"Existiu um preconceito quando comecei a competir na Liga"

Na véspera do arranque da terceira etapa da Liga Moche (que se realiza no Porto e em Matosinhos entre sexta-feira e domingo), o surfista brasileiro que está radicado em Portugal fala dos tempos em que andou no circuito mundial e das diferenças que sente no atual panorama do surf

Já alcançou vários resultados importantes na sua carreira, fez parte da elite mundial e é um surfista muito conhecido no Brasil. Por que motivo decidiu mudar-se para Portugal?
Foi uma decisão tomada em família. Tenho duas filhas pequenas. Na altura em que decidimos vir para cá, o Rio de Janeiro estava a passar pela fase pré-Copa do Mundo, uma confusão louca, e achámos que Portugal seria um local mais calmo para viver, com uma melhor qualidade de vida e um ambiente mais tranquilo para as crianças. Depois, aos poucos, comecei a ter todas as possibilidades de voltar a ser um surfista a 100% e agarrei-me a isso.

Muitas pessoas acham que nos últimos anos o surf explodiu no Brasil. E isso por um lado é verdade com Gabriel Medina a sagrar-se o primeiro campeão do mundo na história do país, em 2014, e Adriano de Souza renovando a liderança verde e amarela no ano seguinte. No entanto, continua a ser muito difícil para os outros surfistas, que não pertencem à elite, lutarem pela qualificação. Como explica isso?
O Brasil passou por uma mudança muito grande com a geração do Medina, eu pertenço à anterior e no meu tempo os surfistas do WCT tinham um grande espaço, mas os que estavam quase a qualificar-se também tinham. Hoje o que vejo é: os surfistas da elite têm um espaço enorme e o resto não. Penso que isso se deve ao facto de o desporto ter crescido muito, com as mudanças na World Surf League (WSL) e a valorização em termos globais dos atletas nos media - a entrada das grandes TV a fazerem publicidade e a cobrirem os eventos. Passámos a ter surf a ser assunto nos horários nobres, algo que nunca existiu; passámos a ter surf no Jornal Nacional como se fosse futebol e isso também nunca existiu; e isso fez que grandes empresas entrassem no desporto, o que provocou um boom gigante. Mas nesse boom muito gigante, o interesse das marcas começou a recair apenas sobre aqueles que dão o maior retorno, ou seja, os surfistas do WCT, e assim abriu-se um espaço enorme em termos de patrocínios entre quem está na elite e quem está fora. E isso afetou também o circuito nacional e os regionais. O crescimento deveria ter acontecido como um todo, mas não foi o caso.

Você, o Tiago Pires e o Marlon Lipke são os únicos surfistas da Liga que já fizeram parte do WCT. Como recorda esses tempos?
Para mim, a passagem pelo WCT foi muito importante. Qualifiquei-me muito novo e cresci e evolui muito durante esse período. Tenho pena de na altura não ter tido o suporte que hoje tenho, um apoio que faz que os atletas se mantenham na elite e progridam da maneira correta. Além disso, o facto de já ter estado no WCT dá--me uma confiança maior quando hoje estou novamente a disputar essas vagas.

Quais as diferenças entre o circuito do seu tempo e o atual?
Muitas! Hoje em dia não só o WCT como toda a organização da WSL apresenta toda uma política e abordagem diferente, um posicionamento entre países distintos, o próprio julgamento é muito mais justo e atualmente eles têm em consideração muito mais o surf em si do que quem está dentro de água. Agora vemos o Kelly Slater perder na segunda ronda, ele é o melhor atleta de todos os tempos. Antigamente isso era impossível. Não deixam ele, o Joel Parkinson ou o Mick Fanning perder antes da segunda ou terceira fases do campeonato e isso faz que o circuito fique muito mais dinâmico, que outros atletas apareçam e que novas gerações venham. Até mesmo o ambiente do circuito é diferente, muito mais profissional, boa onda. Antigamente era muito mais agressivo e radical, os surfistas brigavam no free surf (sessões de treino) e saíam no tapa dentro de água.

Quando os surfistas portugueses se aperceberam de que você iria competir na Liga deles, e sendo você um concorrente de peso, sentiu alguma forma de preconceito ou exclusão?
Nunca tive muita dificuldade em integrar-me porque sou muito reservado e quando cheguei já tinha vários amigos de longa data, portugueses e brasileiros, que viviam cá. Mas, sendo sincero, existiu um preconceito no início quando eu comecei a competir na Liga e existe ainda hoje. É algo triste porque existe uma diferença entre quem vem cá para passar uma temporada e vai embora, e atletas estrangeiros como eu que se mudaram para Portugal para somar e fazer que o país cresça mais no surf e evolua. Mas, infelizmente, isso acontece, muito mais no lado competitivo e nas marcas. Hoje, quase não tenho patrocinadores portugueses pelo simples facto de ser brasileiro, mesmo carregando a bandeira de Portugal para todo o lado e competindo pelo país. Penso que é uma questão cultural e pode ser que com o tempo se dilua, por isso tento não pensar nisso e antes no lado bom da coisa, que é toda a estrutura que tenho aqui e possibilidade que tenho em correr o circuito mundial de qualificação.

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