Bale, o Príncipe que transformou o destino do País de Gales

Gareth Bale marcou sete dos 11 golos do País de Gales na fase de apuramento, assumindo-se como a grande estrela de uma seleção que vai estrear-se agora em Europeus de futebol

E, à 14ª tentativa, o País de Gales conseguiu. Hoje, em Bordéus, aquela que é a terceira seleção mais antiga do mundo (fez o seu primeiro jogo a 25 de Março de 1876, em Glasgow, frente à Escócia - o que significa que já passaram 140 anos) vai finalmente estrear-se numa fase final do Campeonato da Europa, curiosamente frente a outro debutante, a Eslováquia, que precisou apenas de seis tentativas para se apurar pela primeira vez.

Num jogo que mais parece um confronto saído de A Guerra dos Tronos (Dragões contra Falcões), esta será uma espécie de coroação de Gareth Bale como o verdadeiro Príncipe de Gales - o esquerdino do Real Madrid conduziu, com o seu talento, a equipa durante a fase de qualificação, na qual assinou sete dos 11 golos apontados pelo conjunto de Chris Coleman. Se o País de Gales já teve outros futebolistas de classe internacional - de Ryan Giggs a Ian Rush ou Mark Hughes... -, nenhum deles conseguiu vestir a camisola nacional numa grande competição internacional, como sucede agora com Gareth Bale.

Diga-se, em abono da verdade, que Gales até já esteve num Mundial. Em 1958, na prova que deu a conhecer ao mundo um jovem conhecido por Pelé, os Dragões - que nessa altura só se qualificaram porque a FIFA os convidou para um play-off contra Israel - até passaram a primeira fase, com três empates no grupo e um triunfo frente à Hungria num jogo de desempate, caindo apenas pela margem mínima ao pés do futuro campeão do mundo, o Brasil da revelação Pelé.

Desde esse 19 de junho em Gotemburgo já passaram, portanto, 21 177 dias, tempo mais que suficiente para os adeptos celebrarem hoje, em Bordéus, em grande estilo. Mesmo que ainda prefiram o râguebi, onde têm mais alegrias.

Talento precoce

Natural da capital Cardiff, cidade situada a meia-hora de comboio de Bristol, Bale cedo chamou a atenção de clubes poderosos de Inglaterra. Num torneio de futebol de seis o Southampton ficou de olho nele, apesar de, na altura, ter apenas 9 anos. Sobrinho de um antigo jogador do Cardiff, Chris Pike, não demorou muito para que chegasse à primeira equipa dos Saints: fê-lo com apenas 16 anos e 275 dias (mais novo do que ele a estrear-se no Southampton apenas Teo Walcott).

Reza a lenda que aos 14 anos já corria os 100 metros em 11,4 segundos (a rapidez é uma caraterística que conservou, como o demonstrou aquela fantástica correria que deu uma Taça do Rei ao Real Madrid na final com o Barcelona) e que a escola onde cresceu teve de criar regras especiais para ele: nada de futebol ao primeiro toque, nem de utilizar o pé esquerdo, de modo a equilibrar os jogos. Por isso, ninguém se espantou quando rumou ao Tottenham, nem quando o Real pagou 101 milhões pelo seu passe.

Por tudo isto, o dia 27 de maio de 2006 é um verdadeiro ponto de viragem na fortuna dos Dragões. Num particular em Graz, na Áustria, frente a Trinidad e Tobago, Bale rendeu David Vaughn aos 55" e a partir daí começou uma nova era para a seleção do País de Gales, culminada uma década depois com a presença em França. Curiosamente, registe--se que o primeiro golo do extremo - que na seleção acompanha Robson-Kanu (ou Vokes) na frente de ataque - foi apontado a 7 de outubro desse ano num desastre caseiro perante a Eslováquia (1-5), nem mais nem menos que o adversário que hoje assinala a estreia no Euro.

Obviamente, como aconteceu algumas vezes ao longo da história, antes de tudo isto a Inglaterra ainda chegou a sondar Bale (avó era inglesa) para representar a equipa dos Três Leões. Mas o extremo nem quis ouvir falar do assunto. "É uma honra jogar por Gales", disse na altura.

Remorsos e satisfação

Apesar de tudo, Bale, que já é, aos 26 anos, o quinto melhor marcador de sempre dos Dragões (com 19 golos, menos nove do que Ian Rush), também teve a felicidade de estar no lugar certo à hora certa. A decisão de alargar o Europeu para 24 seleções abriu um leque de possibilidades a seleções que à partida teriam menos hipóteses de apuramento direto, como é o caso do País de Gales - segundo classificado no respetivo grupo, atrás da Bélgica (com quem, registe-se, não perdeu), teria provavelmente de disputar um play-off em qualquer uma das últimas edições do torneio.

Ainda assim, este apuramento é um privilégio que os já referidos craques galeses não tiveram. Ryan Giggs, ídolo de Bale e símbolo do Manchester United - que durante a carreira de jogador foi muitas vezes acusado de desprezar a seleção (chegou a "baldar-se" a 18 particulares consecutivos...) - garantiu que se tal não aconteceu não foi por falta de entrega. "Não estive numa fase final, mas sei quanto nos esforçámos para o conseguir. Para uma seleção galesa chegar a um grande torneio terá de ser melhor do que qualquer outra seleção galesa - e cer-tamente, melhor do que as equipas onde joguei", referiu o extremo (que esteve perto de o conseguir em 1994 e 2004) numa entrevista ainda antes de o apuramento estar confirmado.

Por seu turno, Ian Rush, que além de marcar como mais ninguém na seleção era um temível goleador em Liverpool, confessava que o seu maior remorso era o de nunca ter estado numa fase final, sonho que agora vai poder cumprir. "Vai haver mais adeptos galeses em França do que aqueles que ficam em Gales. É o que isso significa para nós!", disse.

Outra lenda, Mark Hughes, antigo internacional, atual técnico do Stoke City e que foi (de 1999 a 2004) um dos 13 selecionadores galeses a tempo inteiro desde que o cargo passou a existir em 1954, também não escondeu a desilusão por não ter estado num torneio internacional e a satisfação por esta proeza: "Nunca passei por essa experiência mas não sou o único galês a dizê-lo. Houve um tempo em que pensei que nunca iria acontecer. Creio que as circunstâncias ajudaram desta vez. Sempre houve um bom espírito nas equipas de Gales, isso nunca faltou, mas desta vez têm um bom grupo, a jogar a um bom nível, e o formato da prova acabou por ajudar. Os próximos anos serão tempos excitantes para o futebol galês".

Opinião, de resto, partilhada pelo próprio Bale: "Isto é apenas o começo, queremos inspirar toda uma geração e a nação." Hoje, o jogo perante a Eslováquia, é apenas o primeiro teste deste novo País de... Bales.

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