Frederico Morais: "Este ano zero serve para marcar a minha posição no circuito"

A partir da próxima sexta-feira, a praia dos Supertubos, em Peniche, recebe a penúltima etapa do Mundial de surf e os maiores nomes da modalidade começarão a chegar a Portugal durante a semana. Entre eles, está neste ano o português Frederico Morais, a viver uma época de sonho enquanto rookie. Nesta entrevista ao DN, por e-mail, desde França (onde competiu na última semana), Kikas diz-se motivado para surfar em casa e fala das aventuras deste primeiro ano no principal circuito mundial.

Antes de competir agora em França, esteve em Cascais, onde conseguiu um 3.º lugar na etapa do circuito de qualificação. Foi um bom tónico para a ponta final da temporada no WCT?

Foi, sem dúvida. Em termos de ranking, para qualificação [para o circuito mundial da próxima temporada], estava numa posição confortável, mas, sendo uma prova de dez mil pontos, ainda para mais em casa, na minha praia, onde comecei a surfar, não fazia sentido não entrar. Foi muito bom ter chegado às meias-finais, sentir o apoio das pessoas, os miúdos na praia, foi mesmo muito bom.

Este ano de rookie no circuito mundial está a ser "melhor do que a encomenda" ou dentro das expectativas?

Está de facto a ser um primeiro ano muito positivo, tenho trabalhado para isso, e os resultados estão a corresponder às expectativas.

Que objetivos tinha traçado no início do ano? Já estão todos cumpridos?

Um dos principais objetivos deste primeiro ano era a requalificação. Era, e é, uma espécie de ano zero, de perceber a própria dinâmica, mas também de marcar a minha posição no circuito. Sempre disse que queria ficar no circuito e esse é sem dúvida o meu principal objetivo. À medida que vou alcançando esses objetivos vou desenhando novas metas.

Conseguiu um segundo lugar em J-Bay, dois quintos, está na luta pelo rookie do ano, por acabar no top 10... A cereja ideal no topo deste bolo seria uma vitória na próxima etapa do WCT, em Peniche?

A vitória é sempre o que desejamos, em qualquer das etapas, sejam QS [circuito de qualificação] seja circuito mundial. Na competição, o foco tem de ser a vitória, não se gosta de perder. Em casa, então, seria a cereja no topo do bolo, mas vou pensando heat a heat. Para além de todo o meu desempenho, há fatores externos que não controlamos e, por isso, não ponho as expectativas tão altas. heat a heat, é como gosto de pensar.

Sente que é um objetivo possível, chegar à primeira vitória no World Tour ainda neste ano de rookie?

Esse não é um objetivo, não para agora.

Começar o ano a ganhar uma bateria, no Quicksilver Pro Gold Coast, na Austrália, foi um bom desinibidor?

Foi, sem dúvida que foi. Embora Austrália para mim seja como uma segunda casa, o que foi bom. Poder competir num local que conheço bem foi também um fator de segurança. Obviamente que, independentemente disso, poderia ter entrado e ter perdido de primeira, mas não aconteceu, foi im- portante, o primeiro heat enquanto atleta do WCT, ser um heat de vitória.

Este primeiro ano no circuito de elite mudou muita coisa na sua vida? Hábitos, rotinas, personalidade?

Eu tenho vindo a preparar-me para esta entrada. A mudança aconteceu mais lá atrás, quando decidi que realmente queria entrar para o circuito mundial. Aí sim, foi a grande mudança, onde criei hábitos, rotinas que permitiram que todo o meu esforço e concentração dessem frutos.

Em termos de preparação, é mais exigente agora?

Sou exigente, mas sempre fui. A verdade é que não mudei, nem aumentei o nível de exigência comigo próprio. Se antes era uma "exigência" focada para a entrada no WCT, agora é uma "exigência" para a permanência e para subir lugares no ranking.

Alguma coisa que o tenha surpreendido neste primeiro ano, em relação ao ambiente que se vive no WCT ou alguns hábitos próprios da competição? Ou os vários anos de surf a correr o circuito de qualificação já tinham permitido descobrir e aprender tudo sobre este mundo?

Assim "surpresas" não tive. Já conhecia os surfistas e o ambiente. E, sinceramente, não vivo muito os bastidores, o meu foco está mais dentro de água.

O contacto mais permanente com os principais nomes do surf mundial permitiu também conhecer melhor esses surfistas. Houve surpresas e/ou desilusões a esse nível?

Não, nada de surpresas. Mas, na verdade, não tenho expectativas, é o meu trabalho, são os "colegas de trabalho", não tenho nenhuma razão de queixa, embora compitamos todos uns contra os outros, o ambiente é tranquilo.

