"Não sei como será o futuro, mas vejo-me como dirigente"

Fechou a carreira em 2008, regressou aos Açores como sempre sonhou, mas todos os dias sente falta dos jogos e até da pressão do futebol. Feito o balanço de uma carreira em que não há arrependimentos, o melhor marcador de sempre da selecção nacional pede um grupo unido para os jogos de amanhã e quarta-feira. Lembra que mais importante do que os nomes é a equipa. E embora não goste de falar do futuro, Pauleta tem uma certeza: não quer ser treinador. Mas vê-se como dirigente.

 

Deixou de jogar há um ano. Como é agora o seu dia-a-dia?

O mais simples possível: levo e vou buscar os meus filhos à escola, estou a com a família e cuido da minha escola de futebol. Além disso, tenho os meus compromissos com o Paris Saint-Germain. Mas há hábitos que ficam, continuo a levantar-me antes das oito da manhã e ainda não comecei a engordar.

Mas a comida é uma das suas paixões...

Sim, deve ser porque não tenho tendência [a engordar].

Quantos golos já marcou desde que se retirou?

Alguns, em jogos com os amigos.

Um ano antes de abandonar a alta competição disse ao DN que estava preparado psicologicamente para por um ponto final na carreira. Afinal, está a ser mais fácil do que pensava, ou não?

Está a custar mais do que pensava. Todos os dias penso nos vinte anos em que joguei futebol.

O que lhe faz mais falta?

Sinto falta do grupo, do dia dos jogos, do ambiente e até da pressão.

E dos holofotes?

Menos. Esse lado de figura pública nunca foi fundamental para mim.

De Paris para São Miguel, Açores. Deixou para trás muito mais do que o futebol, mudou radicalmente de vida.

Sempre estive muito próximo dos Açores, mas foi realmente uma volta de 180 graus. Mas foi uma decisão consciente, foi uma opção de vida, tomada pela família. Por isso, estamos a sentir-nos tão bem. Os meus filhos adoram viver aqui, estar na escola com os primos. Perderam-se algumas coisas, ganharam-se outras muito importantes.

Não gostaria de interromper a rotina diária com outros voos, à semelhança de Rui Costa, Vítor Baía e, talvez um dia, Figo?

Esses jogadores têm ligações muito fortes a grandes clubes nacionais, o que não é o meu caso. Neste momento tenho uma ligação ao Paris Saint-Germain e, pelo menos por enquanto, quero é descansar.

Não tem uma ligação a clubes nacionais mas tem à FPF. Gostava de estar ligado à federação?

Nem todos os ex- jogadores podem trabalhar na federação. Depende do que pudesse fazer e da minha utilidade, mas neste momento não penso nisso. Estou bem nos Açores.

É muito ligado a Figo. Conhecem--se desde os 15 anos. Acha que ele vai avançar com uma candidatura à FPF?

Figo tem qualidade para se candidatar à federação, presidir a um grande clube, enfim, ter um cargo importante no futebol português. Tem capacidade para ser o que quiser.

Poderá trabalhar com ele num projecto federativo?

Não sei o que responder. Não gosto de falar de futuro. Neste momento estou a descansar. Um dia se verá.

Há caras que estão no futebol há demasiado tempo?

É sempre bom renovar ideias.

Ficando no futebol, vê-se a dirigir ou a treinar?

Treinar, não. Embora não tenha certeza do que vou fazer no futuro, vejo- -me mais como dirigente.

Dedica grande parte do tempo à sua escola. Como está esse projecto?

A crescer. Neste momento temos 160 crianças e boas condições próprias. Acredito estar a fazer um trabalho de qualidade. Essa foi a minha aposta, que estou a ganhar.

Tem encontrado muito talento?

Há miúdos com muita qualidade, outros com menos, mas o objectivo da escola não é apenas de encontrar talentos. Alguns das crianças já foram para clubes açorianos, outras prestaram já provas em clubes grandes do continente, sendo certo que para todos eles deve ser claro isto: é mais difícil a um açoriano ser descoberto pelo futebol nacional.

É o miúdo de São Roque a falar?

É. Vivia numa terra isolada onde mal havia casas. Hoje, as diferenças em relação ao continente continuam. São as desvantagens de uma ilha.

Como olheiro do Paris Saint- Germain, já indicou aos franceses alguns jogadores da nossa Liga, ou das camadas jovens?

Já recomendei vários e já fiz alguns relatórios sobre atletas que, do meu ponto de vista, poderão interessar ao clube. Mas não me peça nomes.

A selecção nacional vai ter agora dois jogos decisivos. Disse recentemente que a selecção tem cometido alguns erros. Que erros são esses?

Há muitos anos jurei a mim mesmo que a partir do momento em que fechasse a minha carreira na selecção não me ouviriam críticas a seleccionadores ou jogadores da equipa. Por isso faço apenas um alerta: uma selecção não pode ser feita de nomes. Sempre que pusemos em primeiro lugar os nomes, perdemos; sempre que nos apresentámos como um grupo, ganhámos. Um grupo forte, unido, capaz de sacrificar o individual pelo todo. É essa a selecção que quero e julgo que neste momento está no bom caminho.

