"Há bastantes casos de atletas olímpicos com problemas de saúde mental no pós-carreira"

Atletas em dificuldades, leis que não estão a ser aplicadas e critérios ad hoc nos subsídios. Esta é a dura realidade à espera de dezenas de desportistas após Tóquio 2020. Associação (AAOP) promete ajudar na transição para a chamada "vida real" e pede corporativismo.

Uma vez atleta olímpico, olímpico para sempre. É com base nesta premissa que Luís Monteiro espera ajudar no pós-carreira. Foi atleta do pentatlo, esteve nos Jogos Olímpicos de 1984 e assistiu de perto às medalhas históricas de Carlos Lopes e Rosa Mota. Hoje é presidente da Associação de Atletas Olímpicos de Portugal (AAOP), criada em 2003 por vontade de um conjunto de pessoas, entre as quais Carlos Lopes, João Rodrigues, Gentil Martins e Roberto Dória Durão. Em entrevista ao DN em vésperas do início dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, Luís Monteiro explica o que espera os atletas para lá da glória e das medalhas.

Qual é a missão da Associação de Atletas Olímpicos de Portugal?

A nossa missão assenta em três pilares estratégicos: para os atletas, pelos atletas e para a sociedade. Para os atletas, porque queremos perceber onde eles estão, o que é que fazem, do que é que precisam e como é que podem ajudar a associação. Os atletas têm um papel essencial de exemplo e nós, como associação, temos como missão a responsabilidade social. Queremos criar a identidade do atleta olímpico e fazer com que possa ser vista como um exemplo para as gerações mais novas.

Mas o foco é na reforma desportiva. O pós-carreira é um problema?

Eu prefiro ver uma grande oportunidade de melhorar. O pós-carreira é um problema transversal em Portugal e no mundo. Há estudos que mostram que um atleta de alto rendimento tem dificuldades no pós-carreira. Muitos acham que se adapta perfeitamente ao mundo empresarial porque tem competitividade, mas não é assim. Eu trabalhei quase 30 anos em multinacionais e, se fosse só com a agressividade e competitividade de ex-atleta, não resistia seis meses numa empresa, era logo aniquilado. A maioria tem graves problemas de adaptação, e por isso, sim, o pós-carreira é um problema.

Mas está consagrado na lei ...

A proteção existe no papel. Temos muita legislação, mas... depois, para ser aplicada, tem de haver portarias, e muitas delas não estão a ser aplicadas. Estamos a fazer esse levantamento em conjunto com a Comissão de Atletas Olímpicos (atletas em atividade), para fazer uma proposta no sentido de melhorar a legislação. Contamos entregar isso ao secretário de Estado do Desporto em breve. Precisamos desse chapéu legislativo. O pós-carreira está consagrado na lei, mas não ajuda a ultrapassar problemas do ponto de vista psicológico. Estar no Olimpo e depois passar para a vida real provoca problemas de saúde mental e de adaptação.

As carreiras duais ajudam ou só tapam o sol com a peneira? Ou seja, não servem os interesses dos atletas de primeira linha...

Tem razão. As carreiras duais são importantes, mas é tapar o sol com a peneira. Pretendem preparar os atletas para a vida, desde que começam a praticar desporto até ao momento do pós-carreira. Nós em Portugal temos muito a ideia do desporto resultadista, mas as pessoas têm é que ganhar a preparação para a vida. E isso começa nas escolas, não na altura em que o atleta está em alto rendimento e tem que conciliar o ensino com uma performance profissional de excelência. Vou dar um exemplo. O Jorge Fonseca, bicampeão mundial de judo, quer ir para a polícia, e a legislação, com a idade que ele tem, já não permite que ele aceda aos quadros da polícia...

Estão a fazer algo para o ajudar a realizar esse objetivo de vida?

Ouvimos o alerta do Jorge Fonseca e vamos junto das entidades oficiais falar no caso particular, mas enquadrá-lo num problema e criar uma medida que possa abranger mais atletas. Se formos atacar caso a caso, não faremos outra coisa. Dou-lhe outro exemplo. Encontrámos um atleta que tem um problema de saúde mental, marcámos uma reunião com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental para se perceber como é que se pode estabelecer um protocolo vasto e abrangente, porque não são dois ou três casos isolados. Há bastantes casos de atletas olímpicos com problemas de saúde mental no pós-carreira.

