer projetos que tenham que ver com Portugal e as nossas ex-colónias.

Recentemente, foi forçado a interromper a sua participação [a primeira de um português] na regata OSTAR [sigla de The Original Singlehanded Trans-Atlantic Race] devido a dois incidentes a bordo que lhe provocaram um traumatismo. O primeiro vencedor da regata foi precisamente Francis Chichester. É por isso que esta prova era tão especial para si?

Sim, até porque eram os 50 anos da chegada de Sir Francis Chichester da sua volta ao mundo. Portanto, isto era um alinhamento bonito. Foi por isso, por estar tão ligado à minha história, que quis participar e não pela competição. Achei que era bonito honrar a pessoa que me inspirou. Mas foi espetacular estar agora em Inglaterra, até porque pude ver, pela segunda vez na minha vida, o Gipsy Moth IV.

Sente-se um embaixador do país?

Não. Sinto que dou o meu melhor, com iniciativas privadas, para promover o que é nosso. Um taxista faz o mesmo quando recebe educadamente as pessoas num aeroporto. Uma escola de surf também quando faz bem o seu trabalho ao longo da costa portuguesa. Todos temos o papel de comunicar bem o país. No fundo, somos todos pequenos embaixadores, porque todos temos a responsabilidade de promover o que é nosso.

Já teve de repreender alguém próximo de si por falar mal do país?

Já, muito próximo até. Nós conseguimos ser extremamente criativos, muito organizados e protegemo-nos bem. Não admitimos que digam mal de nós, mas depois dizemos mal de nós próprios de uma maneira surreal.

Há alguma crítica ao país que o perturbe mais?

Quando me dizem que nasci no país errado. Fico tão lixado. Às vezes dizem-no com a melhor das intenções, mas acho tão pouco educado. O que é isso do país errado? Eu consigo, com as cartas que a vida me deu, fazer este jogo. Se fosse nos EUA, as cartas e o jogo seriam diferentes e às tantas nem seria navegador solitário. A vida é o que é e nós temos de fazer o melhor possível com o que temos e não reclamar em relação ao que não temos. O país errado? Eu estive lá fora. Vivi nos EUA, nas Caraíbas, comandei aqueles superiates no Mónaco e em Saint-Tropez. Eu tive essa vida, vivi-a intensamente, e voltei para Portugal. E aqui estou, a olhar para este mar, a levar uma vida simples, a educar os meus filhos. É aqui que quero estar.

Em 2006, velejou até Londres para entregar uma garrafa de vinho do Porto com 80 anos à rainha Isabel II, no âmbito do 80.º aniversário da monarca. Chegou a saber se foi realmente consumido?

Sim. Recebi uma carta muito simpática do Palácio de Buckingham a agradecer o gesto e a confirmar que Sua Majestade recebeu a garrafa e apreciou o gesto, até porque reforça a aliança mais antiga da história. Isto no ano em que não só a rainha fazia 80 como também se assinalavam os 250 anos da primeira região demarcada do mundo, o Douro.

O tal alinhamento...

Vês? Isto tinha de acontecer. Eu andava de forma absolutamente insuportável a tentar que este projeto acontecesse. Dei tudo por tudo, porque até 31 de dezembro de 2006 tinha de chegar a Londres e entregar a garrafa à rainha.

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