Há sempre jogadores a destacar, nomeadamente aqueles que estão lá para unir, para liderar. A quem entregaria essas funções?

A liderança avalia-se, sobretudo, pelo que cada um faz dentro de campo, pela forma como se entrega, como se comporta perante a vantagem ou a adversidade. Cada geração deu os seus líderes à selecção e não é justo estarmos sempre a fazer comparações. A selecção teve recentemente grandes lideres, mas agora temos que puxar pelos que lá estão. Vejo capacidade de liderança em Simão, em Nuno Gomes e em Cristiano.

Há quem não veja em Cristiano capacidade de liderança...

Não percebo porquê. De qualquer forma, o que me interessa, acima de tudo, é que Cristiano jogue bem.

Diziam de si, como avançado, que estava na hora certa, no local certo. Os nossos avançados têm falhado nesse ponto...

Os golos resultam do valor e do talento de cada jogador, mas também de várias circunstâncias. Também aqui não é justo comparar. A verdade é que também estive todo um campeonato da Europa sem fazer golos. Nunca antes tinha estado mais do que três ou quatro jogos sem marcar e naquela altura decisiva não marquei um único. Faz parte do futebol, é uma frase batida mas é verdadeira.

Não há muitos avançados com estatuto que lhes permitisse aguentar um campeonato, no próprio país, sem marcar um único golo mantendo a titularidade...

Pode acontecer a todos, a jogadores menos bons ou a grandes jogadores. A diferença está na forma como se passa por essas situações. É aí que se fica a saber de que massa é feito um jogador. A verdade é que fui capaz de assumir aquela pressão terrível, resisti porque sempre acreditei no meu valor. Estava muito triste, mas aguentei. Há momentos em que um jogador tem que provar a si próprio que é capaz de ultrapassar a prova. Comecei a minha carreira sem nunca passar pela cabeça que atingiria o patamar a que cheguei. Da mesma maneira, nunca pensei estar cinco jogos sem marcar. No entanto, julgo que não terá sido por acaso que Scolari me fez sempre entrar em campo. É porque tinha um a papel cumprir, com ou sem golos. Nesse momento menos bom, Scolari apelou sempre à minha personalidade e à minhas qualidades

Pediram-lhe recentemente que escolhesse um treinador com muita importância na sua carreira. Escolheu Scolari...

Todos os treinadores foram importantes para mim. Por exemplo, com Humberto [Coelho] é sabido que não joguei as vezes que achava que devia jogar, no entanto sempre o admirei. Sempre tive uma óptima relação com todos, do Artur Jorge a António Oliveira. Mas, é claro, não nego a importância especial, para mim, de Scolari. Marcou-me muito.

Foi Carlos Queiroz quem lhe abriu a porta da selecção, tinha 15 anos. O que pensa dele?

Que é um treinador muito capaz.

Há quem o defina como "um técnico competente mas com azar". Concorda?

No futebol há sorte e azar, isso é verdade, mas o que reconheço a Queiroz é muita capacidade.

Já disse que não o incomodava a chamada de Liedson à selecção. Consigo ainda na selecção, a convocatória e a titularidade de Liedson seriam possíveis ou era um "atrevimento" a que nenhum seleccionador se permitiria?

Quando as coisas correm bem é mais difícil tomar certas atitudes. Eu jogava, marcava, e nesse sentido é natural que o seleccionador estivesse satisfeito.

Há dois anos defendeu publicamente a ideia de que só deve representar Portugal quem sentir a bandeira e o país. Quantos jogadores naturalizados deve ter a selecção portuguesa?

A partir do momento em que são cidadãos portugueses podem jogar na selecção. Só a federação e o seleccionador podem impor limites.

Sábado, frente à Hungria, Liedson vai jogar de início. Concorda?

É uma decisão do seleccionador.

Na era Scolari afirmou: "Portugal não tem medo de ninguém". O que tem falhado na era Queiroz?

Não gosto muito de falar em sorte ou infelicidade mas a verdade é que tem havido falta de sorte. Temos criado oportunidades de golo, várias até, mas falta-nos a sorte de campeão.

Isso era o que se dizia há dez anos atrás. Estamos a regredir?

Estamos a viver um momento difícil, muito complicado, temos que ver os erros cometidos, corrigir e avançar.

Há 10 anos que a selecção não falha uma qualificação para um Europeu ou um Mundial. Se falharmos agora, que custos resultarão daí para o futebol português?

Acredito que vamos ser apurados. Se não formos, há que corrigir, melhorar e olhar para a frente. É mau, ficaremos muito tristes, mas não é o fim do mundo. Já falhamos outros Mundiais.

Falhando a qualificação, o seleccionador deve continuar a merecer a confiança da federação?

Carlos Queiroz assinou por quatro anos. Defendo a sua continuação. Deve ter essa oportunidade.

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