"Sei que todas as profissões são dignificantes, mas nós não estamos à espera de ver um atleta olímpico nas obras ou a passar dificuldades ao ponto de vender medalhas. E existem muitos. Há dois ou três casos em que é uma questão de sobrevivência e que estamos a ajudar."

Não deve ser fácil para eles, vistos como ídolos, admitir fragilidades, sejam psicológicas, financeiras ou ao nível dos estudos...

Há, mas não devia. Estamos a definir o perfil do atleta olímpico para perceber quem são os cerca de 650 atletas olímpicos na base de dados, o que fazem, o que precisam e de que forma podem ajudar. Já contactámos com mais de 300. Para quê? Para saber se têm vergonha, se estão a passar dificuldades, se estão desempregados. Há um estigma quando se olha para um desportista... A sociedade tem a ideia de que o desportista faz desporto e não tem cabeça, mas há exemplos que são fabulosos. O Paulo Trindade (ex-nadador olímpico) é engenheiro em Omã, o António Abrantes (ex-velocista) é professor universitário em Nancy, o Pedro Caravana (ex-judoca) é gestor da Aerospan nos EUA.

Só está a dar bons exemplos...

Também sei os que estão em dificuldades, os desempregados ou em profissões que não os dignificam em nada. Sei que todas as profissões são dignificantes, mas nós não estamos à espera de ver um atleta olímpico nas obras ou a passar dificuldades ao ponto de vender medalhas. E existem muitos. Há dois ou três casos que é uma questão de sobrevivência e que estamos a ajudar. Quando tivermos todos na base de dados - estamos a fazer isso com o ISEG -, vamos saber exatamente onde estão, o que fazem e se precisam de ajuda. Esse é um trabalho que nunca foi feito. Em seis meses, fechámos protocolos com a Universidade Lusíada e o ISEG, com descontos para quem queira frequentar o ensino superior, com a BP, para desconto no abastecimento nas bombas de gasolina, e com o Jamor, para acesso às instalações. E estamos a fechar um com a sociedade de farmácias, para descontos nos medicamentos.

Entendo que não queira abordar casos individualmente, mas...

Por uma questão de dignidade e confidencialidade. Vou dar um exemplo. Encontrei um atleta do atletismo em grandes dificuldades e fui à câmara municipal da zona para falar com o presidente para lhe arranjar trabalho. Essa é outra ideia: estabelecer um acordo com as autarquias, porque a base de dados diz-nos que há muitos atletas a trabalhar nas autarquias. A Manuela Machado, o Paulo Catarino, a Albertina Dias...

A Albertina foi uma das atletas, tal como a malograda Teresa Machado, que admitiram dificuldades e a venda de medalhas.

É uma dor de alma saber de uma atleta em dificuldades. Precisamos de criar condições para que no futuro não aconteçam situações como essas. O atleta olímpico tem um estatuto diferente, que lhe permite reclamar determinados direitos, mas quando é convocado a fazer pressão e mostrar espírito de grupo tem de estar presente, e muitas vezes diz não. É um apelo que eu faço. Que estejam presentes quando é necessário. Em Portugal existe muito a vitimização e há atletas que não saem desse registo e depois não nos conseguem ajudar, nem nós a eles. Precisamos do espírito de corporativismo, mas obviamente que também é responsabilidade nossa envolver os atletas nas soluções.

O modelo americano, assente no desporto universitário, não resolveria alguns problemas?

A educação é fundamental neste processo. O desporto escolar existe, mas não cria atletas de alta competição e não há um modelo alinhado. Temos de refletir: o que é o desporto e qual o papel do desporto na sociedade. É criar campeões? É. Mas é também criar indivíduos que possam ser exemplos e prepará-los para a vida. E é isso que falta. A Inglaterra começou a trabalhar Londres 2012 em 1997, e hoje a equipa olímpica inglesa é o terceiro ponto de orgulho da nação, depois da Coroa e do SNS. Queremos ter um papel determinante a criar um modelo que faça despertar uma nação.

Quando acaba a carreira, o atleta reforma-se? Fica desempregado?

