Ronaldo: a temporada em que (quase) goleou Messi

Não foi o Euro perfeito de CR7, mas com a seleção nacional ganhou mais um ponto na sua corrida particular com o argentino do Barcelona, que tem lugar há uma década

Tirando a Liga espanhola, ganha pelo Barcelona, este foi um ano em que Ronaldo quase goleou Leo Messi: ganhou a Liga dos Campeões e foi ele a apontar o penálti decisivo; marcou mais de 50 golos outra vez (51 em todas as competições); ganhou antes do argentino uma grande competição com a sua seleção nacional; finalmente, enquanto La Pulga era condenado a 21 meses de prisão, CR7 continua a ter uma imagem de rigor também no que toca à sua relação com as autoridades. E está a caminho, com grande probabilidade, de ganhar a sua quarta Bola de Ouro.

Igualou (não ultrapassou) os nove golos em fases finais do Europeu de Platini, tornou-se o homem com mais jogos em Europeus (21), ultrapassou Figo como o mais internacional (132) de sempre, é o maior goleador da seleção e da história do Real Madrid. Está a caminho de ser o maior desportista português de sempre.

Cristiano Ronaldo não fez um Europeu perfeito, mas fez sempre um Europeu comprometido com a equipa. Ontem um jornalista de uma rádio belga perguntava-me se aquela forma de estar no banco a partir de certa altura, na final, não tinha sido uma forma de se evidenciar. Creio que o tamanho do ego de CR7 é muito grande, seja qual for o ângulo de análise, mas a vitória de ontem dava-lhe mais essa pequena vitória sobre Messi a nível de seleções. Não é fácil derrotar o talento natural que é Messi, mas Ronaldo tem conseguido isso com regularidade nestes dez anos em que há muitos clubes e muitos jogos e no fim é preciso saber se quem ganhou foi o argentino ou o português. Este ano a vitória é de cá.

Cristiano Ronaldo, na expressão de Rio Ferdinand, seu antigo colega no Manchester United, "tornou-se uma máquina de rematar e marcar golos", como escreveu no Sunday Times no início do Euro. Nunca isso foi tão verdade como no início desta prova: nos primeiros três encontros, CR7 rematou 32 vezes e marcou dois golos só no ultimo jogo, quase à média de 11 remates em cada 90 minutos, bem acima da sua média no clube, em que nesta época rematou 5,5 vezes/jogo na Liga espanhola para 35 golos. Na segunda parte do Euro, a coisa desceu drasticamente: um remate com a Croácia, cinco à Polónia e oito remates à baliza de Gales. No total, a sua média de remates foi de 7,6, acima mesmo dos anos em que rematou mais na Liga espanhola (7,1 em 2010-11, o ano da chegada a Madrid, e 2013--14). Ou seja, demorou a calibrar, talvez se possa dizer que a partir de certa altura aceitou que a equipa era maior do que ele e tinha de ser o conjunto a resolver os problemas, não tinha de ser, não podia ser só ele, não podia depender tudo da sua máquina de remate. Isso notou-se na sua linguagem corporal: passou da ansiedade dos primeiros jogos a uma maior serenidade depois, quando até deixou Raphaël Guerreiro marcar um livre direto (frente à Polónia). Nos primeiros jogos isso era impossível.

Claro que não é a mesma coisa jogar na seleção ou no clube - a seleção de Fernando Santos joga no resultado mínimo, o Real tem cultura de resultado máximo possível. Assim foi mesmo decisivo em dois encontros - com a Hungria, com dois golos, com Gales, com golo e meio. Nos outros estava quase a recuperar da longa época e tinha-se visto, em Milão na final da Liga dos Campeões, que não estava no melhor da sua forma física.

Na fase a eliminar também começou a cometer faltas ele próprio, precisamente por parecer mais implicado com a equipa, talvez por se convencer finalmente de que o plano de voo era defender e atacar pela certa, não desperdiçar tiros sem jeito. Mas sobretudo defender bem e nem ele se poupou em jogos como o da Croácia ou o da Polónia.

Fernando Santos teve de arranjar um sistema que fosse ao mesmo tempo seguro e pudesse tirar o melhor de CR7. Essas eram as premissas fundamentais. Daí o 4-4-2 em que Ronaldo procurava partir da ala para ser o ponta-de--lança em part-time que gosta de ser, porque nunca foi de estar a levar com rudes centrais em cima. Foi assim um Cristiano que ajudou a equipa, não foi ele e mais dez. Aguentando longos períodos de obscuridade, longe da bola. Ou mesmo quase cem minutos no banco. Falta meia época para se saber quem é o Bola de Ouro, mas se tudo correr normalmente a quarta deve ir para o museu de CR7 na Madeira.

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