José Sá abriu caminho à arte total do Liverpool

Ingleses sentenciaram eliminatória no Dragão com goleada nunca antes vista, após erro do guarda-redes portista no primeiro golo.

Se há neste FC Porto de Sérgio Conceição uma decisão que fura o elogio quase unânime ao trabalho do treinador é, inevitavelmente, a troca de Iker Casillas por José Sá na baliza portista. Esse era um fantasma que as boas exibições do jovem guardião português no plano interno, até aqui, tinham adormecido, mas voltou a agitar-se ontem na pior altura, num cenário que contempla pouca margem para redenção: em plenos oitavos-de-final da mais competitiva prova de clubes do mundo, frente a um rival de elite como é este Liverpool, que acabou por sair do Estádio do Dragão com a eliminatória sentenciada por uma goleada histórica (0-5).

É, naturalmente, injusto colocar todo o peso da derrota sobre os ombros de José Sá. Basta olhar para o resultado para perceber que a superioridade do Liverpool não pode ser resumida nesse lance infeliz que permitiu a Mané abrir o marcador, aos 25 minutos - num remate cruzado que o guardião deixou passar por debaixo do corpo. Mas perante um daqueles desafios em que tudo tem de funcionar na perfeição, o erro de Sá acabou por ser o golpe que fez ruir o plano em três tempos.

Sabia-se que iria ser difícil ao FC Porto anular a máquina de golos desta equipa de Jürgen Klopp, que se apresentava no Dragão com credenciais invejáveis nesse capítulo - o melhor visitante das principais ligas europeias, com uma dupla atacante de luxo que vale mais de metade da produção ofensiva dos reds (Firmino e Salah). Sérgio Conceição sabia disso também e tinha avisado de véspera que o FC Porto tinha de ser pragmático, deixando antever aquilo que se viu nos primeiros 20 minutos do jogo.

Com Otávio a manter a titularidade de Chaves, para reforçar o meio-campo numa espécie de 4x2x3x1, a equipa portista abdicou da "utopia" de discutir a posse de bola com o Liverpool e o bloco de pressão para a entrada do seu meio-campo. No fundo, uma espécie de tentativa de bloquear o trânsito à circulação do Ferrari de Klopp, para aproveitar a imagem utilizada por Carlos Carvalhal quando o seu Swansea bateu os reds na Premier League.

E a entrada do FC Porto em jogo ainda alimentou a ilusão, com um par de incursões de Brahimi pela esquerda e uma oportunidade clara para Otávio, já na área (desviada por um defesa para canto). Mas o Liverpool reforçou a intensidade desse seu gegenpressing (o palavrão colado às equipas de Klopp para definir a pressão alta sobre o adversário na reação à perda de bola) e o erro de José Sá, aos 25 minutos, deitou por terra a ilusão de que o FC Porto poderia levar a melhor nesta batalha.

Depois disso, tudo desmoronou como um castelo de cartas, com o segundo golo do Liverpool a surgir logo a seguir, por Salah (aos 29"), na recarga a um remate de Milner ao poste em que a genialidade do egípcio (30.º golo esta época) se fez notar na tranquilidade com que superou Sá antes de atirar para as redes. Soares ainda teve nos pés, mesmo antes do intervalo, a possibilidade de dar uma injeção de ânimo ao dragão, mas o remate saiu a centímetros do poste.

Sérgio Conceição tentou então o arrojo de abrir o FC Porto em 4x4x2 para a segunda metade (com a entrada de Corona para o lugar de Otávio), mas isso apenas estendeu a passadeira para um desfile do Liverpool que se aproximou em largos períodos desse gesamtkunstwerk, o conceito de arte total idealizado por Richard Wagner no século XIX e que Klopp quer transpor para o futebol das suas equipas. Ontem, no Dragão, ficou muito perto disso, com uma goleada histórica a devolver o FC Porto de forma dura à realidade interna.

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