Isso é a tal questão da legislação que precisa de ser revista. Existe o subsídio de reintegração, que está legislado, mas há muito critério ad hoc. Há um decreto-lei que tem uma série de critérios de acordo com o tipo de performance do atleta olímpico, que tem direito a uma bolsa durante xis tempo, mas há uma série de critérios ad hoc... Há casos em que se aplica determinado tipo de apoio, outros em que não se aplica, outros em que há um montante ou outros em que não há montante sequer.

Pelo que sei, o IPDJ tem lista de atletas com subvenções vitalícias...

Não quero falar em nenhum instituto em particular. Há falta de critérios nas atribuições. Temos três anos e meio pela frente e de certeza que isso vai ser abordado.

"Tal como a Rosa Mota, que é talvez a marca pessoal mais forte de Portugal, o Nelson Évora e a Telma Monteiro também criaram essa marca pessoal e não vão ter graves problemas a não ser na questão da passagem da competição ao alto nível para uma vida normal."

Os dois únicos medalhados atuais, o Nélson Évora e a Telma Monteiro, estão à beira do final de carreira. Que futuro lhes reserva Portugal?

Eles criaram a chamada marca pessoal e ambos têm condições extraordinárias. Tal como a Rosa Mota, que é talvez a marca pessoal mais forte de Portugal, o Nélson Évora e a Telma Monteiro também criaram essa marca pessoal e não vão ter graves problemas a não ser na questão da passagem da competição ao alto nível para uma vida normal.

O Luís foi atleta. Como fez a transição para a vida laboral?

Sempre que ia treinar, tinha que levar os livros. Ia para a Faculdade de Direito e era estranho levar um saco de desporto. Tinha o equipamento por baixo dos livros. O meu pai mandava-me abrir o saco do equipamento sempre que eu saía de casa, para ver se os levava. Fiz o curso à boleia daquilo que o meu pai queria. Só parei uns meses na altura dos Jogos Olímpicos de 1984. Tirei Direito, mas segui gestão e entrei no mundo das multinacionais e tive uma carreira até ao topo.

Que recordações tem desses Jogos de Los Angeles? Foi talvez a melhor participação de sempre de Portugal.

Tenho recordações fantásticas. Aquela maratona do Carlos Lopes foi épica. Havia uma era antes do Carlos Lopes e um pós-Carlos Lopes, medalha de ouro na maratona em Los Angeles. Nós andávamos de fato de treino na rua e olhavam para nós com um ar... quase que nos insultavam, e quando corríamos na Segunda Circular ouvíamos sempre o mesmo: " Vai trabalhar, malandro." E depois de o Carlos Lopes vencer isso deixou de acontecer. Depois a medalha histórica da Rosa Mota e do António Leitão. Foram jogos riquíssimos e foi uma experiência para a vida. Eu tive a felicidade de no primeiro dia da prova do pentatlo moderno, o hipismo, ficar em quarto lugar, e as pessoas, como não conheciam bem o pentáculo moderno em Portugal, que é uma competição por pontos e a soma dos pontos das cinco provas, pensaram que eu tinha ficado perto das medalhas. Portanto, a imprensa deu-me um relevo fenomenal [risos].

E expectativas para Tóquio 2020?

Na cerimónia de despedida dos atletas, estive a falar com Francisco Belo e ele dizia-me que de repente apareceram 20 atletas a lançar mais de 22 metros e o recordista mundial já ultrapassou os 23, que é uma coisa absurda. Quando penso em piscinas de 25 metros e vejo um destes tipos a lançar o peso e a atingir a outra margem, é uma imagem absurda e mostra a dificuldade de conseguir medalhas e ajuda a pôr em perspetiva o sucesso. Vejo muito valor e ambição nesta comitiva. O Michel Jordan dizia, "para ser melhor que os outros, compito contra a melhor versão de mim próprio", e quando vejo a Telma Monteiro vejo isso. O Fernando Pimenta é outro indivíduo que tem standards elevadíssimos e é focado e também, provavelmente, poderá trazer uma boa notícia para Portugal. E temos atletas com um nível muito alto. Acho que, se não trouxermos medalhas, de certeza vamos trazer bons resultados.

"O que é que é o desporto e qual é o papel do desporto na sociedade. É criar campeões? É. Mas é também criar indivíduos que possam ser exemplos e prepará-los para a vida. E é isso que falta."

isaura.almeida@dn.pt

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