Dragão promete apertar o cinto após piores resultados de sempre

Com prejuízo-recorde superior a 58 milhões de euros, FC Porto anuncia um novo ciclo de austeridade para reduzir custos com o plantel. E assume falhar o fair-play financeiro da UEFA

"Não são uns bons resultados." Fernando Gomes não se esforçou por disfarçar o indisfarçável e assumiu logo de entrada aqueles que são os piores resultados anuais de uma SAD no futebol português. Afinal de contas, 58,4 milhões de euros de prejuízo dariam muito trabalho para "dourar". Não era esse o objetivo, sequer, garantiu o antigo presidente da autarquia portuense e agora responsável pelas contas portistas. Pelo contrário: o FC Porto sabe que pecou e este relatório e contas de 2015/16 é a sua confissão ao mercado, acompanhada pelo ato de contrição que Fernando Gomes desfiou ontem perante os jornalistas, à frente de Pinto da Costa e da restante administração.

Os proveitos operacionais desceram mais de 17 milhões, os custos subiram 14, o passivo disparou (mais de 70 milhões, para 349, explicado em parte pela incorporação do Porto Canal). Não havia, de facto, como maquilhar resultados tão negativos, que bateram até os 45,9 milhões de prejuízo do Sporting de Godinho Lopes em 2011/2012.

O FC Porto assumiu-os e justificou-os com uma tríade de fatores: primeiro, uma "política assumida" de não vender os seus melhores jogadores para não comprometer as aspirações desportivas de entrada na Liga dos Campeões - em que os dragões tiveram de superar um playoff contra a Roma; depois, os fracos desempenhos da época passada, que resultaram numa baixa receita nas competições europeias e tiveram danos colaterais com indemnizações a duas equipas técnicas (Lopetegui e José Peseiro); e por último, e o mais preocupante de todos, os elevados custos com o pessoal, que ascenderam a mais de cem milhões de euros entre salários e amortizações e levaram o administrador portista a uma confissão crua: "Inflacionámos para além do que seria razoável os salários do plantel".

Abalado, o FC Porto caiu na real, admite Fernando Gomes. E promete apertar o cinto. O plano de recuperação traçado começa por aí: reduzir custos com o plantel. "Sem perder competitividade", tentou tranquilizar o administrador, que garantiu que a equipa técnica concordou ser possível fazer melhor com menos dinheiro. "Temos de ter mais cuidado com as contratações", explicou, revelando que a SAD azul e branca resolveu fazer deste exercício um "ano zero" no Dragão.

Foi por isso, anunciou ainda Fernando Gomes, que o FC Porto recusou vender até ao final de junho passado três dos seus principais jogadores: Andre Silva, Danilo e Herrera. "Tivemos propostas que nos permitiam encaixar 95 milhões de euros e apresentar aqui hoje contas positivas", informou. Mas "o interesse desportivo" falou mais alto "num momento em que ainda não se tinha obtido a entrada na Champions".

O FC Porto tem "consciência" de que incumpriu as regras do fair-play financeiro da UEFA e fica sujeito às eventuais sanções - uma simples advertência, multa, retenção de prémios, impedimento ou redução de inscrição de jogadores, ou, nos casos mais graves, a suspensão das provas europeias. Fernando Gomes garantiu que o FC Porto tem dialogado com a UEFA e que as partes estão "em sintonia": o FC Porto terá de reduzir custos.

O compromisso assumido pela SAD é concretizar essa redução ao longo dos próximos três anos, começando por cortar 20 milhões nos gastos com o plantel durante as próximas duas temporadas. A ideia é ficar menos dependente das receitas extraordinárias com as transferências de jogadores - que há dois anos, lembrou Gomes, "atingiram o recorde de 117 milhões de euros em vendas". Mas a galinha dos ovos de ouro envelheceu e o FC Porto tem de voltar a fazer pela vida.

Helton rescindiu

O relatório e contas entretanto enviado à CMVM permitiu também ficar a saber que: o FC Porto já rescindiu contrato com o guarda-redes Helton; gastou 4,4 milhões de euros em indemnizações pelas rescisões com o brasileiro e com os técnicos Lopetegui e José Peseiro; os reforços Alex Telles, Depoitre e Boly custaram um total de 19 milhões de euros; o FC Porto gasta 1,6 milhões de euros com jogadores emprestados a outros clubes; e ainda que Pinto da Costa auferiu 520 mil euros de salário (dos 1,970 milhões de euros pagos aos administradores da SAD).

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