Gony Zubizarreta, o campeão que nunca chegou a ser

Foi o vencedor da Liga no ano passado, mas o facto de ser espanhol impediu-o de reclamar o título nacional. Surfista galego de 32 anos tem como objetivo "continuar a curtir muito"

Gony Zubizarreta é um dos melhores surfistas a deslizar em ondas portuguesas. A prová-lo, o triunfo na Liga Moche do ano passado. Um triunfo que devido à sua nacionalidade espanhola não veio associado ao título nacional, reclamado pelo luso-brasileiro Pedro Henrique.

Mas este galego, nascido na Argentina e radicado em Portugal há sete anos, relativiza o "pormenor", esclarecendo que partiu para a Liga com aquilo que já aprendeu a reconhecer como uma vantagem preciosa em competição: a ausência de pressão.

"Eu entro em todos os campeonatos para ganhar, e queria muito ganhar a Liga no ano passado, mas já sabia que não podia sagrar-me campeão nacional por ser espanhol. Isso, de certa forma, retira a pressão", explica.

Esse mesmo mecanismo psicológico ajudou-o recentemente na vitória na etapa do WQS (Circuito de Qualificação Mundial) da Costa de Caparica, o Caparica Pro, no mês passado. Numa final em que se destacavam o campeão nacional Pedro Henrique e o ex-campeão nacional e campeão mundial júnior Vasco Ribeiro, foi mesmo o espanhol a vencer, em ondas diametralmente opostas às que vinha surfando nos últimos tempos.

"O mar estava praticamente flat com ondas muito pequenas, e eu não fazia uma manobra há mês e meio, só tubos. Vinha de uma viagem às Canárias com ondas épicas, dias antes tinha estado com a minha equipa, Volcom, a surfar a Cave [onda na Ericeira considerada uma das mais perigosas da Europa] e agora estava ali a surfar aquelas ondas pequeninas. Mas tinha a vantagem de não ter pressão. Aquela era uma prova que contava pouco para a qualificação e o Pedro Henrique e o Vasquinho queriam muito ganhar. Se calhar, por isso, acabei por vencer."

Tanta "ausência de pressão" parece ser uma obsessão para Gony Zubizarreta", mas esta parece ser também a melhor resposta para um antigo campeão mundial júnior da International Surfing Association (ISA) que já esteve à beira de entrar para a elite do surf mundial e "morreu na praia".

O sonho adiado

Aconteceu em 2009. Gony Zubizarreta encadeou uma série de excelentes resultados em campeonatos internacionais em Espanha, com destaque para uma vitória num WQS de 5 estrelas em Zarautz e uma final no Pantín Classic. Mas, contas feitas, acabaria por ficar a 200 pontos, um heat numa prova dessa dimensão.

"Não, não fiquei traumatizado, mas andei uns tempos com menos alegria e vontade de competir", reconhece Gony, acerca da "ressaca" do sonho adiado.

Mas o passado já lá vai e o sempre bem-disposto surfista galego vive uma fase extremamente positiva. Começou bem a temporada de surf, tem estado em destaque na competição e no free surf, objeto de escrutínio pelos media da especialidade, e está a todo o vapor com a sua empresa, a Jam Traction, marca de acessórios que arrancou em sociedade com o luso-germânico Marlon Lipke, surfista algarvio que já passou pelo World Tour e que também compete nesta Liga Meo.

"Tenho tido a cabeça cheia com o surf, a competição e depois chego a casa estafado e tenho de dar seguimento a encomendas e preencher faturas de clientes... enfim, mas está a correr muito bem e já estamos a expandir para toda a Europa e até para mercados como Israel", conta Zubizarreta.

E, com tudo isto, há tempo para pensar na próxima etapa da Liga Meo, o Renault Porto Pro?... "Claro que sim! Como disse, sei que não posso ser campeão nacional e isso foi-me explicado desde o início pelo Francisco Rodrigues [presidente da Associação Nacional de Surfistas] quando me convidou a participar na Liga, mas quero ganhar sempre. É um privilégio competir naquela que é, provavelmente, a melhor Liga nacional do Mundo, com um ritmo competitivo altíssimo e ajuda-me a encarar as etapas do WQS com outra capacidade", elogia.

O amor por Portugal

A viver e competir em Portugal, como é a relação do argentino-espanhol-cidadão do mundo com o nosso país?

"Adoro Portugal! Cresci na Galiza, perto da fronteira, e desde miúdo que venho a Portugal surfar e competir, pelo que conheço muito bem o Norte de Portugal, de Viana a Espinho. Lembro-me de vir fazer uma etapa do Pro Junior a Ribeira d"Ilhas e ficar apaixonado pela Ericeira e pelas suas ondas. E sempre fui muito bem recebido pelo Nick [Uricchio, o seu shaper de pranchas] e pela família. Agora vivo na Ericeira e a minha família, o meu irmão e pais, vêm viver para cá também, pelo que esta é, cada vez mais, a minha casa", afirma, entusiasticamente.

Em suma, Gony Zubizarreta está a viver uma fase dourada da sua vida de surfista. Poderá ser coroada com a entrada no World Tour, agora que ocupa a 20.ª posição do ranking do circuito de qualificação? Igual a si próprio, desvaloriza, afinal, isso seria acrescentar pressão: "Sinceramente, nem sei em que posição estou e isso não importa nesta altura do ano em que ainda temos de fazer várias etapas de cinco estrelas e primes."

Então quais são os objetivos de Gony para 2017?... "É claro que penso em qualificar-me para o World Tour, vencer novamente a Liga Meo e, em termos empresariais, que a minha Jam cresça cada vez mais. Mas, principalmente... quero continuar a curtir muito."

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