Quem foi a sua principal referência no surf ao longo dos anos? Kelly Slater?

Claro que cresci com a referência do Kelly Slater, é 11 vezes campeão mundial, mas o Mick Fanning também teve um papel "inspirador" na minha carreira.

Com quem se dá melhor no circuito? Quem é o principal "parceiro"?

O meu verdadeiro parceiro é o meu treinador [Richard "Dog" Marsh]. Os restantes atletas, dou-me bem com todos, com mais contacto com os da Billabong, porque passamos muito tempo juntos.

Este ano ganhou eco uma bateria muito disputada com o Gabriel Medina, com marcação cerrada. A relação ficou boa?

As baterias não podem nem devem ser levadas de forma pessoal, estamos ali para nos vencermos uns aos outros, um dia com um atleta, noutro dia com outro atleta. Nem sequer falamos sobre isso dessa forma. Até damos os parabéns uns aos outros, o objetivo é comum: ganhar.

Qual foi a sua melhor bateria do ano até este momento?

Não consigo eleger nenhuma. Claro que as etapas onde cheguei mais longe foram mais desafiantes, surfei mais vezes, com mais atletas e isso é sempre enriquecedor.

E a melhor onda? A nota dez contra John John Florence no J-Bay Open, na África do Sul?

Pois, sem dúvida que foi a melhor. E a mais pontuada!

Quais as ondas em que mais gosta de competir? Havai? Austrália? África do Sul? E porquê?

Sim, e Portugal também. Havai e Austrália, porque conheço bem, desde pequeno.

Olhando para o caminho que percorreu até aqui, sente que aqueles períodos de férias no Havai e na Austrália, desde os 10 anos, foram essenciais para o que está a viver agora?

Cruciais mesmo. Foi o sair da minha zona de conforto, em mares que não conhecia, cheios de surfistas melhores, piores ou idênticos, mas em que tive de me adaptar, de "crescer" dentro de água. Muitas horas a fio, muito treino, muito tempo longe de casa, a partir dos 14 anos já sem os meus pais. Mas foram decisões cruciais para o meu trajeto, tanto a nível de performance como psicológico. Não é um desporto de grupo e aprendi isso desde cedo.

Nunca duvidou, ao longo do trajeto, de que fosse mesmo isto que queria fazer?

Nunca, sempre tive mais certezas.

Os seus pais sempre suportaram esse caminho e investiram nisso. Sem esse apoio teria sido impossível?

Não seria impossível. Há muita gente que tem outra história, sem esse suporte, e chega lá e é bem-sucedido. Foi uma ajuda, mas tive de lutar por outras coisas. Há sempre o reverso da medalha. Uns passam por umas privações, outros por outras, mas o facto de estarmos dispostos a ultrapassá-las é o que faz a diferença.

Depois de tantos sacrifícios, também financeiros, agora a chegada ao WCT permitiu já compensar esse investimento? Um surfista de elite mundial é bem pago?

Sinceramente, não sei se podemos generalizar. Há uns surfistas que sim, outros que não. Esta é a minha profissão e, como qualquer profissão, acredito que deva ser remunerada de forma justa e proporcional aos resultados.

É muito procurado por marcas para patrocínios?

Felizmente, as marcas puseram os olhos no surf, já há um tempo, principalmente quando Portugal se tornou palco de uma etapa do mundial feminino e masculino. Houve uma mudança, uma nova perceção acerca do income que o surf poderia trazer, não só pela modalidade em si como pelo lifestyle, a quantidade de negócio que gerava. Eu próprio abri a minha escola de surf porque há procura - e, no meu caso, porque queria passar outros valores, de diversão, de respeito pelo mar e pela natureza, entre outras coisas. A verdade é que temos uma costa imensa, não há como não apostar neste negócio.

Voltando ao campeonato, e aos desafios que restam da época: o próximo é em Peniche. Competir em casa é mais motivador ou traz mais pressão?

Para mim, motivador. É bom poder competir em casa, até porque raramente estou em Portugal.

O que é que os outros surfistas acham da etapa portuguesa e de Portugal? Costumam falar sobre isso?

Sei que gostam, já não é uma novidade, desse 2009 que conhecem. Adoram as ondas e até já conhecem um pouco mais do que isso: comidas, locais...

Sente que o surf tem ganho novo fôlego em Portugal com a sua chegada ao circuito mundial?

Eu espero que sim.

Que legado gostaria de construir no surf português? Tem essa preocupação?

Tenho, tenho a preocupação de ser um exemplo, de levar Portugal lá para fora e o surf português. E também de mostrar aos miúdos que vale a pena acreditarem, mas que têm de lutar por isso.

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